Após multas e prisão, restaurante segue aberto com irregularidades em São Paulo

Inspeções em estabelecimentos da capital paulista são feitas apenas após denúncias

Carolina Garcia -  iG São Paulo |

No fim de junho, o restaurante japonês Kitai Sushi Bar, em Moema, zona sul de São Paulo, recebeu a visita da vigilância sanitária e foi multado. Oito dias depois foi a vez da polícia fazer uma inspeção e apreender mais de 40 quilos de alimentos impróprios para o consumo. Mesmo assim, embora ainda seja alvo de reclamações e o próprio gerente admita falhas, o restaurante nunca chegou a fechar e nem recebeu nova inspeção.

Outra inspeção:  Polícia apreende comida vencida em restaurante japonês em SP

Carolina Garcia
Fachada do restaurante Kitai, em Moema

O caso não é exceção em São Paulo, onde o número de autoridades responsáveis por validar a qualidade desses serviços não acompanha o crescimento da oferta de estabelecimentos. São apenas 26 unidades de Supervisões de Vigilância em Saúde (Suvis) da Consultoria Técnica em Vigilância Sanitária (Covisa) e duas delegacias que integram a Divisão de Investigações sobre Infrações contra a Saúde Pública, da Polícia Civil, para a inspeção de 30 mil restaurantes.

Instalado em um dos bairros nobres da zona sul de São Paulo, o Kitai Sushi Bar foi investigado após ser alvo de denúncias pela Covisa e pela polícia. No primeiro caso, foram encontradas algumas irregularidades de procedimentos e adequação de alguns equipamentos, informou a assessoria da secretaria. O restaurante foi multado, mas o valor não foi divulgado. No mês seguinte, policiais civis apreenderam 41 kg de alimentos estragados e sem informações de rastreabilidade dos produtos, como datas de produção e vencimento. O gerente chegou a ser preso e, após pagamento de fiança, foi liberado. Dias depois, foi demitido pela rede que administra o Kitai. O restaurante, no entanto, nunca foi interditado, pois todas as autuações foram administrativas, não criminais.

Quatro meses após a última ocorrência, na quarta-feira (5) pela manhã, o iG visitou o estabelecimento, localizado na alameda dos Nhambiquaras, altura do número 1.039, em Moema, e conversou com seus funcionários.

O novo gerente, há um mês na função e que pediu para não ser identificado, concordou em conversar sobre a antiga administração do Kitai que, segundo ele, teria “desandado o trabalho de um ano” em apenas dois meses. “Ele mereceu o que teve”, disse sobre o ex-funcionário que pagou a multa de R$ 4 mil do próprio bolso. “Nunca fui autuado por eles [vigilância] e aqui não reaproveitamos comida”, disse. Tal frase seria repetida ao menos três vezes durante a entrevista.

Ele confessou, no entanto, que foi difícil aceitar o emprego e que para “arrumar as irregularidades” estabeleceu uma meta pessoal de 30 dias. “Quero que eles [inspetores] conheçam meu trabalho, mas só daqui a cinco dias”, afirmou. Questionado se ainda havia alguma irregularidade no local, não hesitou: “Ah, sim. Devo ter produtos sem isso [rótulo] . O problema é que se eles encontram um negocinho [uma pequena porção] , compromete todo o resto”.

O gerente minimizou a atual situação do Kitai: “Tem produtos que não fazem mal quando passam da data, como água e vodka”. Ele ainda garantiu que a situação pode “aguentar mais uns dias” já que o local será fechado para os clientes no próximo dia 20 para reformas.

Carolina Garcia
Apesar dos problemas encontrados, restaurante nunca foi interditado

“Sei que nossa estrutura está ruim, mas amanhã melhora. O chão não é o dos mais atraentes e nossa cozinha é pequena”. Atualmente, a capacidade do estabelecimento é para 90 pessoas e com as melhorias, que devem ser concluídas até o dia 10 de janeiro, o número pode chegar a 150. “É realmente difícil atuar neste mercado e estar de acordo com todas as regras da vigilância, que mudam a cada dia.”

Desde os últimos problemas com a vigilância, o funcionário disse não ter recebido novas “visitas” das autoridades. Informação que não foi confirmada pela Polícia Civil e Secretaria de Saúde, já que não houve nova denúncia contra o local. “Um dia um senhor suspeito [suposto inspetor] veio almoçar aqui e comentou com o garçom que estamos fazendo um bom trabalho. Eu acreditei nele”, contou o gerente.

Perguntado se teria medo ou insegurança de atuar fora das medidas exigidas pelos órgãos de segurança, ele disse que “não” já que as “visitas só ocorrem após denúncias”. “O segredo é oferecer um excelente serviço. O cliente não irá reclamar se for bem atendido”, disse ao iG exaltando seus 20 anos de experiência na área.

Reclamações

Ao contrário do que o funcionário afirmou durante a entrevista, seus clientes não se dizem contentes com o serviço oferecido pelo restaurante. Entre os meses de outubro e dezembro, o estabelecimento recebeu mais de 100 críticas pelo site Reclame Aqui . A maioria das queixas é contra o atendimento dos garçons, limpeza e aparência dos pratos “encharcados de óleo e sushis desmontados”.

Carolina Garcia
Açougue ao lado de restaurante japonês reclama do lixo depositado na calçada

Já comerciantes vizinhos ao Kitai também não economizam reclamações contra os proprietários do restaurante japonês. O  dono do açougue Marilane, que se identificou como João Carlos, disse ser o autor de diversas denúncias na prefeitura. “O trato deles com o lixo é irregular. Sacos pretos cheios de restos de pescado são deixados na minha porta quase que diariamente. Meus clientes podem pensar que é meu”, disse João citando que há um mês uma jovem chegou a cair na calçada ao escorregar no extrato oleoso que escorria dos sacos. “Chamei o proprietário e ele não quis conversa. Então decidi denunciar”.

O gerente do Kitai disse desconhecer o relato de João Carlos, mas admitiu que ficou sabendo de uma moça que havia se acidentado em sua calçada. Perguntado sobre o fim dado aos restos de alimentos após cada dia de trabalho, ele assumiu que os últimos dias têm sido difíceis. “A empresa [de coleta] me deixou na mão. Quando cheguei, vi que os sacos estavam em frente ao açougue, mas logo tirei para não ter mais encrenca”, disse.

Fiscalização só por denúncia

No ano de 2012, até a publicação desta reportagem, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) havia divulgado 17 ações em restaurantes na capital que resultaram apreensão de 1.480 quilos de alimentos considerados impróprios para consumo dos clientes. Em uma dessas ações, na última semana, o restaurante japonês Kinoshita, que fica na mesma região que o kitai, também foi autuado .

Questionada sobre as visitas das autoridades nos estabelecimentos da capital, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) informou que as inspeções surpresas da Vigilância Sanitária são feitas em duas situações específicas: na abertura do estabelecimento e em caso de denúncia. O último caso também aplicado pela Polícia Civil.

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG