Policiais repetiram o mesmo argumento no 5º dia de julgamento: a Rota foi recebida com hostilidade, mas não usou explosivos ou rajada de metralhadora ao invadir o Carandiru

Após 21 policiais militares preferirem ficar em silêncio, quatro oficiais deram sua versão nesta sexta-feira (19) para o Massacre do Carandiru, ocorrido em outubro de 1992. A advogada que defende os réus, Ieda Ribeiro de Souza, escalou um capitão, um coronel, um sargento e um soldado para reafirmar o mesmo argumento: as tropas da Rota não usaram explosivos na ação e não disparam rajadas de metralhadora, embora os detentos estivesses munidos de facas e estiletes. A declaração mais importante foi dada pelo tenente Aércio Dornellas: responsável pela ação, o coronel Ubiratan Guimarães teria ordenado a invasão ao Pavilhão 9 depois que um detento efetuou um disparo com arma de fogo.

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"Ubiratan deu a ordem [para entrar] após disparo de arma de fogo", afirmou. De acordo com ele, a Tropa de Choque estava pronta para entrar empunhando apenas escudos e cassetetes, mas, após o disparo, as autoridades teriam pedido para que ela abrisse espaço para que cerca de 30 oficiais da Rota, que estavam na retaguarda, assumissem a invasão.

Depois de ultrapassar a barricada no segundo lance da escada que dava acesso ao pavilhão, os PMs teriam se deparado com um andar tomado por fumaça e escuridão, o que dificultava a identificação dos detentos, que empunhavam facas e estiletes.

Dornellas tentou explicar como as metralhadoras foram utilizadas na invasão: “No meu pelotão, havia uma metralhadora com um sargento e ele deu dois ou três tiros. Não houve rajada. Não há braço humano que segure como o perito falou. Essa arma é usada em último caso", explicou.

O então tenente dividiu a tarefa de liderar a invasão com o capitão Ronaldo Ribeiro dos Santos . Quando os dois chegaram ao pavilhão, cada um levou consigo cerca de 15 policiais para lados opostos. "Foi uma ação quase que simultânea, mas fomos os primeiros a chegar ali. E fomos recebidos com hostilidade", explicou o capitão . Com a visibilidade de 1,5 metro, Santos argumentou que não poderia precisar se o que vinha em sua direção eram tiros. "Somos treinados, vi uns clarões. E isso deu para entender que eram disparos feitos pelos presos."

Bem articulado, o militar também afirmou que o plano de emergência e a ordem de invadir partiram do coronel Ubiratan. Ele teria ordenado ainda que os policiais deveriam "reagir no mesmo nível". E, "ao contrário do que muitos podem pensar", o confronto entre a tropa e detentos durou entre 10 e 15 minutos. "Foi tudo muito rápido", disse ele confirmando que atirou três vezes. Ele explicou ainda que, ao perceber a situação "segura", realizou vistorias em celas do lado esquerdo do corredor, onde encontrou "no máximo três corpos".

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Sobre os supostos disparos efetuados por presos, Dornellas fez uma pausa antes de responder. "Armados? Lá o senhor não consegue identificar quem é aquele [que está vindo]. Vê a silhueta e se está fardado ou não. Mas ouvimos disparos e isso foi suficiente."

Esses depoimentos foram confirmados pelos últimos depoentes, o sargento Marcos Antonio de Medeiros e o soldado Marcos Ricardo Poloniato, que falaram rapidamente: os dois negaram o uso de explosivos na operação e repetiram a utilização moderada das metralhadoras. Medeiros lembrou que "a Rota tem treinamento para qualquer ambiente fechado", e que por isso não efetuou disparos dentro das celas, embora houvesse marcas pelas paredes.

Além de repetir o mesmo, Poloniato chegou a dizer que foi atingido por uma bala, que lhe ultrapassou o braço esquerdo. Segundo o o laudo do Instituto Médico Legal (IML), a perfuração media meio milímetro.

Silêncio

Nos primeiros 35 minutos, os jurados assistiram a 20 policiais militares e réus no processo a negarem explicacões sobre o episódio. Com as frases "após a orientacão da minha advogada", "para não cansar os jurados" e "sou inocente", os PMs justificam o uso do silêncio garantido por direito aos réus.

Em certo momento, o promotor Marcio Friggi chegou a pedir "pelo amor de Deus" para o réu Wlandekis Cândido Silva contar o que aconteceu durante a invasão. "Pelo amor de Deus, nos conte o que aconteceu naquele lugar", disse. A defesa então se manifestou e pediu ao juiz que intercedesse. "Por favor, não enfatize o sentimento que o senhor tem", reclamou Ieda.

Encerrados os interrogatórios. Os trabalhos serão retomados amanhã, a partir das 9h, com os debates entre defesa e acusação.

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