Capitão da Rota é o primeiro interrogado em júri e cita situação 'insustentável'

Por Carolina Garcia - iG São Paulo | - Atualizada às

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No quinto dia de julgamento do massacre do Carandiru, capitão responsável pela primeira tropa que invadiu o complexo penitenciário, em 1992, dá sua versão sobre o caso

Após 21 policiais militares preferirem ficar em silêncio, o primeiro réu a dar sua versão sobre o Massacre do Carandiru foi o capitão Ronaldo Ribeiro dos Santos, responsável pela primeira tropa que invadiu o complexo penitenciário, em 1992. O atraso também marcou a retomada dos trabalhos, nesta sexta-feira (19), no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste da capital. A sessão que estavam marcada para começar às 9h, foi iniciada por volta das 12h. Em seu relato, Santos foi enfático ao dizer que recebeu informações sobre uma "situação insustentável" na Casa de Detenção.

Ao vivo: Acompanhe o julgamento do massacre do Carandiru em tempo real
1º dia: Descrição do massacre e acusação contra Rota dominam 1º dia de júri
2º dia: Fleury e ex-secretário fazem mea culpa e responsabilizam Ubiratan por Carandiru
Papo na redação: Repórter conta como foi a cobertura do massacre do Carandiru 

Jornalistas esperam informações sobre a sequência do julgamento, nesta quarta-feira, em frente ao Fórum Criminal da Barra Funda. Foto: Carolina GarciaFachada do Fórum da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo, neste terça-feira, no segundo dia de julgamento do massacre do Carandiru. Foto: Tércio Teixeira/Futura PressJulgamento dos 26 policiais militares acusados de envolvimento no Massacre do Carandiru, realizado no Fórum da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo. Foto: Tércio Teixeira/Futura PressNa manhã desta segunda-feira (15), seis homens e uma mulher foram sorteados para formar o novo conselho de sentença que vai julgar os 26 acusados. Foto:  Tércio Teixeira/Futura PressMajor Olímpio em coletiva antes do julgamento dos 26 policiais militares acusados de envolvimento no massacre do Carandiru. Foto: Tércio Teixeira/Futura Press

O réu, que hoje é tenente-coronel da reserva da Polícia Militar, confirmou que sua tropa foi a primeira a chegar ao segundo pavimento da Pavihão 9. "Foi uma ação quase que simultânea, mas fomos os primeiros a chegar ali. E fomos recebidos com hostilidade", explicou. Com a visibilidade de 1,5 metro, o então capitão citou que a visão da tropa era comprometida pelo excesso de fumaça e escuridão e, por isso, não poderia precisar que viu tiros sendo disparados. "Somos treinados, vi uns clarões. E isso deu para entender que eram disparos feitos pelos presos."

Bem articulado, o militar explicou que o plano de emergência e a ordem de invadir partiram do coronel Ubiratan Guimarães. Ele teria ordenado ainda que os policiais deveriam "reagir no mesmo nível". E, "ao contrário do que muitos podem pensar", o confronto entre a tropa e detentos durou entre 10 e 15 minutos. "Foi tudo muito rápido", disse ele confirmando que atirou três vezes. Ele explicou ainda que ao ter a situação "segura" realizou vistorias em celas do lado esquerdo do corredor, onde encontrou "no máximo três corpos". As celas do lado direito seriam responsabilidade de outro oficial, o tenente Dornelas.

O promotor tentou apontar então momento de contradição no depoimento do capitão. Isso porque à Justiça Militar, de acordo com a promotoria, Santos afirmou que viu entre oito e 10 corpos. "Não falei que eram corpos, mas sim presos caídos", rebateu o PM.

Enquanto respondia às perguntas, durante as primeiras duas horas de seu interrogatório, Santos buscou desconstruir a imagem da Rota ser inexperiente ao agir em rebeliões em complexos penitenciários. Segundo ele, as tropas especializadas em choque, como a Rota, já atuaram em diversos motins em presídios estaduais. O réu foi oficial do batalhão durante um ano e três meses.

"A Rota não faz apenas policiamento urbano, mas é treinada para agir em situações de choque", disse. Nesse momento, o promotor Márcio Friggi atacou: "A tropa está então preparada para matar?". Santos respondeu: "Os soldados são preparados para um combate forte, vamos colocar assim". O policial ainda citou apreensões de armas de fogo que estariam com os presos. "O tenente Dornelas encontrou três armas e me entregou. Uma coloquei na minha cintura e outras duas entreguei para outros soldados".

Silencio

Nos primeiros 35 minutos, os jurados assistiram a 20 policiais militares e réus no processo a negarem explicacões sobre o episódio. Com as frases "após a orientacão da minha advogada", "para não cansar os jurados" e "sou inocente", os PMs justificam o uso do silêncio garantido por direito aos réus.

Em certo momento, o promotor Marcio Friggi chegou a pedir "pelo amor de Deus" para o réu Wlandekis Cândido Silva contar o que aconteceu durante a invasão. "Pelo amor de Deus, nos conte o que aconteceu naquele lugar", disse. A defesa então se manifestou e pediu ao juiz
que intercedesse. "Por favor, nao enfatize o sentimento que o senhor tem", reclamou Ieda Ribeiro. O número de quatro PMs que serão ouvidos em plenário foi decidido após acordo entre defesa e Ministério Público.


 

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