Protesto e falta de informação marcam início da internação forçada em São Paulo

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"Falta muita informação, está todo mundo perdido e ninguém sabe o que é para fazer", diz um dos dois magistrados responsáveis por decidir sobre a internação dos usuários de drogas

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O primeiro dia da parceria entre o governo e a Justiça do Estado de São Paulo para internar usuários de crack à força foi marcado pela falta de informações e por protestos na clínica destinada a receber os viciados e seus familiares, no centro da capital paulista. Durante as quatro horas de plantão jurídico no Cratod (Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas), nenhum dependente de drogas foi internado contra sua vontade, por ordem da Justiça.

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AP
Policiais fazem batidas de rotina nesta segunda-feira, no centro de São Paulo

"Falta muita informação, está todo mundo perdido e ninguém sabe o que é para fazer", disse o juiz Iasin Issa Ahmed, um dos dois magistrados responsáveis por decidir sobre a internação dos usuários de drogas.

Segundo ele, a principal causa da confusão ocorrida na manhã desta segunda-feira foi a forma como a parceria foi apresentada pelo Estado à população.

"(Ao falar) que é (tratamento) compulsório, você espanta boa parte dos usuários que não vão aparecer aqui na porta com medo de serem amarrados para serem tratados", disse Ahmed.

Segundo o governo, serão internados compulsoriamente apenas os casos muito graves, considerados de exceção – como por exemplo viciados que já tentaram cometer suicídio ou sofrem de doenças psiquiátricas.

Dependentes químicos que procurarem atendimento voluntariamente devem receber tratamento ambulatorial e ajuda de assistentes sociais.

Protestos

Um grupo de cerca de cem ativistas protestou com cartazes e tambores em frente ao Cratod contra as internações forçadas. Membros mais exaltados tentaram até dissuadir uma mulher que procurou ajuda para internar um parente.

Eles defendiam que, em vez de se focar em internações à força, o governo concentre seus recursos em ampliar a rede de atendimento regular e ambulatorial a dependentes químicos – especialmente com a melhora do atendimento noturno.

“É a mesma coisa que você ir para o hospital e dizerem: ‘o teu estado é grave, mas vamos esperar ficar desesperador, aí alguém te traz aqui e a gente te interna na UTI’. Aqui (o Cratod) é a UTI”, disse o padre Júlio Lancellotti, que defende moradores de rua e a população excluída de São Paulo.

Lancellotti afirmou também que ativistas de direitos humanos estão insatisfeitos com a falta de informações sobre como serão feitas na prática as internações à força.

"O pessoal (dependentes químicos que frequentam a Cracolândia) está com medo, estão assustados. Não adianta dizer que a polícia não vai, eles têm que ver e sentir isso", afirmou.

O governo afirmou que as abordagens de usuários serão feita por assistentes sociais e agentes de saúde, por meio do convencimento e sem a presença da Polícia Militar.

Segundo o desembargador Antônio Carlos Malheiros, do Tribunal de Justiça, se esses agentes verificarem que o viciado corre algum risco e não conseguirem convencê-lo a ir voluntariamente ao Cratod, poderão pedir ajuda ao Corpo de Bombeiros.

Os bombeiros, que são subordinados à Polícia Militar, poderão, em tese, levar o usuário de drogas à força para tratamento. Ele deixou claro, porém, que esses serão casos de exceção.

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Internação voluntária

A falta de informações e a presença de ativistas no Cratod não impediu a autônoma Ana Paula Mira, de 33 anos, de procurar ajuda para seu pai.

Ao receber a informação de que o novo mecanismo de internação do governo entraria em funcionamento nesta segunda-feira, ela foi procurar seu pai nas ruas da cidade.

Ronaldo Rocha Mira deixou a família há dois anos devido à dependência do crack e se tornou morador de rua. Desde então tem evitado as tentativas da família de interná-lo.

"Eu achei ele e disse que o levaria para um médico, não por causa do crack. Levei ele para tomar café da manhã e coloquei um calmante no suco. Se ele acordasse ficaria agressivo", disse. Ela então colocou o pai no carro com ajuda de parentes e dirigiu até o Cratod.

Ela foi a primeira pessoa a buscar ajuda na unidade. Contudo, segundo autoridades, o caso de Ronaldo foi entendido como internação involuntária (não compulsória) e não precisou da intervenção dos juízes de plantão.

Além do caso dela, a equipe do Cratod atendeu alguns casos de mulheres que buscavam ajuda para internar filhos e parentes. Entre elas estava Vera Augusta Nascimento.

"Meu filho começou a usar drogas aos 18 anos. Hoje ele tem 27 e me ameaça. Não aguento mais morar com ele porque tenho medo que ele apareça com um revólver e atire em mim. Vim aqui para pedir que ele seja internado", disse ela.

Houve ainda dependentes químicos que buscaram ajuda voluntariamente. Foi o caso de Denis dos Santos Navarro, de 18 anos, que já passou pela Fundação Casa (que abriga menores infratores que cumprem medidas socioeducativas) e hoje vive na Cracolândia.

Ele chegou ao Cratod no início da tarde de segunda-feira com uma mala contendo todos os seus pertences pedindo para ser internado. "Quero mudar de vez. As pessoas dizem que sou louco por fazer isso, mas louco é quem está na Cracolândia", disse.

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