Defesa chama antropóloga da USP para desmistificar comportamento de Gil Rugai

Por Wanderley Preite Sobrinho | - Atualizada às

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Advogados buscam especialista para pedir aos jurados que, em caso de dúvida sobre a autoria do crime, eles devem "optar pela absolvição" do réu

Com a intenção de desmisitificar o comportamento discreto de Gil Rugai, seus advogados convocaram uma antropóloga para ser ouvida pelos jurados, nesta quarta-feira (20), terceiro dia do júri que decidirá o futuro de um homem de 29 anos. Rugai é acusado pelas mortes do pai Luiz Carlos Rugai e da madrasta Alessandra de Fátima Trotino. O crime ocorreu em março de 2004.

3º dia de júri: Contador diz que 'é complicado' encontrar suposta fraude feita por Gil Rugai
Perfil: Excêntrico e calado, Rugai é preservado por advogados como estratégia da defesa

Antropóloga da Universidade de São Paulo (USP), Ana Lucia Pastore, criticou a forma como a perícia policial escolheu as provas que incriminariam Gil há nove anos, cujo comportamento é considerado incomum desde que ele se transformou no principal suspeito.

A policia anexou ao inquérito uma carta enviada por uma amiga ao réu em ela o aconselha a admitir sua hipotética homossexualidade. Na mesma apreensão, foram levados um símbolo nazista [usado em um trabalho escolar], seringas com sangue de amigos e um frasco contendo veneno de rato. Para Ana Lucia, "a coleta de provas deve ser regida por princípios, pela relevância, não pela seleção de objetos".

Depoimentos das testemunhas:

'Não tenho dúvida', diz delegado sobre participação de Gil Rugai em homicídios
'Ele é um menino perigoso', disse pai de Gil Rugai a amigo dias antes de morrer
'Eu reitero e confirmo: o chute foi desferido por Gil Rugai', diz perito
Vigia confirma ter visto Gil Rugai deixar local do crime minutos após disparos

Para ela, é muito comum "a criação de bodes expiatórios" em processos que são criados "por meio de narrativas que transformam o réu em alguém indesejado pela sociedade". "É o que chamamos na Antropologia de Construção do Inimigo", explicou a especialista. 

Ana Lucia não mudou o tom de seu depoimento nem mesmo depois que o promotor Rogério Zagallo afirmou que a tese da especialista "caía como uma luva na academia, mas e no caso concreto?". Ele continuou: "A senhora vai embora hoje, mas os jurados vão ficar." Em resposta, a antropóloga disse que "o que acontece na academia deve estar próximo ao júri porque é na academia que se formam os profissionais que atuam no tribunal".

Zagallo, então, perguntou se a especialista conhecia as provas contra Rugai ou se leu alguma das 5 mil páginas do processo. Ana Lucia respondeu que "da mesma forma que ela não leu as 5 mil folhas, o júri também não leu".

Absolvição em caso de dúvida

Além de insinuar que a acusação busca mistificar o comportamento de Rugai, a estratégia da defesa foi lembrar aos jurados que, em caso de dúvida sobre a autoria do crime, eles devem optar pela absolvição do réu.

Para falar sobre o tema, a antropóloga, que também é formada em direito, comparou o sistema judicial brasileiro ao francês. Ela lembrou que na França os jurados podem voltar em branco, anular o se abster se, ao final do julgamento, eles não estiverem convencidos sobre a culpa do réu. "No Brasil, a dúvida é fundamental, e se expressa na absolvição do réu", afirmou. Ana Lucia lembrou, no entanto, que "vivemos um tempo no Brasil em que, na dúvida, vota-se pela condenação". 

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