Na primeira semana, operação da CET tem pouco efeito, dizem ciclistas

Para consultor em mobilidade urbana, melhoria depende de plano viário específico; multas devem conscientizar os motoristas

Alexandre Dall´Ara, iG São Paulo |

A Companhia de Engenharia e Tráfego (CET) começou na última segunda-feira uma operação na cidade de São Paulo para coibir o desrespeito aos ciclistas no trânsito. A fiscalização é feita por mais de cem agentes nas oito vias com os maiores índices de acidente envolvendo ciclistas. Para o consultor em mobilidade urbana André Pasqualini, a ação supre uma lacuna para a segurança dos ciclistas. “O que faltava era a fiscalização. São três pilares fundamentais: infraestrutura, educação e fiscalização”, diz ele, que treinou 15 agentes da CET para fiscalizarem, de bicicleta, a ciclofaixa de Moema.

Os motoristas estão sujeitos a três infrações. São multados aqueles que obrigarem o ciclista a mudar seu trajeto, os que não reduzirem a velocidade na ultrapassagem e quem não der preferência à bicicleta nas conversões.

Segundo Pasqualini, a última infração é importante porque muitos ciclistas saem antes do semáforo abrir para virar a rua porque não são respeitados pelos carros. “Se não sair antes, os carros fecham [os ciclistas], mas eles se colocam em risco fazendo isso.”

O designer Eduardo Amaral, que pedala 36 km todos os dias, passou por essa situação na última semana. Ele foi fechado por uma picape na quarta-feira quando voltava para casa pela Av. Luis Carlos Berrini. A diferença é que, desta vez, o motorista foi multado. Amaral conta que depois do incidente viu um guarda de trânsito anotando a infração. O policial confirmou que se tratava do motorista da picape. “Nunca tinha visto isso acontecer antes e ando de bicicleta há muitos anos.”

O coordenador do Bike Anjo, grupo que ajuda ciclistas iniciantes a andar pela cidade, Raphael M. de Oliveira, acredita que a aplicação de multas pode trazer resultado. “A expectativa é que a fiscalização ajude a melhorar a conscientização do motorista. A campanha da CET faz bem ao ressaltar que a bicicleta também é um veículo.”

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Juliano Mendonça, assessor técnico do Instituto Akatu, anda de bicicleta todo dia na região do Butantã, zona oeste. Ele conta que não percebeu nenhuma diferença na primeira semana da operação. “Acho válido, mas deveria ter sido colocada em prática há muito tempo.”

Felipe Fontes, estudante de jornalismo da USP, diz também que não notou diferença com a operação. Para ele, a importância é acabar com uma “situação vergonhosa” que existia na cidade, onde os fiscais não multavam os motoristas. Ele lembra ainda que há alguns anos a própria CET recomendava ao ciclista andar na calçada por considerar perigoso o tráfego na rua. “Há quatro anos você tomava cortada, buzinada todo dia, hoje acontece uma, duas vezes por semana. Já é uma mudança, mas isso é um processo.”

Apesar de longe do ideal, Pasqualini e Oliveira concordam que a situação do ciclista tem melhorado. “É nítido como hoje muito mais motoristas respeitam o ciclista”, diz o coordenador do Bike Anjo, que há dois anos e meio vai ao trabalho de bicicleta.

Para ambos, a solução é pensar no trânsito de bicicletas com a lógica dos ciclistas. Pasqualini diz que a estrutura urbana é pensada para o carro. “Deslocam a faixa de pedestre para criar um espaço para os carros, aí as pessoas atravessam fora da faixa”. Para ele, é preciso um plano viário que identifique as principais rotas utilizadas, as possíveis intervenções nas vias e pense no trajeto como um todo, integrando outros meios de transporte.

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