Alicia García de Francisco. Veneza (Itália), 3 set (EFE).- A solidão mais extrema, o medo, a hipocrisia e a crítica pura e dura protagonizaram o segundo dia da seção oficial da 66ª edição do Festival de Cinema de Veneza, com The Road, de John Hillcoat, e Life During Wartime, de Todd Solondz, dois filmes tão interessantes quanto difíceis.

As duas obras causaram boa impressão nos primeiros momentos, após a decepção da quarta-feira com a abertura do festival e da competição pelo Leão de Ouro com "Baaría", um fraco e pretensioso filme do italiano Giuseppe Tornatore.

Frente à história de boas intenções de Tornatore, John Hillcoat e Todd Solondz trouxeram a Veneza dois filmes duros, mas de estilos e objetivos diferentes, bem filmados e interpretados, com menos parafernália publicitária e muito mais cinema a mostrar.

Baseada em um romance de Cormac McCarthy, "The Road" é uma história apocalíptica, dramática e sem esperanças de um homem (Viggo Mortensen) que foge de um mundo quase deserto e tomado por grupos de criminosos em um caminho desesperado para lugar nenhum, com o único objetivo de salvar o filho.

Essa é uma história de medo em estado puro, o de um pai que teme - embora às vezes deseje - a morte do filho em um mundo no qual não restam oportunidades nem quase vida.

Também trata da solidão que sente diante da falta da mulher - uma Charlize Theron que se transforma na imagem de um passado com esperança - e de qualquer outro ser humano no qual possa confiar.

Com uma excelente fotografia de Javier Aguirresarobe, uma música profunda de Nick Cave e as críveis interpretações de Mortensen e, especialmente, do menino Kodi Smit-McPhee, o filme, no entanto, carece de tensão.

Uma tensão difícil de conseguir, dado o mais que evidente desenvolvimento de uma história delicada a um final inacabado e dramático, mas que prejudica a evolução de um filme que poderia ter sido mais redondo.

Esse é um problema que as adaptações cinematográficas de romances de peso costumam ter e, neste caso, quando se trata de obras tão complicadas como as de McCarthy, que teve um livro levado ao cinema em "Onde os Fracos Não Têm Vez" pelos irmãos Coen.

Diante da dureza de "The Road", outro filme em competição aparentemente menos duro, mas com um cenário aterrorizante, foi exibido hoje em Veneza.

"Life During the Wartime" é o mais recente trabalho de Todd Solondz. Crítica, ironia, hipocrisia, ódio, amor, necessidade e também solidão são alguns dos elementos que aparecem e desaparecem pelo filme - o primeira a receber aplausos em Veneza -, que é uma paródia ácida da sociedade atual, especialmente da americana.

Através de três irmãs - Allison Janney, Shirley Henderson e Ally Sheedy - o diretor coloca uma retrato sem contemplações que mostra o absurdo de ver nos outros os defeitos que não vemos em nós mesmos.

Também mostra como cada personagem acredita ter o poder absoluto da verdade e como cada um deles está tão sozinho e perdido como as pessoas que os cercam.

Janney é uma mulher separada do marido, que está na prisão por pedofilia, que tenta desesperadamente buscar um novo companheiro, perante o olhar atônito do filho de 12 anos; Henderson trabalha com a reabilitação de assassinos e estupradores - e é casada com um deles - e Sheedy é uma artista em plena crise existencial.

Três histórias que se cruzam e que são contadas a partir da ironia de situar a ação na ensolarada Flórida, o paraíso dos aposentados americanos, e com um estilo narrativo bastante simples e direto.

Divertidos e acertados diálogos e excelentes interpretações, entre elas a do filho de uma das protagonistas, Dylan Riley Snyder, permitem ao diretor fazer uma crítica feroz e ao mesmo tempo divertida.

Dois filmes muito diferentes, mas que deixaram boas vibrações nesta primeira parte do Festival de Veneza. EFE agf/an

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