Haddad 'toma rédeas' de São Paulo nos primeiros 100 dias ao priorizar transporte

Por Natália Peixoto e Renan Truffi - iG São Paulo | - Atualizada às

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Questões como corredores de ônibus e zona livre de carros receberam atenção especial da gestão, que tenta em três meses impactar a vida do cidadão – e eleitor – paulistano

Em seus 100 primeiros dias de governo, completados nesta quarta-feira (10), o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, correu contra o tempo para iniciar a implantação de suas principais promessas de campanha. O transporte, um dos principais problemas da maior cidade do País, foi uma das áreas que recebeu atenção especial da gestão durante esse período e, em apenas três meses, já coleciona medidas que tentam desafogar o trânsito na capital paulista. 

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Para o cientista político da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP-SP) Hilton Fernandes, o objetivo de eleger o transporte como prioridade é fazer com que os cidadãos notem que ele "tomou as rédeas" da prefeitura. Ainda em janeiro, por exemplo, Haddad barrou, a pedido da presidente Dilma Rousseff, o reajuste da tarifa de ônibus, adiando para junho a medida impopular.

"Em parte as ações estão ligadas às promessas de campanha do prefeito. Mas a escolha do transporte como principal foco de trabalho também tem relação com o impacto mais imediato que este tema tem no cotidiano da população. Haddad ainda precisa formar uma imagem como prefeito de São Paulo. Acredito que a maior preocupação neste momento é demonstrar que ele 'tomou as rédeas' da prefeitura", explica em entrevista ao iG.

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A estratégia é confirmada pelo secretário de Transportes de São Paulo, Jilmar Tatto, que admitiu “prioridade” para a área no dia em que a prefeitura divulgou onde seriam construídos os 150 km de corredores de ônibus, previsto no plano de metas. “A prioridade na atual gestão é a democratização do sistema viário entre ônibus e carros, isto é necessário, isto é uma postura necessária e moderna”, afirmou. Além das faixas exclusivas, a gestão petista prevê a construção de 400 km de ciclovias até o fim do mandato.

Em 1º de janeiro de 2013, o prefeito Fernando Haddad assumiu o cargo em cerimônia com seu antecessor, o ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD-SP). Foto: Futura PressPoucas semanas após assumir o comando, o prefeito recebe a primeira visita do ex-presidente Lula . Foto: Terra Britto/Futura PressNo dia do aniversário de São Paulo, celebrado em 25 de janeiro, o prefeito caminhou pelas ruas do centro da cidade até a catedral da Sé. Foto: Elisa Rodrigues / Futura PressQuase um mês depois de se tornar o prefeito, Haddad teve uma reunião com o governador do Estado, Geraldo Alckmin, na qual fecharam acordos de cooperação. Foto: Marcos Bezerra/Futura PressHaddad também participou de sessão que marcou a abertura do ano legislativo na Câmara de São Paulo, no início de fevereiro. Foto: DivulgaçãoNo fim de março, o prefeito de São Paulo apresentou seu plano de metas, que prevê construção de 150 km de corredores de ônibus. Foto: Raul Montecinos/Futura Press

Outra bandeira de campanha de Haddad foi colocada em prática na primeira semana de abril. A prefeitura iniciou o cadastro para implementar o Bilhete Único Mensal, que permitirá que o usuário pegue quantos ônibus quiser por dia, mediante uma taxa mensal projetada em torno de R$ 140. Na mesma semana, a prefeitura também deu início à proibição da circulação de carros de passeio em trechos do Largo 13 de Maio, na zona sul da capital, medida que prevê aumentar a velocidade dos ônibus no corredor da região.

Outra promessa de campanha cumprida neste início de mandato é a nova lei da inspeção veicular, que ainda precisa ser sancionada pelo prefeito. A mudança institui o fim da taxa para os veículos aprovados e agrada aos donos de carro. A nova regra também acaba com a obrigatoriedade de realizar a fiscalização anualmente para carros de até 10 anos de uso.

Pressa inimiga

Para o engenheiro de transportes da Universidade de São Paulo (USP) Sérgio Ejzenberg, as medidas adotadas por Haddad são “corretas”, mas houve pressa na implantação de algumas mudanças. Segundo ele, antes da implantação da zona livre de carros do Largo 13 de Maio, por exemplo, a prefeitura deveria ter feito uma “requalificação urbanística”, aumentando as calçadas para uma maior circulação de pedestres, o que beneficiaria o comércio. Isso porque boa parte dos lojistas da região reclama da “fuga” de consumidores.

“O local passaria a ter requalificação urbanística que melhoraria a função social da região. Isso traria vitalidade”, afirma o engenheiro. “Para a boa execução do projeto, o que você deve fazer é avaliar quais são as necessidades legítimas dos comerciantes e moradores, e garantir que as calçadas sejam dos pedestres e não dos ambulantes.”

Ejzenberg concorda com a construção de novos corredores de ônibus com zonas de ultrapassagem, como foi anunciado, mas lembrou que, com este sistema, o mais inteligente é implantar ônibus expressos, que não param em todos os pontos e fazem trajetos longos. “A cidade de São Paulo hoje está quase parando. Fazer corredor de ônibus sem ultrapassagem não resolve. O gargalo de corredor é o ponto de parada. Com essas zonas, você pode aumentar muito a capacidade desse corredor, colocando ônibus expressos e ônibus paradores”, disse.

Estudo de planejamento

Mauricío Broinizi, sociólogo da rede Nossa São Paulo, avalia como interessante medidas como o impedimento da circulação de automóveis de passeio no Largo 13 de Maio, e diz que isso vai ao encontro de priorizar a mobilidade urbana prometida por Haddad.

Broinizi destaca que as medidas propostas pela prefeitura no plano de metas, não só para a área de transportes como para toda a cidade, indicam planejamento e “propostas concretas”. “Na parte conceitual do plano do Haddad, ele aponta caminhos muito claros e você vê que existe um conceito, um estudo de planejamento para a cidade tomar um rumo”, avalia.

Broinizi também vê a participação social e o combate à corrupção como destaques positivos nesse primeiro trimestre de governo. “O combate à corrupção, com a criação da Controladoria Geral do Município, o esforço de criar o plano de metas dentro do prazo (imposto por lei), com o compromisso de participação popular, que será concluído depois das audiências públicas, são medidas que merecem atenção”, diz.

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