Um bravo explorador dos rios poluídos de São Paulo

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O surfista José dos Santos, de 48 anos, mergulha nos rios Tietê e Pinheiros há mais de 20 anos. Entre seus achados, uma mala com U$ 2 mil, armas e corpo em decomposição

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Os rios Tietê e Pinheiros, que cortam São Paulo, uma metrópole de aproximadamente 20 milhões de pessoas, fluem bem o suficiente em algumas partes. Mas, em certos trechos, eles transbordam. Suas águas são melhor descritas, talvez, como turvas e cinzentas. Seu aroma, que lembra o de ovos podres, pode provocar náuseas.

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José Leonidio Rosendo dos Santos, de 48, mergulha em ambos os rios há mais de 20 anos. Contratado em grande parte para desobstruir portões de drenagem, ele vasculha as profundezas escuras dos rios Tietê e Pinheiros, que simbolizam a degradação ambiental de São Paulo ao longo de décadas, trazendo à superfície uma lista de itens estranhos e bizarros.

Lalo de Almeida/The New York Times
Santos se prepara para trabalhar no poluído rio Pinheiros, um dos principais de São Paulo

Ao longo dos anos, seus achados (que como trabalhador de empresas de utilidade pública é obrigado a entregar às autoridades) incluíram uma mala com US$ 2 mil dentro, pistolas, facas, fogões e geladeiras, inúmeros pneus de automóvel. Em uma outra mala, Santos encontrou os restos mortais de uma mulher que havia sido esquartejada. "Eu parei de procurar por malas depois disso", disse.

Ele admite que mergulhar nos rios, que estão entre os mais poluídos do mundo, não é para todos. Mas para ele, que é surfista e decidiu entrar para o ramo de mergulho, seu trabalho trouxe um nível incomum de notoriedade e admiração entre os paulistanos.

Alguns motoristas que trafegam pelas marginais, que traçam o caminho dos rios, param seus carros para tirar foto de Santos enquanto ele se prepara para mergulhar. Parte do fascínio com José tem a ver com a maneira como os paulistanos veem seus rios. Como o historiador Janes Jorge relatou em um livro sobre o maior rio da cidade, o Tietê era adorado por moradores da cidade até recentemente, quando em meados do século passado ainda era possível pescar, nadar e participar de competições de remo em suas águas.

Mas São Paulo cresceu rapidamente e se tornou uma das maiores cidades do mundo. Fábricas acabaram depositando seus resíduos nos rios. Distritos florescentes na área metropolitana de São Paulo expandiram sem sistemas de saneamento básico, depositando esgoto diretamente nos rios Tietê e Pinheiros.

Os rios agora persistem na cultura popular do Brasil como objetos utópicos. Bandas de rock como Skank compuseram canções sobre o sonho aparentemente impossível de despoluir o Tietê. Laerte Coutinho, cartunista, criou uma história chamada "Piratas do Tietê", aonde saqueadores navegam através do rio em expedições invadindo São Paulo.

Lalo de Almeida/The New York Times
Alguns objetos que Santos encontra nas margens do rio Pinheiros, zona sul de São Paulo

Santos, com uma fala mansa e usando óculos, insiste que ele nunca viu nenhum pirata navegando o Tietê ou seus afluentes. Mas, ele normalmente costuma se deparar com outros seres vivos. Santos viu inúmeras capivaras, os maiores roedores do mundo, que rolam na lama ao longo de alguns trechos do Tietê e Pinheiros. Jacarés também foram encontrados em algumas partes dos rios, cansados, mas vivos.

Um dos encontros mais impressionantes, segundo ele, foi um homem morador de São Miguel Paulista, um bairro no distrito leste de São Paulo, que era apelidado de Pezão e mergulhou sem nenhum equipamento no Tietê em busca de metal para vender para recicladores. "Se há alguém que merece reconhecimento, é esse cara, não eu", disse dos Santos.

Líderes políticos afirmam que o esforço de limpeza, financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, está indo de acordo com o planejado. O governador Geraldo Alckmin é otimista e diz que no de 2015, os barcos poderiam começar a levar os turistas até o Tietê para visitarem as maravilhas de São Paulo. "O problema é acabar com o cheiro", reconheceu.

Cientistas brasileiros apontaram para precedentes de despoluição de canais vitais, como Paris, por exemplo, que recuperou o rio Sena ou o Tâmisa, em Londres. Tal mudança proporcionou o retorno do salmão, que estava desaparecido havia décadas.

A limpeza do Tietê e seus afluentes, no entanto, apresenta inúmeras complicações, e uma delas é o acesso ao tratamento de esgoto. Esta é uma grande deficiência de uma das únicas cidades verdadeiramente globais do Brasil, aonde fundos habitam arranha-céus pós-modernos.

Coitado

Ao mesmo tempo, 4 milhões de pessoas - cerca de 20 % da população metropolitana de São Paulo - ainda não têm saneamento básico, de acordo com Mônica Porto, especialista em gestão de reservatório de água da Universidade de São Paulo. Uma área na região metropolitana de São Paulo, Guarulhos, com uma população de cerca de 1,3 milhões e que abriga o aeroporto internacional da cidade, não possuía tratamento de esgoto antes de 2011.

"Precisamos ajustar nossas expectativas", disse Mônica, que advertiu contra projeções de que os rios poderão em breve ter ecossistemas recuperados. "Em 2030, nós talvez teremos rios dos quais nos orgulharemos novamente," disse ela. Sobre Santos e sua vocação incomum, ela teve apenas uma coisa a dizer: "Coitado".

No entando, Santos não se considera um 'coitado'. O pagamento não é um dos melhores para mergulho em rios de São Paulo, com um salário de cerca de US $ 2.200 por mês, mas o trabalho lhe permitiu criar uma família e comprar uma casa. Ele é dono de seu capacete de mergulho Kirby Morgan e nunca toca a água sem estar utilizando uma roupa protetora de plástico que "é mais grossa do que um traje de neoprene comum".

Ele disse que o estresse faz parte de cada mergulho. Sua visão é seriamente prejudicada uma vez que se encontra debaixo das águas turvas dos rios. Ele reconheceu ainda que muitas vezes o mau cheiro atrapalha. Depois, há o medo de rasgar sua roupa de mergulho em um pedaço de metal, o que pode levar a uma infecção ou ao se deparar com carcaças. "Depois de cada mergulho, eu tomo um copo de rum Montilla Carta d’Ouro", disse ele. "Isso ajuda a me sentir limpo".

Mas Santos disse que também há algo de especial sobre o seu trabalho. É por ele que os rios da cidade estão um pouco mais limpos. Ele tem encontrado cada vez menos cadáveres e disse que o Tietê agora cheira um pouco melhor do que o Pinheiros, onde ele agora faz a maior parte de seus mergulhos. "Isso parece loucura, mas os rios são os lugares mais pacíficos de São Paulo."

"Quando eu mergulho em suas profundezas, tudo fica mais tranquilo", acrescentou. "É como se eu estivesse no espaço, ponderando uma civilização que está chegando à beira de sua destruição."

Por Simon Romero

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