Moradores dos Jardins querem impedir prédios comerciais em novo Plano Diretor

Por Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo | - Atualizada às

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Para associação Ame Jardins, mudança em zoneamento da região pode descaracterizar a região; urbanista diz que assunto só interessa aos ricos que querem preservar seu bairro

Wanderley Preite Sobrinho/iG
Imagem aérea das região exclusivamente residencial dos Jardins

Um dos pilares do Plano Diretor Estratégico (PDE) de São Paulo, o zoneamento da cidade é uma das principais bandeiras encampadas pelos moradores dos Jardins, uma das regiões mais ricas da cidade encravada na divisa entre as zonas oeste e sul. Representados pela Ame Jardins, seus moradores ilustres temem que a revisão do PDE – prevista para este ano – mude o zoneamento local, permitindo que mais prédios comerciais ocupem suas ruas, boa parte delas destinadas exclusivamente a casas.

(Nesta semana, o iG apresenta uma série de reportagens sobre a revisão do Plano Diretor de São Paulo)

Os quatro bairros que formam a região – Jardins América, Europa, Paulista e Paulistano – abrigam mais de 8.500 árvores, sendo considerado por seus moradores um dos pulmões da cidade. “Verticalizar é tomar o lugar das árvores que hoje existem nos bairros”, afirma o diretor executivo da Ame Jardins, João Maradei. É ele quem administra a associação encabeçada por um grupo de empresários bem sucedidos, como seu presidente Julio Serson - setor hoteleiro - , o vice João Dória Júnior - jornalista e empresário - e conselheiros como o vereador Andrea Matarazzo (PSDB) e os empresários João Paulo Diniz e Fábio Ermírio de Morais.

Ao lado de outros bairros como o Brooklin Vellho, Alto de Pinheiros e Alto da Lapa, os Jardins pertencem ao que o Plano Diretor chama de Zona Exclusivamente Residencial (ZER). Nela, apenas casas com no máximo três pavimentos podem ser construídas e onde só uma família pode viver. “Há alguns corredores de comércio, como é o caso das avenidas Europa e Brasil e ruas Oscar Freire, Colômbia e Groelândia, mas eles são exceção”, enumera o executivo.

Associação e urbanista divergem sobre zoneamento da região. Assista:

Vídeoreportagem: Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo

Disputa bairro x cidade:

Maradei afirma que vem recebendo denúncias de associados, que testemunhariam o uso de mansões para fins comerciais. “Nós tememos que o Plano Diretor abra espaço para empreendimentos imobiliários, especialmente comerciais”, diz. “Construtoras estão querendo levantar prédios com mais de 25 andares em ruas estreitas, o que traria um enorme transtorno.”

Para o vereador José Police Neto (PSD), os influentes moradores da região querem municipalizar um assunto local. “É uma briga interna envolvendo gente insatisfeita com a atitude de vizinhos que vêm utilizando suas residências para outras funções. Mas não vejo ninguém na prefeitura que pense seriamente em alterar o zoneamento na região.”

Maradei confirma o uso irregular por parte de alguns moradores, mas diz o problema é tão real que a Ame Jardins está recorrendo a vereadores e à prefeitura para que a mudança não saia do papel. “Pedimos à fiscalização que seja severa, com multa e fechamento dessas empresas e escritórios que afrontam o zoneamento dos Jardins.”

Críticas

“O que eles querem manter é a qualidade de vida do bairro deles, é o silêncio, o verde...”, avalia o professor de urbanismo da Universidade de São Paulo, Flávio Villaça. “Em Paris, Londres não existem bairros exclusivamente residenciais, a não ser na periferia longínqua.”

Para o professor, é legítimo que os moradores dos Jardins protejam seu bairro, “mas dizer que é interesse público? Isso, não”.

Divulgação/ALOF
Oscar Freire é um dos corredores comerciais da região

Maradei alega que os Jardins é um bairro tombado pelo Patrimônio Histórico em razão de sua vegetação, razão que justificaria a discussão do tema por toda a cidade. “Ele é tombado em seu traçado urbano, em sua vegetação. Tem uma carga de importância para a cidade de São Paulo muito grande, e nós queremos que esse bairro seja preservado como ele se encontra.”

O zoneamento

Aprovado em 1932, o zoneamento urbano pretendia orientar o uso dos terrenos na cidade de São Paulo. Atrasado no tempo, ele passou a fazer parte do Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado, aprovado em 1972. A justificativa era a necessidade de o zoneamento acompanhar o desenvolvimento do município de forma mais integrada a outras questões sensíveis a ele.

Por outros 30 anos, a lei permaneceu inalterada, mas em 2002 a Câmara Municipal aprovou o Plano Diretor de Desenvolvimento Estratégico (PDE), que define a utilização desses terrenos até hoje. A delimitação nessas zonas impede a construção de prédios em local proibido e orienta empresas e população sobre o tipo de imóvel que se pode comprar ou alugar.

O iG publica nesta quarta-feira (15) a terceira reportagem da série "Plano Diretor de São Paulo" – sobre a mudança esperada na regra para habitação social na cidade e as críticas das construtoras.

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