'Ubiratan deu a ordem para entrar após disparo de arma de fogo', diz tenente

Por Carolina Garcia e Wanderley Preite Sobrinho | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Policiais repetiram o mesmo argumento no 5º dia de julgamento: a Rota foi recebida com hostilidade, mas não usou explosivos ou rajada de metralhadora ao invadir o Carandiru

Após 21 policiais militares preferirem ficar em silêncio, quatro oficiais deram sua versão nesta sexta-feira (19) para o Massacre do Carandiru, ocorrido em outubro de 1992. A advogada que defende os réus, Ieda Ribeiro de Souza, escalou um capitão, um coronel, um sargento e um soldado para reafirmar o mesmo argumento: as tropas da Rota não usaram explosivos na ação e não disparam rajadas de metralhadora, embora os detentos estivesses munidos de facas e estiletes. A declaração mais importante foi dada pelo tenente Aércio Dornellas: responsável pela ação, o coronel Ubiratan Guimarães teria ordenado a invasão ao Pavilhão 9 depois que um detento efetuou um disparo com arma de fogo.

1º dia: Descrição do massacre e acusação contra Rota dominam 1º dia de júri
2º dia: Fleury e ex-secretário fazem mea culpa e responsabilizam Ubiratan por Carandiru
Papo na redação: Repórter conta como foi a cobertura do massacre do Carandiru  

"Ubiratan deu a ordem [para entrar] após disparo de arma de fogo", afirmou. De acordo com ele, a Tropa de Choque estava pronta para entrar empunhando apenas escudos e cassetetes, mas, após o disparo, as autoridades teriam pedido para que ela abrisse espaço para que cerca de 30 oficiais da Rota, que estavam na retaguarda, assumissem a invasão.

Julgamento dos 26 policiais acusados de assassinar 15 dos 101 presos mortos no Massacre do Carandiru, no dia 2 de outubro de 1992. Foto: Marcos Bezerra/Futura PressAdvogada de defesa aguarda início do julgamento no Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo (SP), nesta segunda-feira (8). Foto: Marcos Bezerra/Futura PressJulgamento será presidido pelo juiz José Augusto Nardy Marzagão. Foto: Marcos Bezerra/Futura PressAlunos da alunos da Faculdade de Direito colocaram 111 cruzes em frente ao Largo São Francisco como homenagem aos mortos do massacre do Carandiru . Foto: RENATO S. CERQUEIRA/FUTURA PRESS/AE

Depois de ultrapassar a barricada no segundo lance da escada que dava acesso ao pavilhão, os PMs teriam se deparado com um andar tomado por fumaça e escuridão, o que dificultava a identificação dos detentos, que empunhavam facas e estiletes.

Dornellas tentou explicar como as metralhadoras foram utilizadas na invasão: “No meu pelotão, havia uma metralhadora com um sargento e ele deu dois ou três tiros. Não houve rajada. Não há braço humano que segure como o perito falou. Essa arma é usada em último caso", explicou.

O então tenente dividiu a tarefa de liderar a invasão com o capitão Ronaldo Ribeiro dos Santos. Quando os dois chegaram ao pavilhão, cada um levou consigo cerca de 15 policiais para lados opostos. "Foi uma ação quase que simultânea, mas fomos os primeiros a chegar ali. E fomos recebidos com hostilidade", explicou o capitão. Com a visibilidade de 1,5 metro, Santos argumentou que não poderia precisar se o que vinha em sua direção eram tiros. "Somos treinados, vi uns clarões. E isso deu para entender que eram disparos feitos pelos presos."

Bem articulado, o militar também afirmou que o plano de emergência e a ordem de invadir partiram do coronel Ubiratan. Ele teria ordenado ainda que os policiais deveriam "reagir no mesmo nível". E, "ao contrário do que muitos podem pensar", o confronto entre a tropa e detentos durou entre 10 e 15 minutos. "Foi tudo muito rápido", disse ele confirmando que atirou três vezes. Ele explicou ainda que, ao perceber a situação "segura", realizou vistorias em celas do lado esquerdo do corredor, onde encontrou "no máximo três corpos".

Leia também:
Depoimento dos réus: Capitão da Rota é o 1º interrogado e cita situação 'insustentável'
Versão do tenente: 'Não houve rajada de metralhadora', diz sobre invasão ao Carandiru

Sobre os supostos disparos efetuados por presos, Dornellas fez uma pausa antes de responder. "Armados? Lá o senhor não consegue identificar quem é aquele [que está vindo]. Vê a silhueta e se está fardado ou não. Mas ouvimos disparos e isso foi suficiente."

Esses depoimentos foram confirmados pelos últimos depoentes, o sargento Marcos Antonio de Medeiros e o soldado Marcos Ricardo Poloniato, que falaram rapidamente: os dois negaram o uso de explosivos na operação e repetiram a utilização moderada das metralhadoras. Medeiros lembrou que "a Rota tem treinamento para qualquer ambiente fechado", e que por isso não efetuou disparos dentro das celas, embora houvesse marcas pelas paredes.

Além de repetir o mesmo, Poloniato chegou a dizer que foi atingido por uma bala, que lhe ultrapassou o braço esquerdo. Segundo o o laudo do Instituto Médico Legal (IML), a perfuração media meio milímetro.

Silêncio

Nos primeiros 35 minutos, os jurados assistiram a 20 policiais militares e réus no processo a negarem explicacões sobre o episódio. Com as frases "após a orientacão da minha advogada", "para não cansar os jurados" e "sou inocente", os PMs justificam o uso do silêncio garantido por direito aos réus.

Em certo momento, o promotor Marcio Friggi chegou a pedir "pelo amor de Deus" para o réu Wlandekis Cândido Silva contar o que aconteceu durante a invasão. "Pelo amor de Deus, nos conte o que aconteceu naquele lugar", disse. A defesa então se manifestou e pediu ao juiz que intercedesse. "Por favor, não enfatize o sentimento que o senhor tem", reclamou Ieda.

Encerrados os interrogatórios. Os trabalhos serão retomados amanhã, a partir das 9h, com os debates entre defesa e acusação.

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas