Descrição do massacre e acusação contra Rota dominam 1º dia de júri do Carandiru

Por Wanderley Preite Sobrinho e Carolina Garcia - iG São Paulo | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Julgamento que acontece no Fórum da Barra Funda, em São Paulo, vai analisar caso de 26 polliciais militares, a quem são imputados 15 acusações de homicídio qualificado

As descrições daquele dia 2 de outubro de 1992, quando 111 presos foram assassinados por policiais militares no Pavilhão 9 da Casa de Detenção de São Paulo, conhecida como Carandiru, dominaram o primeiro dia de julgamento de 26 PMs, acusados de participar do massacre. Com cinco testemunhas de acusação, as declarações renderam metáforas como “tapete de mortos” e dificultou a atuação da advogada Ieda Ribeiro de Souza, que defende os policiais. O testemunho mais importante do dia foi do número 2 do presídio na época, o diretor da divisão de segurança, Moacir dos Santos.

O primeiro a falar foi Antônio Carlos Dias, de 47 anos, ex-presidiário que cumpriu pena no complexo. Condenado por assalto a mão armada, Dias estava no segundo pavimento do Pavilhão 9 quando os policiais invadiram a Casa de Detenção.

Leia mais: Vi montanha de corpos e tive que escalar, diz sobrevivente do Carandiru
Fora do júrí: Deputado diz que réus serão absolvidos 'pelo senso de Justiça' 
Acusação: 'Precipitação da Rota causou massacre', diz número 2 de presídio

Durante os primeiros 30 minutos de depoimento, Dias chegou a chorar. “Começamos [ele e companheiros de cela] a escutar um barulho de alguém batendo em uma lata. Depois, descobrimos que era o som da metralhadora. Eles entraram atirando”, explicou. A primeira reação que teve após a invasão foi a de subir para as celas.

Jornalistas esperam informações sobre a sequência do julgamento, nesta quarta-feira, em frente ao Fórum Criminal da Barra Funda. Foto: Carolina GarciaFachada do Fórum da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo, neste terça-feira, no segundo dia de julgamento do massacre do Carandiru. Foto: Tércio Teixeira/Futura PressJulgamento dos 26 policiais militares acusados de envolvimento no Massacre do Carandiru, realizado no Fórum da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo. Foto: Tércio Teixeira/Futura PressNa manhã desta segunda-feira (15), seis homens e uma mulher foram sorteados para formar o novo conselho de sentença que vai julgar os 26 acusados. Foto:  Tércio Teixeira/Futura PressMajor Olímpio em coletiva antes do julgamento dos 26 policiais militares acusados de envolvimento no massacre do Carandiru. Foto: Tércio Teixeira/Futura Press

A voz de Dias começou a embargar ao narrar o momento após a sucessão de tiros. “Eles começaram a ir limpando, procurando por presos vivos. Formamos uma fila no corredor [para descer ao pátio] e fomos brutalmente espancados”, contou. Nesse momento, o juiz pediu para uma auxiliar do Tribunal de Justiça oferecer a Dias um copo com água.

A testemunha contou ainda que muitos detentos ainda agonizavam quando foram colocados no acesso ao corredor. “Qualquer descuido, eles [policiais] atiravam. Se você descuidasse e caísse mesmo após novas agressões e espetadas, você morria”. Para ele, é certo que morreu mais que o dobro no massacre. “Entre o primeiro e segundo andar, vi mais de 100. Morreu mais que o dobro, com certeza.”

Segundo a falar, o sobrevivente Marco Antonio de Moura afirmou ao juiz José Augusto Marzagão que precisou se fingir de morto para não acabar executado pelos policiais que invadiram o pavilhão para conter uma “briga de gangue”, e não uma rebelião, como afirma a defesa dos soldados. Moura deu “graças a Deus” por se lembrar de contar sobre o helicóptero de onde um atirador de elite metralhava quem saia com vida do pavilhão.

“Graças a Deus que eu me lembrei de contar: tinha um policial dentro de um helicóptero com uma metralhadora em um tripé. As balas batiam nas ventanas. Eu ia subir no telhado, mas desisti. Todos que subiram foram abatidos.”

Aos gritos de “Deus cria, a Rota mata e viva o [Batalhão de] Choque”, Moura se lembra de como precisou se rastejar pelo corredor polonês, formado por policiais militares. “Eles contavam 'um, dois' e davam uma marretada em alguém”, recorda-se. “Eu fui o segundo. O terceiro não teve a mesma sorte que eu.”

Rota

A principal declaração, no entanto, foi a de Santos, o número 2 na casa de detenção. “Não precisa ser um estrategista para saber que chamar a Rota não daria certo”, afirmou Moacir, que estava almoçando quando recebeu o recado sobre a briga entre dois detentos no Pavilhão 9. Ao chegar à casa de detenção e testemunhar os distúrbios, ele ligou para seu chefe imediato, o diretor geral do presídio, Ismael Pedrosa, que ligou para as autoridades. “Estávamos em dez tentando negociar”, recorda-se. “Formou-se uma cúpula, que orientava as tropas do batalhão de Choque, Rota, Gate e bombeiros.”

De acordo com ele, “foi uma rebeldia da própria polícia". "Não partiu uma ordem para [a invasão] porque havia uma manobra sendo negociada pelas autoridades para abrir o portão e falar.” Segundo a testemunha, ele mesmo tinha a chave para abrir o portão, mas a Rota não teria lhe dado ouvidos. Para Santos, o erro do coronel Ubiratan Guimarães, que comandava a negociação, foi ter chamado a Rota para participar.

O sobrevivente Luiz Alexandre de Freitas diz ter se escondido debaixo de corpos para não acabar morto. Ele chegou a reconhecer um dos agressores, sentado no banco dos réus: Wlandeks Antonio Candido da Silva, que se levantou a pedido do juiz. Ele disse ter sido mordido por cachorro e levando um golpe de baioneta. “Eu segurava um pedaço de madeira para me defender.”

Último a falar, o perito Osvaldo Negrini Neto contou como fez a perícia no dia seguinte ao massacre. Ele afirmou que havia tanto sangue que teve “de jogar fora os sapatos e as meias depois de andar pelo complexo". O perito garantiu que "jamais" recebeu pressão por parte do governo. "O então novo secretário de segurança, Michel Temer, deu todo o apoio e disse que ele e o governador queriam que o caso fosse tratado com o máximo de transparência possível." Negrine Neto teria recebido apenas "avisos velados" dizendo "veja lá o que vai escrever". "Durante a realização do laudo, eu não comentei com ninguém."

De acordo com ele, os indícios apontam que “85 pessoas mortas dentro de celas". Para a acusação, isso prova que os detentos estavam rendidos quando foram mortos. Durante a apresentação de imagens, um jurado pediu licença para deixar o plenário porque estava passando mal.

Enquanto isso, a advogada tentava levar o perito à contradição ao dizer que hoje ele havia negado que as vítimas tenham sido assassinadas dentro das celas. Ela pediu que ele lesse seu laudo feito na época, em que diz: "o número total de detentos mortos no interior das celas é compatível com o número de cadáveres". Negrine Neto respondeu dizendo que usou a palavra "compatível" justamente porque não poderia afirmar com total certeza.

Os cinco testemunhos foram tão incisivos que a acusação dispensou outras nove testemunhas. Na próxima terça-feira (16), espera-se a inquirição da dez testemunhas arroladas pela defesa.

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas