Dramas de familiares de vítimas retratam crise de segurança em São Paulo

Em meio à onda de violência, testemunhas e pessoas que estavam no lugar errado na hora errado engrossam lista de mortos; 'Os filhos da gente estão morrendo', diz pai de vítima

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O aposentado J. viu um grupo de homens mascarados em um carro descendo a rua em direção à padaria onde seu filho de 18 anos comia pizza com os amigos em Guarulhos, na Grande São Paulo. Segundos depois ouviu tiros e, ao correr para o local, achou o rapaz e três de seus colegas baleados.

"Encontrei meu filho caído no chão, atingido na barriga e no tórax. Estava com os olhos abertos, mas não deu para conversarmos porque ele não conseguia respirar", disse J.

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O crime aconteceu na noite de domingo. O filho dele, Ezequiel Cruz, foi levado para o hospital, mas morreu. Dois dos quatro amigos baleados sobreviveram. Os homens mascarados ainda teriam promovido um segundo ataque semelhante em outro bairro de Guarulhos na mesma noite.

Cruz foi uma das cerca de 260 pessoas assassinadas nos últimos 40 dias em um pico de violência que se alastrou pela capital e pela região metropolitana de São Paulo. As mortes teriam tido início em um conflito entre membros da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) e a Polícia Militar. Desde o início do ano, 92 policiais também foram assassinados.

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Policial militar é visto em local em que outro foi baleado em posto de gasolina, na esquina das avenidas Dona Belmira Marin e Carlos Benjamin dos Santos, na região do Grajaú, zona sul de São Paulo (arquivo)

Porém, entre as vítimas, não estão apenas criminosos e policiais. Testemunhas e pessoas que estavam no lugar errado e na hora errada têm engrossado essa estatística mórbida. "Meu filho não era criminoso, trabalhava em um supermercado na Vila Maria (um bairro da zona norte de São Paulo). Todos falavam para que nós não saíssemos de casa depois das 22h, mas não pensei que aconteceria com a gente", disse J à BBC Brasil.

"Os filhos da gente estão morrendo e não vejo solução nenhuma do governo. Meu filho não era bandido, estava começando a viver", disse, também sob anonimato, o pai de Thiago Oliveira, de 22 anos, que morreu junto com Cruz.

No Instituto Médico Legal, onde se reuniam na segunda-feira parentes de Cruz e de outros cinco rapazes mortos nos dois ataques, circulavam rumores sobre uma suposta participação de policiais militares não fardados nas execuções. Parte desses boatos era influenciada por um outro caso, o assassinato do servente Paulo Batista do Nascimento, no sábado.

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Um cinegrafista amador flagrou o momento em que Nascimento teria sido preso, arrastado para fora de uma casa e depois supostamente executado por cinco policiais militares uniformizados, dentro do porta-malas de um carro da polícia. As imagens mostram a vítima dominada, um policial de arma em punho e o som dos tiros.

A gravação e a posterior prisão dos policiais envolvidos vinha sendo exibida à exaustão pelas emissoras de TV na mesma ocasião das mortes em Guarulhos.

Vinganças

"Neste momento, está ocorrendo uma situação de revanche em São Paulo. A polícia está matando e os criminosos também. É uma guerra a que estamos assistindo todos os dias pela TV", disse Marcos Fuchs, diretor da ONG Conectas Direitos Humanos. "E quem sofre com tudo isso é a população", afirmou.

Segundo analistas e membros do Ministério Público ouvidos pela BBC Brasil, a origem do pico de violência vivenciado por São Paulo é uma ação mais dura da Polícia Militar. Membros do PCC teriam sido assassinados em ações de força e até em operações supostamente organizadas como emboscadas letais pela PM - especialmente por sua controversa unidade de elite Rota (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar).

Para se ter ideia, o índice de letalidade dessa unidade cresceu quase 25% só neste ano. Foram 77 casos entre janeiro e setembro de 2012 contra 62 no mesmo período de 2011. A cúpula da facção criminosa - que cumpre penas em presídios de segurança máxima de São Paulo e controla a facção por meio de telefones celulares e recados passados por visitas - teria então ordenado a seus comparsas em liberdade que atacassem policiais em retaliação a tais ações.

Haveria indícios ainda, segundo promotores públicos, de que policiais militares tenham se organizado em grupos de extermínio para agir sem fardas para não prejudicar a imagem da PM. Esses grupos estariam realizando ações para matar indiscriminadamente criminosos, usuários de drogas e pessoas que frequentam os mesmos ambientes que os criminosos - em um ciclo de retaliação às mortes de colegas.

Em ao menos uma das chacinas deste ano, que deixou seis mortos em julho no município de Osasco, a Polícia Civil tem fortes indícios da participação de ao menos um ex-policial militar. Porém, a investigação ainda não foi concluída pois depende de laudos técnicos ainda em produção.

Já as investigações sobre o assassinato de Nascimento, flagrado pelo cinegrafista, continuam após a decretação da prisão provisória de cinco policiais envolvidos no caso na quarta-feira.

Comando da PM

Para o comandante da PM, Roberval França, "o movimento atípico de mortes em São Paulo que surgiu nos últimos três meses" é motivado por disputas de quadrilhas por pontos de venda de drogas e cobrança de dívidas.

Segundo ele, as opiniões de analistas e promotores são "especulações, hipóteses ou boatos". "Não temos ainda dados conclusivos que apontem para a participação efetiva de policiais. Então, é necessário que as investigações caminhem", disse.

Para França, os ataques contra policiais deste ano são uma reação do crime organizado às ações de combate ao narcotráfico feitas pela polícia. "Tivemos neste ano três policiais mortos em serviço e um número muito grande de policiais mortos fora de serviço. Os criminosos adotaram como estrategia buscar atingir policiais fora do horário de serviço quando estão mais vulneráveis", disse.

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