"Só no olhar reconheço o desespero¿

Após lutar no Haiti e sobreviver a enchentes em sua casa, sargento do Exército ajuda vítimas das chuvas em Minas Gerais

Denise Motta, iG Minas Gerais |

Aos 23 anos, o cabo Cássio Batista, do Batalhão do Exército em Itajubá (sul de Minas Gerais), já tem muita história de vida. Em 2010, ele serviu em missão no Haiti por seis meses. Exatamente um ano depois do desembarque em Porto Príncipe, agora ele trabalha pela recuperação de cidades devastadas pelas enchentes no sul de Minas, especialmente Alagoa.

Arrasada, a cidade distante 425 quilômetros de Belo Horizonte possui 2.800 habitantes. “As situações no Haiti e em Alagoa tem algumas semelhanças. Lá no Haiti morreu muita gente, mas aqui não deixa de ser um sofrimento grande. Como no Haiti, aqui as pessoas pedem ajuda. Nos dois lugares a gente tem que acalmar as pessoas e dizer: o possível está sendo feito”, resume.

nullNo Haiti não havia como ajudar a todos em apenas um dia, lembra o cabo. A cena mais marcante foi em Porto Príncipe, capital do país, na chegada de um carregamento de mantimentos em carreta do governo haitiano. Famintos, os sobreviventes do terremoto avançaram no veículo e saquearam a carga. “O motorista desceu assustado e a roda do caminhão passou em cima de uma criança. Lembro-me muito bem que ela morreu com uma latinha em uma mão e algum tipo de comida na outra”, conta.

Também do Haiti (2007) para Alagoa, o sargento Anselmo Barbosa Bastos, 46 anos, é vítima das chuvas. Além de viver os percalços do trabalho na América Central, o sargento viveu o drama de quem tem a própria casa alagada pelas chuvas. No ano 2000, em Itajubá, outra cidade do sul de Minas, ele perdeu tudo por causa de enchentes. “A chuva subia muito rápido, a velocidade da água é muito grande. As pessoas diziam: tá subindo, tá subindo com muita velocidade”, relembra.

Antes de ser uma vítima das chuvas, o sargento Anselmo trabalhou na ajuda aos prejudicados por elas, em 1991. Agora, ele diz, a situação é diferente. “Eu olho para a pessoa afetada pela chuva e vejo o que eu já passei. Tenho empatia. Só no olhar reconheço o desespero”, confessa.

iG acompanha Exército

A reportagem do IG acompanhou uma viagem do Exército para distribuir mantimentos e roupas aos atingidos pelas enchentes em Alagoa, saindo de Aiuruoca. O caminhão, apelidado de “Cinco Tom” pelos militares (pela capacidade suportada de carga, de cinco toneladas), demorou uma hora e quarenta e cinco minutos para percorrer um trecho de aproximadamente 30 quilômetros.

A estrada de terra está extremamente precária, com dezenas de pontos com deslizamentos de encostas, além de trechos altos com parte do piso barrento desmoronado e pontes de madeira muito estreitas. No retorno, até mesmo o “Cinco Ton” atolou e precisou da ajuda de um trator da prefeitura de Aiuruoca para seguir seu rumo. Mesmo com o perigo, muitos moradores transitam pela estrada enlameada, especialmente motociclistas. Só na quarta (19), os militares fizeram o percurso Aiuroca-Alagoa-Aiuroca duas vezes, para levar mantimentos.

Ao todo, 16 homens do 4º Batalhão de Engenharia de Combate de Itajubá trabalham em missão na pequena Alagoa, equipados com três caminhões-caçamba, um caminhão de transporte de pessoal e de mantimentos (O “Cinco Ton”), um trator e uma retroescavadeira. O Exército foi convocado depois de pedido formal do governador Antonio Anastasia (PSDB), na última sexta-feira (14). O tenente Pedro Porto Gonçalves, de 25 anos, estima que os trabalhos do Exército na cidade durem pelo menos mais 15 dias.

Prefeito estima prejuízo em R$ 20 milhões

“Bom! À noite tem mais comida”, alegra-se o garoto Felipe da Silva Siqueira, de 8 anos, ao avistar o já famoso “Cinco Ton” estacionar em frente à escola Estadual Porfírio Mendes Pinto, hoje funcionando como ponto de recebimento de doações. Felipe conta que, na noite da enchente, no último dia 12, foi “uma correria”. “Entrou água na minha casa. Foi uma correria. Teve que carregar quem pudesse no colo ou nas costas. A porta emperrou, o sofá e roupas sujaram de lama”.

A sujeira, contudo, é um dos problemas mais simples de resolver. A cidad está com 13 pontes destruídas, 100 famílias afetadas e outras 40 ainda isoladas. O estrago em Alagoa, causado pelas cheias dos rios Aiuruoca e Ribeirão Vermelho, está estimado em R$ 20 milhões, informou o prefeito Sebastião Mendes Pinto Neto (PSDB). Comunidades como o bairro Quilombo, a 10 quilômetros do centro da cidade, até hoje estão ilhadas. A Defesa Civil que trabalha em Alagoa, o prefeito e o Exército não souberam informar a quantidade de mantimentos enviados à cidade.

 As cestas básicas distribuídas possuem dois quilos de arroz, um quilo de feijão, um pacote de macarrão, dois quilos de açúcar, leite em pó, óleo de cozinha e um pacote de farinha. Elas são levadas aos moradores pela prefeitura, em kombis. Na escola, há um bom estoque de água e cestas básicas, além de uma sala cheia de roupas. Depois de separadas, serão distribuídas. Mas ainda faltam itens de primeira necessidade.

“Os mantimentos são doações de cidades vizinhas e a prefeitura faz a distribuição. Temos poucos produtos de higiene pessoal, como escova e pasta de dente, e também pouca roupa de cama. Estamos com medo, pois faltam produtos em supermercados, além do gás de cozinha”, destaca a voluntária Maria de Fátima Silva, 46 anos.

O Exército trabalha na retirada do cascalho da pista e restabeleceu na última segunda um acesso entre Aiuruoca e Alagoa, interditado por três dias. Antes, os mantimentos foram levados por helicópteros do governo de Minas. Itamonte é a outra cidade que dá acesso a Alagoa, mas a estrada está intransitável e interditada. Na última quarta-feira, helicópteros da Cemig, empresa de energia elétrica do Estado, estiveram em Alagoa para trabalhar na recuperação da rede de telefonia celular, já que três postes caíram e atualmente a comunicação se dá por meio de um gerador.

Veja abaixo como foi a operação do Exército:

13h30 – Militares iniciam o carregamento do caminhão “Cinco Ton” com mantimentos.

14h34 – Preparados, os militares partem da escola estadual Maria José Ematne, em Aiuruoca, onde estão alojados, rumo a Alagoa.

15h05 – “Cinco Ton” passa por uma ponte estreita seguida de um trecho de atoleiro

15h19 – Dois carros na estrada apresentam problemas mecânicos.

16h01 – A ponte da entrada da cidade de Alagoa foi destruída pelas enchentes e uma nova ponte, de madeira, foi construída ao lado da antiga.

16h15 – Depois de passar por casas da zona rual, onde moradores ainda tentam salvar móveis e limpam a lama dentro das casas, o Exército chega em Alagoa.

16h55 – Retorno a Aiuruoca.

17h47 – “Cinco Ton” desliza sobre a terra fofa molhada por chuva recente.

18h – “Cinco Ton” atola na lama e é resgatado por um trator da prefeitura de Aiuruoca.

18h11 – Chegada ao alojamento na escola estadual.

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