“Primeiro sou mãe, depois mulher”, diz agredida ao retirar queixa em delegacia

iG passa um dia na Delegacia de Defesa da Mulher em São Paulo e constata que é grande o número de vítimas que decidem interromper inquérito contra agressores

Carolina Garcia, iG São Paulo |

Tarefas e situações domésticas corriqueiras podem desencadear episódios violentos no ambiente familiar. Uma camisa passada fora do lugar foi o que bastou para o marido de *Milena, de 36 anos, a agredir em agosto do ano passado. “Ele não achava a camisa. Mostrei para ele onde estava e notei que havia guardado no lugar errado do armário. Ele então me agarrou e bateu minha cabeça contra o móvel várias vezes", contou. O local correto da camisa para *Welington, de 40, era duas gavetas acima.

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O caso pode espantar por sua motivação banal. É ainda mais assustador o índice de mulheres que sofrem violência doméstica no País , seja de natureza física ou psicológica (agressão verbal). No ano passado, segundo o caderno complementar do mapa da violência, mais de 48 mil mulheres foram atendidas no Sistema Único de Saúde (SUS) com sinais de agressão. Desses casos, quase 70% aconteceram na residência.

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Carolina Garcia / iG
Dóris com seu bebê de 15 dias durante oitiva com a escrivã na DDM, no centro de São Paulo

Milena sabe que não está sozinha. Ela tem amigas em sua vizinhança, no sul da capital, que sofrem com o mesmo problema. Em janeiro, em um domingo pela manhã, ela sentiu que algo mudaria. Sua filha de um ano e cinco meses estava no berço e febril e, por isso, o café da manhã não ficou pronto no horário de costume. “Ele puxou o meu cabelo e disse: ‘Você é uma inútil, vai ver o que vou fazer’. Achei que ele fosse me matar.” Foi quando a criança chorou. “Sem saber, minha filha me salvou.”

Ela então decidiu fugir com a filha para Caraguatatuba, cidade do litoral paulista. Não tinha amigos e nem família no novo endereço. “Queria esquecer tudo o que tinha me acontecido”. Porém, logo reconheceu que nunca conseguiria apagar “as surras” que levou - tanto pela cicatriz em possui em sua testa como pelas inúmeras investidas de um Wellington “transformado e apaixonado”. Até hoje, ela diz não saber como ele a encontrou.

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“Ele não me deixaria em paz, então voltei para São Paulo e fui denunciá-lo”. Decidida, registrou a denúncia contra o companheiro em março, dois meses após a última agressão, na 1º Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), no centro da capital. E foi lá que conversou com a reportagem na última quarta-feira (9), quando foi intimada para dar continuidade ao inquérito.

Ao acompanhar o depoimento de Milena, ficou claro que ela só havia relatado parte de sua história. Ela decidiu omitir a primeira agressão física sofrida em agosto de 2011 (que a impediria de retirar a queixa), revelada à reportagem antes do início da oitiva. “A senhora precisa de testemunhas do fato (da ameaça) para dar continuidade ao processo contra seu ex-parceiro. Quem podemos chamar?”, questionou a policial. “Doutora, não tenho ninguém para falar sobre isso”, disse Milena. Antes, ela havia contado que sua irmã sabia do perfil agressivo do ex. Sem alternativas e visivelmente frustrada, a escrivã afirmou que o inquérito não poderia avançar diante da ausência de provas.

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Delegada Celi Paulino trabalha há 25 anos como titular da Delegacia de Defesa da Mulher
“Você vai ter que retirar a queixa, é isso que você quer?”, disse a policial continuando a questionar sobre a possível volta do casal. Milena então decidiu retirar a queixa e ainda pediu desculpas pelo “trabalho dado” aos policiais. Em resposta, recebeu: “O problema não é o trabalho, mas você continuar apanhando em casa”. Nesse momento, ela deixou a sala em silêncio e de cabeça baixa. Ao iG , antes de deixar a delegacia, Milena afirmou acreditar no arrependimento de Welington. “Ele se transformou depois do B.O. Paga pensão todos os meses. Se o visse na rua, poderia até se apaixonar.”

Dependência psicológica

“O Estado precisa investir mais em creches, escolas e abrigos. Com uma melhor estrutura, poderíamos convencer a vítima a tentar e dar mais uma chance para a própria felicidade”, explica a delegada titular da 1º Delegacia de Defesa da Mulher, Celi Paulino Carlota.

No período de três horas, pelo menos seis mulheres revelaram ao iG que estavam na delegacia para retirar as queixas contra os companheiros. Para muitas, “manter a família unida” é a principal motivação na hora de interromper um processo. Já outras mulheres definiram que o inquérito se tratava apenas de “um mal entendido”.

Os reais motivos, segundo Celi, oscilam entre dependência financeira e dependência psicológica. “Além de pensar que não irá oferecer o mesmo conforto para os filhos, depois de tantos insultos, a mulher acaba se diminuindo e acreditando que realmente é inferior. É necessário um processo de apoderação da mulher e, para isso, tem de existir um pesado trabalho psicológico”, defende a delegada.

Celi ainda reforça a importância de psicólogos e psiquiatras nas DDMs do País. Na 1º Seccional de São Paulo, por exemplo, o serviço psicológico é oferecido apenas uma vez por semana – nas quintas-feiras – em horário comercial.

Sonho? Voltar a trabalhar...

Na quarta-feira, dia que a delegacia não contava com a equipe de psicólogos, muita vezes composta por estudantes de psicologia, *Dóris, de 30 anos, havia agendado um horário com a delegada. Delicada e excessivamente calada, a presença dela era dificilmente notada na sala de espera. Com todas as cadeiras ocupadas, algumas mulheres compartilhavam suas histórias. Dóris, no entanto, permanecia quieta e, envolvida em uma peça de crochê, carregava seu recém-nascido de 15 dias.

Boliviana, ela contou que chegou ao Brasil há 11 anos e conheceu o marido há três anos em uma fábrica de costura. Também boliviano, segundo Dóris, teve “uma vida difícil e sofrida” e, por isso, mantinha “pensamentos antigos e atitude machista”. O casal tem cinco filhos e é na frente deles que ela apanha e recebe chutes do companheiro. “Ele só pede comida quentinha e roupa lavada, mas às vezes não consigo fazer tudo.”

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Dóris não sabe dizer quantas vezes apanhou ou sofreu ameaças em casa – caso pense em nova separação. Ela já tentou deixa-lo e fugir de São Paulo. Na época, grávida de seis meses, encontrou abrigo na casa da irmã, na cidade de Cachoeira Paulista, interior do Estado. “Ela poderia oferecer um quarto, mas só depois que eu pedisse medida protetiva contra ele. Acho que ela tinha medo dele.”

Quando pensava que poderia voltar a trabalhar, atividade suspensa pelo marido após o nascimento do primeiro filho, Dóris notou alguns machucados e marcas de cinto em seus filhos. “Minha irmã batia neles. Não consegui aceitar isso, briguei com ela e fui expulsa de sua casa”. Com a gestação alcançando o oitavo mês e sem destino, procurou o marido que a aceitou de volta, mas com uma condição. “Prometi que retirava a queixa contra ele. Eu posso suportar a dor e faço isso pelos meus filhos. Eles não podem pagar pelo meu erro.”

Assim como Milena, Dóris apenas contou à polícia sobre as ameaças que recebia do marido e que isso teria sido sua motivação para fugir. Durante seu depoimento, a escrivã explicou a necessidade de convocar testemunhas para dar substancialidade ao processo. Dóris então repetiu o discurso de Milena e afirmou que não teria testemunhas. Porém, assumiu que havia reatado com ele há um mês e meio.

“Agora não tenho condições de pedir separação ou fugir, preciso pensar mais nos meus filhos. E acabei acostumando com o machismo dele. Primeiro eu sou mãe, depois mulher”, disse enquanto arrumava a roupa do filho e explicando que a ausência de amor e carinho é superável. Durante seu casamento, segundo ela, apreendeu da pior maneira que a relação sexual pode ser usada como recurso para manter o ambiente tranquilo em casa.

"Ele não me dá amor e carinho, não me toca sem interesse. Apenas usa o meu corpo para satisfazer suas necessidades e descarregar suas frustrações". Dóris contou que o único momento que encontra a felicidade é dormindo. “Quando sonho, me vejo sorrindo e trabalhando. Feliz, assim como eu era quando mudei pra cá.”

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