Núcleo prometido para atender dependentes químicos acumula entulho, enquanto aumenta a tensão entre enfermeiros: 'Nem a chegada de usuários de crack é razão para greve?'

Marcado para acontecer às 10h da última sexta-feira (3), uma reunião entre funcionários do Centro de Saúde Mental Philippe Pinel só começou com meia hora de atraso. Reunidos na quadra poliesportiva do complexo, em Pirituba, na zona oeste de São Paulo, alguns começaram reclamando dos salários, outros se queixaram da carga horária de trabalho. Mas a reunião só começou de fato quando uma auxiliar de enfermagem tomou a palavra para fazer a pergunta inevitável: “Nem a chegada de usuários de crack é razão para a gente entrar em greve?”

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Os comentários foram imediatos. Uma enfermeira começou lembrando do recente furto de uma bolsa que terminou no Boletim de Ocorrência 2536/2013. “Encontraram os documentos jogados no terreno alguns dias depois”, disse ela. No boletim, a funcionária coloca sob suspeita os usuários de crack, que desde o dia 21 de janeiro são encaminhados - de forma involuntária ou compulsória - para tratamento em nove hospitais psiquiátrico do Estado como parte do programa Enfrentamento ao Crack, lançado pelo governo estadual.

De acordo com o boletim, “funcionários estão sendo furtados, ameaçados, os pacientes continuam a utilizar substâncias entorpecentes”. Mais a frente, diz que “menores estão mantendo relações sexuais no local, e os funcionários não estão conseguindo conter a situação.”

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Outra enfermeira que preferiu guardar sigilo sobre sua identidade descreveu o flagrante que deu em um casal, que na semana anterior mantiveram relações sexuais em um dos banheiros da ala feminina. “O rapaz entrou escondido. Tivemos de chamar a segurança.”

Nem todo interno resiste à abstinência e foge do Pinel para buscar drogas no bairro de Pirituba. No sábado (27), um menino caiu de um muro e quebrou um dos braços ao tentar sair do hospital. “Eles saem à noite para comprar droga e depois voltam. Aí ficam usando pelo terreno, principalmente à noite.”

Relatos como esses já haviam chegado ao Ministério Público, que protocolou uma ação no Tribunal de Justiça de São Paulo pedindo que os leitos psiquiátricos do Pinel voltassem a ser utilizados apenas para o tratamento de doentes mentais. A desobediência custaria aos cofres do governo paulista R$ 100 mil por dia. A ação aguarda parecer.

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Para um dos responsáveis pelo processo, o promotor Arthur Pinto Filho, a internação desses jovens em hospitais psiquiátricos é duplamente ineficaz: “Os dependentes químicos ficam internados por apenas um mês, quando o tempo mínimo necessário para desintoxicação é de seis meses”. Ele também teme a ocorrência de confrontoentre esses pacientes e doentes mentais, especialmente aqueles de comportamentoviolento.

José Alberto Batista, 59 anos, tem o mesmo medo. Seu filho, diagnosticado com “autismo de grau severo” está há oito meses morando no Pinel. Até conseguir a internação, o garoto era mantido amarrado em um quarto na cidade de Itapevi, na Grande São Paulo. “A agressividade de um autista severo aumenta até a idade dos 30 anos, quando se estabiliza. Eu temo que meu filho ou outro autista acabe agredindo um menor infrator, que pode revidar.”

Prédio abandonado

O Pinel é conhecido por manter uma rotina serena, típica do tratamento-modelo do hospital, fundado em 1929 em um terreno arborizado, de calçadas largas e prédios em estilo colonial. A tranquilidade daquela manhã de sexta-feira só deu lugar à tensão que tomou um grupo de enfermeiros que fazia guarda diante da ala feminina, de onde saiam do café da manhã as primeiras garotas em tratamento contra o vício. Elas se concentraram no playgroaund à espera dos garotos da ala masculina, que chegaram em questão de minutos.

Parte externa do Antigo Convívio, prédio que precisa de reforma para receber dependentes químicos
Wanderley Preite Sobrinho/iG
Parte externa do Antigo Convívio, prédio que precisa de reforma para receber dependentes químicos

Enquanto os grupos se encontravam, auxiliares de enfermagem tentavam conduzir os doentes mentais para outra parte do terreno. Alguns adolescentes se beijavam, outros pediam cigarro. Uma delas anunciava feliz que o mês de internação acabou enquanto acompanhava com os olhos garotos ainda mais jovens sendo escoltados por enfermeiros até o núcleo de infância e adolescência. Quando os meninos passaram, uma auxiliar comparou: “Olha o que somos obrigadas a fazer. A gente é cuidador, não carcereiro”.

Pelas contas dos enfermeiros, 60 dependentes são tratados no Pinel, número acima dos 24 leitos reservados pelo governo no início do ano. Os funcionários receberam os novos internos com a promessa do governo de que o Antigo Convívio, um casarão de dois andares, seria reformado para abrigá-los, devolvendo aos doentes mentais as alas masculina, feminina e o núcleo de infância e juventude.

No local, a reforma não começou. Dentro do prédio, equipamentos médicos e administrativos se acumulam pelos corredores e quartos que serviriam ao atendimento dos menores. Há salas com leitos hospitalares empilhados, outras com balanças, cadeiras de roda, desfibriladores, ventiladores, geladeiras, fogões.

Para Batista, a construção de abrigos exclusivos para dependentes devolveria a tranquilidade ao Pinel. “Essa mistura é prejudicial. Só quem não entende de autismo pode permitir uma coisa dessas.”

Procurada, a Secretaria Estadual de Saúde afirmou que o Pinel "desconhece que exista consumo de drogas nas dependências da unidade" e que "tal afirmação é ofensiva para com os pacientes, familiares e profissionais que atuam na unidade":

"Sobre os relatos de funcionários a respeito de ameaças e mesmo violência, é importante que busquem denunciar à direção da unidade para que as medidas legais sejam adotadas. A Secretaria informa que a reforma da antiga área de convívio para atendimento a dependentes químicos está em fase final de projetos para elaboração de edital de licitação."

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