Acusado, Mizael atuará como advogado em julgamento do caso Mércia Nakashima

Por Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo | - Atualizada às

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O réu sentará ao lado de seus defensores e poderá até interrogar testemunhas. Estratégia é provar que ele não matou a ex-namorada em uma represa na cidade de Nazaré Paulista

Arquivo pessoal
A advogada morta Mércia Nakashima

Com previsão para durar cinco dias, o julgamento do caso Mércia Nikie Nakashima começa nesta segunda-feira (11) com requintes de espetáculo protagonizado pelos acusadores e defensores do advogado Mizael Bispo de Souza, hoje com 42 anos.

Do banco dos réus, ele promete roubar a cena do julgamento transmitido pela TV ao atuar como um dos estrategistas da tese que pretende absolvê-lo da acusação de matar sua ex-namorada no dia 23 de maio de 2010 em uma represa em Nazaré Paulista, cidade a 90 quilômetros de São Paulo.

Leia também: A cronologia do caso Mércia

Relatos de agressividade e ciúme reforçam suspeitas contra Mizael

O promotor de Justiça Rodrigo Merli Antunes trata como certa a condenação do advogado, descrito por ele como um “psicopata” que não aceitou o término de um namoro de quatro anos e, “perturbado”, viu “aflorar um sentimento de vingança”.

Para Antunes, esse é o perfil de um “assassino passional”. “Espero que ele receba uma pena de 20 a 25 anos de reclusão”, calcula.

Do outro lado, o defensor Samir Haddad Junior planeja surpreender o juri, descartando a tradicional imagem do “réu amedrontado” e promovendo Mizael ao papel de injustiçado.

Foto anexada ao processo mostra intimidade do casal Mércia e Mizael, que namoraram quatro anos e dois meses. Foto: Reprodução"Ela sempre foi tratada como uma rainha", afirmou Mizael em depoimento. Foto: ReproduçãoO namoro de Mércia e Mizael começou no dia 21 de julho de 2005. Foto: ReproduçãoMizael admitiu tentativa de reatar o namoro, que acabou oficialmente no dia 7 de setembro de 2009. Foto: ReproduçãoMércia é lembrada como personagem atuante na campanha frustrada de Mizael à Câmara Municipal de Guarulhos, em 2006  . Foto: ReproduçãoVista do plenário em que Mizael Bispo de Souza e Evandro Bezerra Silva serão julgados este ano, o primeiro no dia 11 de março e o segundo no dia 29 de julho . Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iG

“Mizael vai manter a postura de uma pessoa acusada, mas também atuará como advogado. Ele vai ficar sentado com a gente na bancada, de terno e gravata, e vai fazer sua própria defesa”, diz Haddad Junior. “Se ele se sentir à vontade, vai interrogar, perguntar o que for necessário às testemunhas.”

Para o promotor, essa postura “é um direito dele”: “Se quiser falar, que fale. Eu não quero ensinar a defesa a advogar, mas acho que o Mizael vai se comprometer”, avalia Antunes, que também desdenha de outra estratégia ventilada por Haddad Junior: a de apontar o vigia Evandro Bezerra Silva – acusado de auxiliar a fuga de Mizael como o verdadeiro assassino.

Mais: Mizael deve ser condenado a pelo menos 20 anos de prisão, diz promotor

“O Evandro sumiu, contou várias versões, não demonstra medo. Além disso, é a família dele que mora perto da represa”, afirma Haddad. Para Antunes, a hipótese é uma “furada” porque o Evandro não tinha contato com Mércia. “Quem se disse humilhado era Mizael em e-mails trocados com a vítima.”

Futura Press
Mizael Bispo ao chegar à casa onde mora em Guarulhos

O réu também pretende entregar aos sete membros do juri o livro que ele escreveu na cadeia e um abaixo assinado com duas mil assinaturas pedindo sua absolvição. Antunes quer impedir a distribuição do livro porque ele não foi juntado ao processo no período estipulado por lei. “Ele tinha até quarta-feira passada para incluí-lo no processo.”

As testemunhas

Mizael e seus advogados também vão tentar provar que as investigações foram parciais e que a perícia foi mal conduzida pelo Instituto de Criminalística (IC). Para isso, eles convocaram como testemunhas o investigador do inquérito, Alexandre Simoni, o perito-chefe do processo, Renato Pattoli, e o perito do IC que refez o trajeto entre Nazaré Paulista e Guarulhos, Hélio Ramacciotti.

“A intenção é desconstruir o trabalho investigatório”, acredita o promotor, que espera o mesmo de outra testemunha arrolada pela defesa, o fotógrafo e físico Eduardo Zocchi. A quinta testemunha será uma amiga de Mizael, Rita Maria de Souza, que deve falar sobre a relação entre o réu e a vítima.

Já os acusadores chamaram para depor Antônio de Olim, delegado do caso, Eduardo Amato, engenheiro de telecomunicações, Arles Gonçalves Júnior, advogado que acompanhou o inquérito, e Carlos Eduardo Bicudo, o perito que descobriu vestígios de sangue, ossos e algas em um dos sapatos de Mizael.

A testemunha mais esperada, no entanto, será o irmão de Mércia, Márcio Nakashima, cujas declarações devem ser desvalorizadas por Haddad Júnior: “O Márcio ficou quatro anos sem falar com a irmã por causa do namoro”. Segundo o advogado, “Mizael era odiado pela família dela, que adorou que ele tenha sido apontado como suspeito porque eles não toleravam a presença do meu cliente”.

Antunes rebate dizendo que, se a defesa pretende construir um “caráter vingativo do Márcio, não vai colar”: “Por mais que não se goste de uma pessoa, a família quer o verdadeiro assassino na cadeia, não qualquer um”.

Leia: Vigia acusa Mizael de oferecer R$ 6 mil por nova versão para morte de Mércia

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