Adesivo "Que ônibus passa aqui?" vira alternativa à falta de informações em SP

Por Carolina Garcia - iG São Paulo |

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Insatisfação com a falta de informações sobre linhas de ônibus inspirou trio a criar o 'itinerário colaborativo' para as cidades. "Internet fez duas pessoas mobilizar milhares", diz idealizador

Não ter nenhuma indicação no ponto de ônibus ou alguém para perguntar “Que ônibus passa aqui?” pode ser o cenário do caos para o paulistano que quer encontrar a linha certa até o seu destino. Entre as 1.300 linhas da capital, que percorrem 19 mil paradas, muitas vezes destruídas pela ação do tempo e vandalismo, o boca a boca costuma ser a maneira mais eficiente de saber se você está no lugar certo. “É uma angústia ficar no ponto esperando por um ônibus que talvez não vá passar”, disse Fernanda Meixedo, de 32 anos, estudante de marketing.

Arquivo pessoal
As irmãs Alessandra, Paula e Fernanda mudaram as caras dos pontos no bairro do Limão, em SP

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Intervenções: Artistas ‘por acidente’ transformam as ruas de São Paulo em palcos

Mal sabia Fernanda que sua “angústia” diária é compartilhada por inúmeros estudantes e profissionais em outros Estados. Conviver com este problema em Porto Alegre, por exemplo, foi decisivo para três publicitários criarem uma solução curiosa para a falta de itinerários nas paradas. Surgiu então uma sinalização diferente: um adesivo branco e rosa que seria colocado na estrutura dos pontos com a famosa pergunta, “que ônibus passa aqui?”.

Com apelo colaborativo, o grupo Shoot the Shit (jogar conversa fora, em inglês) - formado então por Gabriel Gomes, Luciano Braga e Giovani Groff (que não faz mais parte da ação) - só precisava da internet para achar adeptos pelo País. E encontrou quase 3 mil interessados desde o início do ano na página do movimento. “Para conhecer um problema e pensar em alguma solução, você precisa viver o problema. A internet fez duas pessoas mobilizar milhares”, disse Braga ao comentar as consequências de suas experiências com o transporte da capital gaúcha.

Veja algumas intervenções do projeto nas ruas de São Paulo e Porto Alegre:

Novos pontos são alvos de crítica:  "Retrocesso, construíram sem conhecer os mínimos problemas. É bonito, mas não funcional", disse Braga. Foto: DivulgaçãoVários adesivos foram colados na zona oeste de São Paulo durante mutirão no último dia 10 . Foto: ReproduçãoAlessandra Malagueta, Paula Meixedo e Fernanda Meixedo durante ação no bairro do Limão, em SP. Foto: Arquivo pessoalFernanda Meixedo e o pai Fábio Meixedo durante a colagem. "Escolhemos pontos estratégicos", disse. Foto: Arquivo pessoalA família tinha dez adesivos para espalhar em pontos de avenidas do Limão, na zona norte. Foto: Arquivo pessoalA família tinha dez adesivos para espalhar em pontos de avenidas do Limão, na zona norte. Foto: Arquivo pessoalA família tinha dez adesivos para espalhar em pontos de avenidas do Limão, na zona norte. Foto: Arquivo pessoalCuriosos, pedestres se ofereceram para completar o adesivo com novas linhas que passam pelo bairro. Foto: Arquivo pessoalOs idealizadores do projeto "Que Ônibus Passa Aqui?" Luciano Braga e Gabriel Gomes. Foto: DivulgaçãoO projeto "Que Ônibus Passa Aqui?" começou em Porto Alegre no ano passado. Divulgação via internet tornou a ação nacional. Foto: Manoel PetryO projeto "Que Ônibus Passa Aqui?" começou em Porto Alegre no ano passado. Divulgação via internet tornou a ação nacional. Foto: Manoel PetryO projeto "Que Ônibus Passa Aqui?" começou em Porto Alegre no ano passado. Divulgação via internet tornou a ação nacional. Foto: Manoel PetryO projeto "Que Ônibus Passa Aqui?" começou em Porto Alegre no ano passado. Divulgação via internet tornou a ação nacional. Foto: Manoel Petry

Para ganhar projeção, a dupla Gomes e Braga decidiu então liberar o modelo de adesivo para download na rede. Na primeira semana, 6 mil layouts foram baixados. O sucesso na internet foi tanto que pelo menos 25 cidades já têm páginas específicas na rede social sobre a ação, onde usuários compartilham fotos dos pontos 'protegidos' pelo protesto. “Por ser colaborativo, é difícil contabilizar quantas paradas já têm adesivo. Só em Brasília ficamos sabendo que 3 mil foram impressos”. Clique aqui para baixar o adesivo

Intervenções com toques de humor têm se tornado frequentes nas grandes capitais, como já noticiado pelo iG as ações em São Paulo do grafiteiro Dafne Sampaio, 13pompons e Mude o Mundo. Para Braga, o uso do humor é uma consequência natural do Ativismo 2.0, influenciado e divulgado pela internet. Segundo ele, o objetivo não é destruir ou prejudicar a vida das pessoas, mas sim conectar.

Divulgação
Luciano Braga e Gabriel Gomes, os idealizadores do projeto "Que Ônibus Passa Aqui?"

“Estamos insatisfeitos com os pontos de ônibus, por exemplo, mas isso não me dá o direito de sair quebrando tudo e tirando esse espaço da sociedade. Posso criar algo para criticar autoridades, mas que ajude e promova o debate”, concluiu.

Ativismo familiar

Grupos de ações sociais, como o ‘Imagina na Copa’ em São Paulo, abraçaram a causa e organizaram mutirão de colagem pelas ruas do bairro de Pinheiros, na zona oeste, no último dia 10. Fernanda ficou sabendo do movimento e quis participar, mas por motivos pessoais não conseguiria ‘colar’ junto com o grupo. Moradora da zona norte, no bairro do Limão, a estudante não pensou duas vezes. “Não posso colar lá, mas colo aqui. Nenhum ponto aqui tem itinerário”, justificou.

Ela então fez o download e desembolsou R$ 85 em uma gráfica por dez versões do adesivo. “Sei que não foi o melhor orçamento, mas não quis correr o risco de perder a ação”. No mesmo domingo (10) pela manhã, a estudante então mobilizou sua família e saiu pelas avenidas Professor Celestino Bourroul, Engenheiro Caetano Alvares, Deputado Emilio Carlos, Casa Verde e Nossa Senhora do Ó, todas no Limão.

Arquivo pessoal
Grupos de 25 cidades já criaram perfis na rede social contra a falta de itinerários dos ônibus

A equipe era composta pelas suas irmãs Alessandra Malagueta, de 41 anos, e Paula Meixedo, de 31, e seu pai Fábio Meixedo, de 59, que assumiu a posição de motorista e estrategista. “Como só tínhamos dez adesivos, meu pai escolheu pontos estratégicos”, explicou com bom humor Fernanda sobre a tática escolhida pela família. “Colamos [os adesivos] nos dois sentidos das avenidas, no começo e no final. Sei que é pouco pelas dimensões delas. Mas já é algo para começar”.

Para ela, acompanhar o estado dos adesivos - que enfrentam vandalismo, forte sol e temporais - pelas ruas é uma experiência conflitiva. Fernanda disse já ter experimentado sentimentos bem contraditórios. “Fiquei muito triste porque vi vários arrancados. Mas é incrível ver outros quase sem espaço para escrever porque as pessoas completaram com outras linhas que eu nem conhecia. Penso: ‘Caramba. Tem gente que pensa como eu nessa cidade enorme’. Vale a pena”.

Outro lado

Procurada pela reportagem do iG, a SPObras, responsável por monitorar a instalação dos novos pontos de ônibus da capital, disse que não opinaria sobre o projeto “Que Ônibus Passa Aqui?” por ser “uma manifestação individual”. Por meio de nota, o órgão informou que cabe ao consórcio Pra SP substituir todos os abrigos e totens informativos em até 36 meses.

Até hoje, 97 abrigos já teriam sido substituídos. Sobre a falta de informações dos itinerários nas paradas, o órgão rebateu dizendo que o consórcio aguarda os dados da São Paulo Transportes (SPTrans), responsável pelas linhas de ônibus, para a produção do adesivos “que serão, muito em breve, instalados”.

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