Base do Samu presta socorro irregular em feira popular de São Paulo

Por Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo | - Atualizada às

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Ambulâncias para socorro móvel são também usadas para atender consumidores e trabalhadores na Feirinha da Madrugada, que recebe 15 mil consumidores na capital

Embora tenha sido criada para atender ocorrências médicas de emergência em casa, no trabalho e especialmente em vias públicas, a unidade do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) instalada no Brás, no centro de São Paulo, presta socorro ambulatorial aos funcionários e consumidores que todos os dias passam pela Feirinha da Madrugada, uma das maiores do Brasil.

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A base fica nos fundos do terreno de 119,8 mil metros quadrados que abriga o mercado popular. A feirinha emprega cerca de 12 mil trabalhadores recebem cerca de 15 mil consumidores, que, de segunda à sábado, compram bijuterias, bolsas, carteiras, peças de roupa, guarda-chuvas, celulares e assessórios entre duas da madrugada e 17h.

Wanderley Preite Sobrinho/iG
Base do Samu atende pacientes nos fundos da Feirinha da Madrugada

A unidade, que só poderia atender ocorrências pelo número 192, foi formalmente notificada pelo Conselho Regional de Enfermagem (Coren) em dezembro do ano passado. De acordo com documentos que o iG teve acesso, o local presta serviço pré-hospitalar e intra-hospitalar, atribuições exclusivamente ambulatoriais.

A visita de fiscalização, que durou duas horas, constatou que os profissionais, além de não usarem identificação profissional, executam o serviço em condições inadequadas, sem respeitar “o processo de enfermagem”.

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Uma das irregularidades assinaladas na notificação afirma que na unidade trabalham “pessoal em exercício ilegal da profissão”. É que o serviço só poderia ser executado por enfermeiros, mas é feito pelos auxiliares de enfermagem do Samu.

Wanderley Preite Sobrinho/iG
Notificação do Coren, que identificou irregularidades na base do Samu no Brás

O Conselho concluiu a avaliação pedindo que enfermeiros sejam contratados e pede 90 dias, a partir do dia 3 de dezembro, para que todas as demandas sejam resolvidas.

A reportagem foi até o Samu da Feirinha da Madrugada, onde recebeu atendimento de uma auxiliar de enfermagem que lamentava suas condições de trabalho. A profissional, cuja identidade será preservada, mediu pressão e a taxa glicêmica para avaliar a necessidade de transferência para um hospital. Enquanto prestava socorro, dizia que esse trabalho não poderia ser realizado por ela em razão da necessidade de todos os auxiliares estarem de prontidão para o caso de uma ocorrência telefônica.

A auxiliar mencionou a visita do Conselho Regional de Enfermagem, mas suspeita que “nenhuma providencia” tenha sido tomada até agora porque a instalação do Samu na região serviria como uma solução “improvisada à construção de um ambulatório equipado para atender a demanda da feira”.

Dívida

A reportagem também teve acesso a uma carta-denúncia assinada por todos os auxiliares de enfermagem e entregue à Secretaria Municipal de Saúde, que protocolou o recebimento no dia 1º de novembro de 2011.

A carta afirma que a base do Samu foi implantada na Feirinha depois que sua localização original, na Armênia, foi desativada para reforma a partir de julho de 2011. Além de solicitar o retorno para a base original, as auxiliares pedem à Secretaria R$ 2 mil para pagar um “comércio vizinho” que lhes fornecia água “para os funcionários beberem, fazerem sua higiene pessoal e higienizar as ambulâncias”.

Em resposta, o coordenador médico do Samu, Gustavo Guilherme Kuhlmann, afirmou que não há irregularidade na unidade do Brás e que “a base Armênia não está sendo desativada”:

“Temporariamente estamos realocando as equipes desta base para que seja realizada uma reforma há muito tempo planejada e reclamada pelos próprios funcionários”, diz em nota.

A reportagem entrou em contato com a base da Armênia e conversou com um funcionário, que, sob a condição de anonimato, negou a reforma no prédio e que exista alguma previsão para que a base da Feirinha retorne ao local.

Segundo a Secretaria de Saúde, a prefeitura ainda estuda a instalação de uma unidade de pronto-atendimento na feira, mas no caso da base instalada no local, como o fluxo de frequentadores do local é grande, existe procura por atendimento médico. Em nota, o órgão afirma "que os profissionais que lá se encontram realizam o atendimento das pessoas que solicitam socorro como qualquer cidadão treinado em primeiros socorros."

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