Sob pressão, André Fernandes recua e diz que não contou tudo que sabia

BRASÍLIA - A pressão dos parlamentares governistas no depoimento do assessor André Fernandes, na CPI mista dos Cartões Corporativos, deixou no ar contradições do depoente. Questionado duramente sobre o porquê de ter recebido um dossiê de um membro do governo num momento em que a amizade estaria supostamente abalada, Fernandes deu explicações evasivas e pediu uma sessão secreta para contar ¿cinco fatos sigilosos¿ que não constam de seu depoimento na Polícia Federal (PF).

Severino Motta e Rodrigo Ledo, do Santafé Idéias |

Até o momento da pressão, a estratégia de André Fernandes era sustentar que havia recebido do ex-secretário de Controle Interno da Casa Civil José Aparecido Pires, sem nenhum pedido anterior, um e-mail com o dossiê preparado no Palácio do Planalto sobre gastos do governo Fernando Henrique Cardoso. Além disso, Fernandes afirmou que havia interpretado como intimidação o e-mail.

Ele narrou um almoço que teve em março no Clube Naval, em Brasília, com José Aparecido e mais duas pessoas, oportunidade em que Aparecido teria culpado Erenice Guerra , braço direito da ministra Dilma Rousseff, como responsável pela elaboração do dossiê.

Mas as perguntas incisivas dos integrantes governistas da CPI fizeram André Fernandes recuar, porque, entre outros motivos, nem o e-mail nem qualquer outra prova indica que tenha sido intimidação, mas apenas uma mensagem entre amigos. Os aliados do governo também ressaltaram que a amizade não podia estar tão abalada, conforme disse o assessor, porque eles trocavam e-mails, Fernandes tinha indicado a secretária de José Aparecido e não denunciou a ninguém sobre o suposto crime de intimidação após receber a mensagem eletrônica com o dossiê.

O deputado federal Silvio Costa, por exemplo, foi muito contundente ao perguntar se André Fernandes, um ex-petista, tinha raiva do governo por ter sido frustrado em pedido de emprego, e como podia se considerar inimigo de José Aparecido se tinha indicado sua prima para o cargo de secretária na Casa Civil. Fernandes disse que as relações não estavam mal a ponto de não fazer indicações mas tampouco estavam tranqüilas para não classificar o envio do dossiê como intimidação.

O depoimento de José Aparecido vai provar que o senhor está mentindo, atacou Silvio Costa.

Após esses questionamentos, o senador oposicionista Demóstenes Torres (DEM-GO) perguntou se André Fernandes teria algo mais a revelar, porque parecia que os parlamentares governistas tinham informações guardadas para constrangê-lo posteriormente. Nesse momento, Fernandes admitiu ter cinco segredos para contar.

Há cinco fatos que gostaria de narrar em questão sigilosa, para proteger a honra das pessoas. São afirmações que ele fez e que acho que os parlamentares devem saber, mas não em público. São coisas além do dossiê, afirmou o assessor parlamentar.  

A fala provocou uma celeuma na CPI. Esta é uma sessão pública. Não podemos aceitar uma reivindicação do depoente, fale numa sessão aberta, bradou Luiz Sérgio. A líder do PT no Senado, senadora Ideli Salvatti (SC), ressaltou que esses segredos configuram crime porque teriam sido omitidos do depoimento feito na Polícia Federal.

Os oposicionistas se dividiram, alguns dizendo que o depoente deveria ser respeitado em seu julgamento dos fatos e outros, como o líder do PSDB no Senado, senador Arthur Virgílio (AM), propondo que André fale tudo o que sabe.

Repercussão

Os governistas, que deram os 12 votos vencedores contra sete da oposição, impedindo a sessão secreta, aproveitaram para tripudiar.

A oposição sempre pautou a CPI dizendo que a base não queria investigar, ironizou o deputado Silvio Costa. A situação ficou meio inusitada, com a base do governo querendo depoimento aberto e a oposição querendo fechada, emendou a líder Ideli Salvatti.

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