Último carimbo no passaporte da alegria

Professora de Física na USP de São Carlos esteve no Playcenter no início do mês para mostrar, pela primeira e última vez, o parque à filha antes do fechamento no dia 29

Tereza Mendes - especial para o iG |

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Tereza Mendes esteve no Playcenter no início do mês para se despedir do parque de diversões

O folheto do parque provoca: o Playcenter vai fechar aos 39 anos porque a vida começa aos quarenta (não entendi...) Tento organizar as lembranças de muitas idas anteriores ao parque, quando criança, com a família, depois durante a adolescência (matando aula, pegava o ônibus Bairro do Limão, que era verde, com a escrita "Limão" e passava do lado de casa) e a última vez, já para relembrar os velhos tempos, faz quase 20 anos. Desta vez a visita é de despedida e para mostrar o parque à minha filha, Lucia, que vai fazer 12 anos e nunca esteve lá.

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A tentativa de resgatar a sensação de um lugar mágico e distante, meio "cult" meio "trash", funciona e não funciona. Na estação Barra Funda perguntamos onde pegar o ônibus gratuito para o Playcenter. Todos sabem que existe, sai do final da plataforma, mas não sabem direito o horário; não há placas, é meio como pegar o trem para Hogwarts... Fazemos pensamento positivo e o ônibus chega, vazio e sinistro; está escurecendo, subimos animados, tem uma meia dúzia de gatos pingados, legal! Depois de longos momentos no trânsito da Marginal do Tietê chegamos às bilheterias, troco os vouchers que adquiri no Groupon por entradas (passaporte e visto para a alegria...) Os bilhetes passam pelo leitor de código de barras e voilà: carimbam nossas mãos e entramos!

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A filha de Tereza esteve no parque pela primeira vez

Apesar de reconhecer trechos do parque, não encontro as atrações antigas, o labirinto, o bicho da seda, a velha montanha russa, a roda gigante panorâmica, o trenó aquático... do lado de fora veem-se aviões, prédios, ônibus e caminhões da Marginal, de vez em quando bate um cheiro desagradável (do rio Tietê?). O parque está muito cheio, corremos para ver o show "Últimas noites do terror: todos os medos juntos", mas não dá para chegar próximo ao palco. Resolvemos comer alguma coisa. Escolho o Monga Burger e ficamos filosofando sobre a "Monga do Playcenter", a mulher gorila, parte do imaginário coletivo da geração que ia ao parque nos anos oitenta, assim como as palavras "Conga, conga, conga" da música interpretada pela Gretchen (não confundir com o tênis "conga" que, como o "bamba", já não usávamos mais...) Pergunto para a vendedora da lanchonete se a monga não existe mais. Ela diz que não, nos 3 anos que trabalha no parque não ouviu falar. Ficamos pensando: será que a monga virou hamburger?? É mentira, fico sabendo depois, tem uma atração, "Mistério da Monga", reintroduzida em 2009, melhor que a original, mas não fomos conferir, tinha muita fila...

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Para não dizer que não aproveitei nenhuma das atrações antigas, fui ao Viking com minha filha. Ela teve menos medo da altura, velocidade e sensação de perda de peso do que dos monstros soltos pelo parque. Pois é, os atores com máscaras de zumbis e vampiros, serra elétrica barulhenta assustando e ameaçando os visitantes são um espetáculo e tanto, mas o realismo das últimas noites do terror pode ser demais para certas crianças... Ironicamente, criança até 10 anos entra de graça se for acompanhada de um adulto pagante! Decidimos ficar no setor kids, ela gosta, e eu desisto de resgatar a ideia do parque da minha infância.

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O Playcenter estava lotado no dia da visita de Tereza

Olho em volta, é impressionante pensar que o parque, lotado, vai fechar as portas para sempre (dizem que vai virar um novo parque de diversões, voltado só para crianças). O lugar foi e ainda é símbolo da cidade para muitas gerações. As instalações são modernas e bem cuidadas e quem visitar o parque em seus últimos dias certamente não testemunhará um final decadente (o parque está em funcionamento até dia 29 de julho).

A festa de despedida do Playcenter é uma superprodução. O grande número e o empenho dos atores-monstros, a alta qualidade técnica dos shows temáticos e de atrações como o castelo dos horrores (pagamento à parte, R$ 10) compensam plenamente as esperas em filas e a superlotação de alguns setores do parque. É pena que as noites do terror não sejam prolongadas até o fechamento do parque, no final do mês. É mesmo pena que o Playcenter vá fechar, mas fico feliz de ter vindo pela última vez.

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Atração do Noites do Terror no Playcenter

Hora de ir embora. Vamos enfrentar a fila insana para pegar o ônibus de volta ao terminal da Barra Funda. Há apenas um ônibus, que parte hiperlotado e volta após quase meia hora. Algumas pessoas tentam furar fila e causam tumulto, mas os funcionários, habituados, controlam a situação. Mais uma espera de menos de meia hora (são 10 da noite, o trânsito deve estar melhorando) e vamos embarcar. Estamos no início da fila e conseguimos sentar. Crianças no colo, entregam as mochilas para os passageiros que estão sentados, apertam para o final do ônibus, "costas com costas". Incrível, cabe quase todo mundo. Ao meu lado, em pé, reconheço uma garota que pegou o ônibus da ida conosco. Conversamos um pouco, pergunto se ela foi ao parque sozinha, e se gostou. Claro, ela tinha ido recentemente com a escola e quis voltar para ver mais uma vez os monstros. Concordamos que é uma pena o parque fechar.

Uma das últimas a descer do ônibus, pergunto ao motorista se ele trabalhou no parque por muito tempo (todos os outros funcionários eram tão jovens que a pergunta não faria sentido). Ele diz que não, e de qualquer forma só "ajuda" nos fins de semana. É isso, visitei o Playcenter pela última vez. De lembrança terei uma camiseta babylook meio "retrô" bem legal, com o conhecido símbolo do parque, as letras "P" e "C" estilizadas enroladas uma dentro da outra como rocambole; 50% off, pois a loja está com ótimos descontos. Fica a dica.

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