'Precipitação da Rota causou massacre do Carandiru', diz número 2 de presídio

Por Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo | - Atualizada às

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Na primeira etapa do julgamento do massacre do Carandiru, 26 são julgados por homicídio qualificado de 15 detentos que estavam no Pavilhão 9, onde morreram 111 pessoas

A desobediência e precipitação da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) foi a responsável pelo massacre na casa de detenção do Carandiru, que deixou 111 presos mortos no dia 2 de outubro de 1992. A declaração partiu da quarta testemunha ouvida neste primeiro dia de julgamento, o diretor da divisão de segurança - número 2 do presídio.

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“Não precisa ser um estrategista para saber que chamar a Rota não daria certo”, afirmou Moacir, que estava almoçando quando recebeu o recado sobre a briga entre dois detentos no Pavilhão 9. Ao chegar à casa de detenção e testemunhar os disturbios, ele ligou para seu chefe imediato, o diretor geral do presídio, Ismael Pedrosa, que ligou para as autoridades. “Estávamos em dez tentando negociar”, recorda-se. “Formou-se uma cúpula, que orientava as tropas do batalhão de Choque, Rota, Gate e bombeiros.”

Julgamento dos 26 policiais acusados de assassinar 15 dos 101 presos mortos no Massacre do Carandiru, no dia 2 de outubro de 1992. Foto: Marcos Bezerra/Futura PressAdvogada de defesa aguarda início do julgamento no Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo (SP), nesta segunda-feira (8). Foto: Marcos Bezerra/Futura PressJulgamento será presidido pelo juiz José Augusto Nardy Marzagão. Foto: Marcos Bezerra/Futura PressAlunos da alunos da Faculdade de Direito colocaram 111 cruzes em frente ao Largo São Francisco como homenagem aos mortos do massacre do Carandiru . Foto: RENATO S. CERQUEIRA/FUTURA PRESS/AE

Quando a negociação ficou difícil, a Rota teria decidido por conta própria usar marretas para arrombar o portão que os separava dos presos. “A decisão da Rota de entrar surpreendeu o Choque e frustrou as autoridades, que foram pegas de surpresa também.”

Segundo o então diretor, o Choque – que uma tropa especializada para pacificar brigas de bandidos - “foi traído”. A ação da Rota deixou todo mundo aterrorizado. Questionado pelo promotor Fernando Pereira da Silva, Santos afirmou que as autoridades presentes foram “omissas” diante da Rota, incluindo dois juízes, seu superior Ismael Pedrosa, e o coronel Ubiratan Guimarães – tradicionalmente conhecido como o principal responsável pela ação.

“Foi uma rebeldia da própria polícia. Não partiu uma ordem para [a invasão] porque havia uma manobra sendo negociada pelas autoridades para abrir o portão e falar.” Segundo a testemunha, ele mesmo tinha a chave para abrir o portão, mas a Rota não teria lhe dado ouvidos. Para Santos, o erro do coronel Ubiratan foi ter chamado a Rota para participar da negociação.

“Comemoraram como um gol”

Ainda segundo a testemunha, os policiais invadiram o pavilhão comemorando “como se fosse um gol”. “Depois de abrir o portão, entrou a tropa aos gritos de guerra. As autoridades ficaram pasmadas, mas não impediram”.

Santos disse ainda que a polícia desfez a cena do crime ao ordenar que os sobreviventes tirassem os corpos das celas e os empilhassem em camburões. “Os funcionários tentaram ajudar, mas os policiais apontaram arma para que saíssem do local”, afirmou.

Olhando para o que ele chamou de “tapete de mortos”, Santos afirmou que a cena do crime foi como “tiro ao pombo”: “pra mim foi uma execução”, parte dela filmada pelos próprios PMs.

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