Só Deus sabe o que meu filho passou

Família de jovem que se diz vítima de abusos é abalada após repercussão do caso envolvendo párocos no agreste alagoano

Matheus Pichonelli, enviado a Arapiraca |

Pelo interfone, uma voz pede para o visitante se identificar. Pouco mais de um minuto depois, o portão se abre. Pai, mãe, irmão e suposta vítima se apresentam. O clima é tenso. O pai, sem camisa, rosto de quem passou a noite em claro, leva na boca um palito de dente, que morde e mastiga, e, na mão, um cigarro aceso. O filho fica quieto, só observando o pai dizer que, "neste momento, não vamos falar mais nada, não".

Sob olhares dos pais, o jovem Anderson Silva diz apenas que agora está bem e que pretende voltar a estudar em breve. Pretende cursar faculdade e estudar Direito. Assim como os colegas, Fabiano Ferreira e Cícero Flávio, que também dizem ter sofrido abusos, o ex-coroinha se queixa de não poder circular pela cidade sem ser alvo de comentários e brincadeiras. Mesmo assim, diz não se arrepender de ter feito a denúncia.

O pai interrompe: "só te digo uma coisa. Eu tenho a consciência limpa. Quem fez vai ter que pagar. O monsenhor sempre frequentou nossa casa. Eu corria para comprar a melhor carne quando ele vinha, e nunca deixei faltar nada, não", diz o pai. "É muito fácil dizer que só agora resolvemos falar, só agora que eles são grandes. Mas só Deus sabe o que ele passou até decidir contar tudo", defende a mãe.

Para ela,  o filho "foi é muito homem" ao aceitar falar a verdade e se expor. "Ele estava morto. Meu filho estava morto e agora voltou a viver. Começou a viver agora, depois que teve coragem de falar". Ela diz que não acreditava nas histórias envolvendo o filho e párocos de Arapiraca, e que quando percebeu que as acusações tinham fundamento, em meados de novembro do ano passado, a vida da família foi abalada.

"Eu fui até a casa do monsenhor Raimundo [Gomes] e disse tudo a ele, fiz um escândalo. Ele me colocou para fora, relata ela, que, assim com os demais integrantes da família, dizem não ter perdido a fé em Deus ou na igreja". Em entrevista ao iG, o monsenhor Raimundo negou as acusações e disse ter sido vítima de chantagem e extorsão.

O pai, que trabalha como ambulante em Arapiraca, afirma ter agora ligação "direta com o Pai" e que não deixou de participar das celebrações religiosas. Afirma também não ter intenção de deixar a cidade em razão do medo de possível represália. "Aqui é a melhor cidade do mundo. Vou morrer aqui".

Após a conversa, familiares contaram que os pais do jovem estavam se separando por causa das constantes brigas ocorridas depois que o escândalo veio à tona. Isso porque o pai, mesmo após ter conhecimento das suspeitas, não queria que o filho ficasse exposto, e brigava para que a família mantivesse silêncio. Já a mãe, conta um primo, queria deixar a história a limpo, bateu de frente com o marido e foi em frente com a história.

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