Vi montanha de corpos e tive que escalar, diz sobrevivente do Carandiru em júri

Por Carolina Garcia - iG São Paulo | - Atualizada às

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Primeira testemunha de acusação afirmou que os sobreviventes ainda foram espancados após massacre. "Se você caísse mesmo após novas agressões e espetadas, você morria”

O julgamento do caso do Carandiru foi retomado nesta segunda-feira (15) com o depoimento de duas horas e cinco minutos do sobrevivente Antônio Carlos Dias, de 47 anos, ex-presidiário que cumpriu pena no complexo. Condenado por assalto a mão armada, Dias estava no segundo pavimento do Pavilhão 9 quando os policiais invadiram a Casa de Detenção. O seu depoimento começou por volta das 11h10 com os questionamentos do juiz José Augusto Marzagão, que preside os trabalhos.

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Jornalistas esperam informações sobre a sequência do julgamento, nesta quarta-feira, em frente ao Fórum Criminal da Barra Funda. Foto: Carolina GarciaFachada do Fórum da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo, neste terça-feira, no segundo dia de julgamento do massacre do Carandiru. Foto: Tércio Teixeira/Futura PressJulgamento dos 26 policiais militares acusados de envolvimento no Massacre do Carandiru, realizado no Fórum da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo. Foto: Tércio Teixeira/Futura PressNa manhã desta segunda-feira (15), seis homens e uma mulher foram sorteados para formar o novo conselho de sentença que vai julgar os 26 acusados. Foto:  Tércio Teixeira/Futura PressMajor Olímpio em coletiva antes do julgamento dos 26 policiais militares acusados de envolvimento no massacre do Carandiru. Foto: Tércio Teixeira/Futura Press

Durante os primeiros 30 minutos de depoimento, Dias chegou a chorar ao relatar os momentos após a invasão policial. “Começamos [ele e companheiros de cela] a escutar um barulho de alguém batendo em uma lata. Depois, descobrimos que era o som da metralhadora. Eles entraram atirando”, explicou. Ele disse ainda que a primeira reação após a invasão foi a de subir para as celas porque tinham medo e deveria ser o local mais seguro.

O barulho de tiro durou mais de uma hora, segundo a testemunha. “Depois de muito tempo, passamos a escutar os tiros com maior intervalo, de 30 segundos a 1 minuto”. A voz de Dias começou a mudar ao narrar o momento após a sucessão de tiros. “Eles começaram a ir limpando, procurando por presos vivos. Formamos uma fila no corredor [para descer ao pátio] e fomos brutalmente espancados”, contou com a voz embargada. Nesse momento, o juiz pediu para uma auxiliar do Tribunal de Justiça oferecer a Dias com copo com água.

O juiz então pediu detalhes do espancamento. O ex-presidiário narrou com dificuldades o momento que teve que passar pelo corredor. Segundo ele, os detentos eram espetados com facas - presentes nas mãos e nas pontas das armas do policiais - e levavam pauladas.

Ao passar pelo corredor e chegar ao acesso da escada, Dias afirmou ter visto uma “montanha de corpos” e que para chegar ao pátio deveria escalá-la. “Vi uma montanha de corpos, tinha que passar por cima, tive que escalar”, disse.

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A testemunha contou ainda muitos detentos ainda agonizavam quando foram colocados no acesso ao corredor. “Qualquer descuido, eles [policiais] atiravam. Se você descuidasse e caísse mesmo após novas agressões e espetadas, você morria”. Para ele, é certo que morreu mais que o dobro no massacre. “Entre o primeiro e segundo andar, vi mais de 100. Morreu mais que o dobro, com certeza.”

Dias respondeu ainda às perguntas de Fernando Pereira da Silva, promotor de Justiça e representante do Ministério Público, e da advogada Ieda Ribeiro de Souza, que encabeça a defesa dos PMs. A testemunha apenas se negou a responder ao promotor quando foi questionado pelo seu passado e o crime que o levou ao Carandiru. “Não quero falar mais disso, isso já passou e até prescreveu”.

Ao todo, 23 testemunhas serão ouvidas durante o processo - 14 de acusação e outras nove de defesa. 

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