Matança no Carandiru motivou formação de facção criminosa em São Paulo

PCC teria sido fundado por 31 presos pouco menos de um ano depois do massacre para combater maus tratos no sistema prisional; caso Carandiru completa 20 anos nesta terça

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Fachada do Complexo Penitenciário do Carandiru, dois dias após o massacre ocorrido no local

O massacre de 111 presos em 1992 na Casa de Detenção de São Paulo - o Carandiru - foi um episódio decisivo para a fundação da facção criminosa que atua dentro e fora do sistema prisional paulista, o PCC (Primeiro Comando da Capital), segundo especialistas. 

"Antes do massacre, o Estado já extorquia, torturava e matava os presos. O Carandiru não foi a única causa da fundação (do PCC), mas colaborou muito para isso", afirmou o padre Valdir João Silveira, coordenador nacional da Pastoral Carcerária, da Igreja Católica.

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O PCC foi criado por um grupo de presos em 31 de agosto de 1993 na Casa de Custódia de Taubaté - pouco menos de um ano depois do massacre do Carandiru. Os principais objetivos da facão eram combater os maus tratos no sistema prisional e evitar novos massacres como o de 1992, segundo o jornalista Josmar Jozino, autor de três livros sobre o PCC, entre eles "Xeque-mate, o Tribunal do Crime e os Letais Boinas Pretas" (Ed. Letras do Brasil).

"O massacre do Carandiru foi a gota d'água para a criação do PCC. O episódio está registrado até no estatuto de fundação da facção", disse ele. Segundo os especialistas Jozino e Silveira, o grupo criminoso se espalhou por todo o sistema prisional e impôs regras de conduta aos presos - como a proibição nas cadeias do uso do crack e de assassinatos motivados por dívidas de drogas. A ação teria diminuído os índices de mortalidade nas penitenciárias.

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Mas, segundo a Pastoral Carcerária, não há a divulgação de dados completos que possam retratar a evolução da mortalidade nos presídios. Um levantamento da entidade nos presídios de São Paulo, abrangendo o período de 1999 a 2006, afirma que as mortes caíram de 522 em 1999 (o equivalente 1% da população carcerária na época) para 377 em 2006 (0,3%).

A Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo não confirmou essas estatísticas, mas também não forneceu dados sobre mortalidade solicitados pela reportagem. A pasta também optou por não conceder entrevista.

Crime organizado

A partir de sua fundação em 1993, o PCC também passou a acumular forças para tentar pressionar o Estado, por meio de violência e de ameaças, para obter melhores condições de vida e até regalias para os presos. Porém, os governos paulistas jamais admitiram ter negociado com o PCC. Cobrando mensalidades de seus "associados", a organização criou uma rede de apoio aos criminosos, que inclui contratação de advogados e apoio financeiro às suas famílias.

A facção também expandiu suas ações para fora dos presídios. Passou a controlar parte do tráfico de drogas em São Paulo, fazer parcerias com facções de outros Estados, alugar armas para ações criminosas e até assumiu o controle de rotas internacionais de entrada de entorpecentes no país.

Essa expansão colaborou para a formação de mais organizações criminosas nos presídios paulistas - essas, por sua vez, dedicadas a fazer frente ao poder crescente do PCC. A rede criminosa criada em 1993 também buscou vingança contra autoridades envolvidas no massacre do Carandiru.

Segundo investigações da polícia e do Ministério Público, membros do PCC teriam sido os responsáveis pelo assassinato a tiros em 2005 de José Ismael Pedrosa, que dirigia o Carandiru na época do massacre e também administrou a Casa de Custódia de Taubaté.

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