'Rota em rebelião, nunca mais', afirma desembargador após invasão em 1992

Por Carolina Garcia - iG São Paulo | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Desembargador chamado pela defesa afirmou que depois do massacre do Carandiru novas diretrizes foram tomadas em invasões a presídios. "Nada se aplica para hoje", afirmou

O segundo dia do julgamento do massacre do Carandiru, no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo, foi aberto com o depoimento do desembargador Ivo de Almeida, que cumpria função de juiz-corregedor em 1992, quando 111 presos foram mortos durante a invasão da polícia militar na Casa de Detenção. Em depoimento de mais de 2 horas, Almeida reforçou que a invasão se deu após o consentimento das autoridades, mas reconheceu que o caso mudou o modo de ação do Estado em casos de rebelião.

O júri: Acompanhe o julgamento em tempo real
Descrição do massacre e acusação contra Rota dominam 1º dia de júri do Carandiru

Jornalistas esperam informações sobre a sequência do julgamento, nesta quarta-feira, em frente ao Fórum Criminal da Barra Funda. Foto: Carolina GarciaFachada do Fórum da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo, neste terça-feira, no segundo dia de julgamento do massacre do Carandiru. Foto: Tércio Teixeira/Futura PressJulgamento dos 26 policiais militares acusados de envolvimento no Massacre do Carandiru, realizado no Fórum da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo. Foto: Tércio Teixeira/Futura PressNa manhã desta segunda-feira (15), seis homens e uma mulher foram sorteados para formar o novo conselho de sentença que vai julgar os 26 acusados. Foto:  Tércio Teixeira/Futura PressMajor Olímpio em coletiva antes do julgamento dos 26 policiais militares acusados de envolvimento no massacre do Carandiru. Foto: Tércio Teixeira/Futura Press

"Enviamos o [Batalhão de] Choque, a Rota faz parte dele. Mas, Rota nunca mais", disse ao júri. O juiz José Augusto Mazargão questionou em vário momentos a testemunha sobre sua experiêcia em rebeliões. "Hoje temos duas realidades: antes e depois do Carandiru. Nada se aplica para hoje", explicou.

No entanto, o depoimento de Almeida não pode ser considerado um ataque à ação dos militares já que ele afirmou não ter presenciado execuções ou truculência dos PMs. Segundo ele, nenhum civil entrou no local após a invasão do Choque e havia barricadas de fogo no acesso ao Pavilhão 9.

"De onde eu estava, vi alguns corpos parcialmente carbonizados e com fuligem", disse Almeida reforçando a tese da defesa da necessidade de uma intervenção mais agressiva já que os presos obstruíram a entrada do complexo.

Leia mais: Vi montanha de corpos e tive que escalar, diz sobrevivente do Carandiru
Fora do júrí: Deputado diz que réus serão absolvidos 'pelo senso de Justiça'
Acusação: 'Precipitação da Rota causou massacre', diz número 2 de presídio

Negociação e arrombamento

Almeida reforçou também as tentativas de negociação entre José Ismael Pedrosa, ex-diretor do Carandiru, e os presidiários. "Eles [presos] não queriam papo. Pedrosa tentou com megafone, mas não queriam conversa", explicou.

Rebatendo o que Moacir dos Santos, diretor de Segurança e Disciplina, disse nesta segunda-feira (15) em depoimento, Almeida citou que uma chave do portão não evitaria o arrombamento. "Havia barricadas e com focos de incêndio. Os bombeiros que arrombaram. Havia chave sim, mas ela foi inútil porque a porta estava obstruída."

Fernando Antônio Torres Garcia

O segundo desembargador ouvido nesta terça-feira foi Fernando Antônio Torres Garcia. Em sua breve oitiva, que não durou mais do que uma hora, o atual desembargador confirmou a necessidade uma intervenção mais séria no complexo, após tentativas frustradas de negociação. "É evidente que a situação era crítica e que havia necessidade da polícia dominar. Mas daí resultar em 111 mortos? Não há nexo." Segundo ele, no entanto, não houve maquiagem no número de mortos. "A apuração [sindicância realizada pela corregedoria] levou em conta tudo até depoimentos fantasiosos [dos presos]."

Após as oitivas de Almeida, será ouvido pelo menos mais um desembargador sobre o caso: Luiz Antônio França. O objetivo é reconstruir a história e mostrar que as autoridades decidiram em um consenso invadir o local. Um dos depoimentos mais esperados do dia é o ex-governador Luiz Antônio Fleury Filho e o do Pedro Franco de Campos, secretário de segurança à época.

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas