Artistas ‘por acidente’ transformam as ruas de São Paulo em palcos

Analista de marketing, engenheira civil e grupo de educadores apostam em ações criativas para a "transformação do indivíduo". Vale até ‘aquecer’ postes e árvores com peças de tricô

Carolina Garcia - iG São Paulo |

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Leticia Matos decorando uma árvore com 13 pompons na rua Barão de São Ângelo, em SP

Caminhar pelas ruas de grandes cidades e ao mesmo tempo interagir com esse meio, como notar árvores, fachadas ou pessoas, é uma atividade considerada extinta por alguns despretensiosos artistas de rua em São Paulo. Muitas vezes escondidos em grandes empresas, como a analista de marketing Aline Mori, de 26 anos, esses jovens investem suas horas livres em tentar mudar o pensamento do ser humano sobre a vida em sociedade.

Aline mora há 15 anos em São Paulo e enfrenta uma jornada diária de trabalho das 9h às 21h. O estresse e sua “rotina maluca”, como ela mesmo definiu, só podem ser superados com uma atividade que considera seu momento de reflexão: tricotar. Nas suas horas vagas, Aline prepara peças de tricô que serão ‘costuradas’ em árvores ou postes perto de sua casa.

A prática não foi criada por ela. Aline contou que há três meses buscava uma maneira de expressar seus pensamentos e, após encontrar práticas de Yarnbombing (arte com tricô) , decidiu “aquecer e colorir a cidade”. “Tricotar é um ato carinhoso. Hoje você não vê as pessoas fazendo algo para a outra. Poderia comprar um tecido, mas o esforço é um carinho para a cidade”, explicou ao ‘aquecer’ um poste na avenida Faria Lima, na zona sul.

Enquanto realizava a quarta intervenção, seu filhote de labrador de apenas três meses aguardava pacientemente ao seu lado. “É uma arte muito individual, me sinto alimentada. Não preciso marcar na minha agenda uma manifestação. Saio e faço”, disse Aline que estava passeando com seu cão e acabou encontrando “um ponto muito cinza”.

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Aline Mori, de 26 anos, decidiu colorir a avenida Faria Lima, na zona sul de São Paulo

A analista disse ainda que seus colegas de trabalho não entendem tal dedicação e na rua, enquanto aplica suas peças, as pessoas olham com estranhamento. Para ela, sua arte é mais eficiente por não ser obrigatória, como abordar uma pessoa e ‘pregar’ uma mudança de atitude por um mundo melhor. “A arte por si só sensibiliza. Não quero escrever um manifesto ou tentar convencer verbalmente. Se você quer sensibilizar, vá e faça algo pela sua cidade.”

Caminho contrário

“Cada vez mais nossa comunicação é virtual. Faço o processo um pouco contrário, tento resgatar a comunicação ao vivo”, disse a engenheira civil Leticia Matos, de 36 anos, fundadora do projeto 13Pompons . Trabalhando como professora de yoga, Leticia sentiu a necessidade de expressar “o zelo e afeto pelas pessoas”. Para ela, tudo começou como uma brincadeira e o número 13 acabou ganhando um significado mais positivo do que muitos podem pensar.

Como já tricotava desde criança, em março desde ano, Leticia ensinou umas amigas a fazer tricô e pompons. Os 13 pompons produzidos naquele dia foram levados para uma árvore. “Achei lindo. Me animei e decidi realizar uma intervenção por dia, até o dia do meu aniversário, e coincidentemente faltavam 13 dias”. Leticia viu ali uma oportunidade de colorir postes, árvores, sacadas e orelhões. Ela queria mudar a cara da cidade.

“Cheguei a me assustar como as pessoas não interagem com o meio e como elas simplesmente não se importam”, disse ela lembrando quando quis subir em uma árvore para aplicar uma peça. “Eu estava costurando lá no alto. Na hora pensei que muitos parariam e me perguntariam o que eu estava fazendo, mas ninguém apareceu.”

Em apenas seis meses, ela já decorou 94 pontos em São Paulo e se prepara para a intervenção número 100. Leticia consegue se ver dividida pelos poderes da internet e das mídias sociais. Ao mesmo tempo em que suas plataformas, como Facebook e Instagram, enfraquecem as relações interpessoais, ela tem acompanhado seu ‘hobby’ passeando diferentes regiões do País.

“Coloquei o projeto na internet e comecei a publicar minhas fotos. De repente, vi muitas fotos circulando por aí (ela já realizou intervenções no RS, MG, RJ e Argentina) . As pessoas encontram minhas peças e colocam nas redes sociais. Não sei onde vou chegar com isso, só quero pensar que gero amor entre as pessoas”.

Com toda a exposição gratuita, Letícia chegou a ser convidada para expor na Bienal Brasileira de Design, no dia 15 de agosto, em Belo Horizonte (MG). Para a ocasião, ela prepara um pompom de 1 metro de diâmetro, composto por mil bolinhas de lã (veja na galeria) . “Definitivamente é uma brincadeira que deu certo. Não quero que seja algo simplesmente bonito, quero que alguém olhe e sorria”, contou.

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Os educadores Tati Ribeiro, Thiago Arruda e Grace Skajko criadores do Mude o Mundo: Comece por Você!

Porém, como esperado por esses artistas, nem todos compreendem o propósito da obra. Inúmeras vezes Letícia encontrou suas peças rasgadas ou com apenas alguns pompons. “Na primeira vez, fiquei bem chateada. Precisei entender que o ‘destruir’ também é uma interação com a peça. Agora faço e desapego.”

Rua: museu a céu aberto

Colocando de lado as agulhas e a lã, porém, ainda tratando a rua como um palco, estão os três educadores Tati Ribeiro, Thiago Arruda e Grace Skajko. Eles formam o grupo Mude o Mundo: Comece por Você! . Com uma agenda de arte e cultura espalhada pelo Estado de São Paulo, o grupo destaca a importância de cada indivíduo na construção de uma sociedade melhor. E com isso tornar o indivíduo mais participativo, colaborativo e empático.

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Ação 'Bem Me Quer': participantes eram convidados a entregar rosas para desconhecidos

Fugindo das abordagens comuns dos movimentos sociais, o grupo busca transmitir suas mensagens com as chamadas ‘intervenções surpresas’. “Somos um grupo com apelo visual, tátil e emotivo. Gostamos de fazer a pessoa participar por iniciativa própria. Por ser inesperado, o ato gera uma curiosidade”, explicou Arruda, o idealizador do projeto.

Na 20ª edição do Anima Mundi, festival de animação realizado em julho, por exemplo, o grupo chegou ao local com algumas centenas de rosas vermelhas com o nome do movimento.

“O local estava lotado e todos olhavam para a gente. Devem ter pensado: ‘quem são esses loucos com tantas rosas?’. Ficamos parados ali e logo fomos abordados por uma menina pedindo uma flor. Aí eu falava: ‘eu te dou, mas essa rosa não é sua’. A ideia era que as pessoas começassem a interagir com estranhos e, ao entregar a rosa como presente, falariam ‘mude o mundo, comece por você’. Em cinco minutos, estavam todos sorrindo e fazendo novas amizades. Algo tão distante do que vemos hoje nas ruas.”

Arruda contou orgulhoso da ação, chamada Bem Me Quer, e disse ainda que ela já foi repetida pelo menos três vezes na capital paulista. O grupo já realizou 60 atividades em São Paulo.

Para ele, o número de pessoas que tentam mudar a sociedade, seja de forma individual ou coletiva, tem crescido. “A rua passou a ser um museu a céu aberto. E quando a pessoa está agindo para construir é válido. Muitos têm a intenção, porém poucos têm a ação.”

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