Faculdade de Medicina da USP vai ampliar pesquisa com mortos

Novo equipamento de ressonância magnética permitirá à universidade melhorar diagnóstico precoce de doenças como o câncer

Dubes Sônego, iG São Paulo |

A Faculdade de Medicina da USP, responsável pelo maior serviço de autópsias por morte natural do mundo – são mais de 14 mil por ano –, assinou na quinta-feira um contrato de compra que deve contribuir para melhorar a precisão do diagnóstico precoce de doenças como o câncer. Adquiriu um equipamento de ressonância magnética com potência de 7 teslas, capaz de enxergar estruturas tão pequenas quanto uma célula. Será o primeiro da América do Sul, de acordo com Paulo Saudiva, professor titular de patologia da Faculdade de Medicina da USP. Hoje, os equipamentos mais potentes usados no diagnóstico por imagens têm 3 teslas.

Com o novo equipamento, ainda não aprovado para uso comercial em exames clínicos, a Faculdade poderá fazer imagens detalhadas de corpos deixados aos seus cuidados e depois analisar as microestruturas patológicas eventualmente encontradas. A grande vantagem, explica Saudiva, é poder comparar a imagem registrada pela ressonância com o tecido doente retirado dos corpos até o nível molecular. Com um equipamento de ressonância tradicional já é possível enxergar estruturas de 0,6 milímetros. “Com o de 7 teslas, a capacidade de distinguir coisas pequenas será dez vezes maior”, afirma.

Hoje, nenhum centro reúne número tão grande de cadáveres à disposição para estudo e equipamento tão potente. Por causa disso, afirma Saudiva, a aquisição dará à faculdade de Medicina da USP a oportunidade de fazer pesquisas de altíssima relevância internacional. Segundo ele, as principais aplicações estão na pesquisa de doenças degenerativas, neurológicas, cardíacas e câncer. Será possível identificar, por exemplo, os efeitos ao longo do tempo do crack sobre o sistema nervoso central de usuários da droga ou como o cérebro se comporta após a interrupção do consumo, explica Saudiva. “É algo que tem grandes implicações na área de saúde pública”, diz.

A compra é resultado de uma reunião de esforços e aportes, diz o acadêmico. A Siemens, fornecedora do equipamento, aceitou vendê-lo “a preço de custo”, fornecer assistência técnica e treinar mão de obra. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) entrou com financiamento de cerca de US$ 3 milhões e a Faculdade de Medicina com outros US$ 2 milhões.

Para a Siemens, a grande vantagem será a produção de conhecimento científico que poderá ser usado no desenvolvimento de novas linhas de produtos para o diagnóstico por imagens. A companhia alemã também deverá se beneficiar da obtenção de informações sobre o uso do equipamento que poderão subsidiar sua validação para uso clínico, e não apenas para pesquisas, como acontece atualmente.

A previsão é de que o prédio onde funcionará o equipamento fique pronto em um ano e meio a dois, diz Saudiva. Por causa da potência do campo magnético gerado, há necessidade de construção de estrutura especial reforçada e com isolantes.

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