Só 994 municípios do País têm coleta seletiva, aponta IBGE

Sul e Sudeste são as regiões que mais reciclam lixo. Norte e Nordeste ainda adotam lixões

Maria Fernanda Ziegler, iG São Paulo |

Conceição Perrella não consegue que seu lixo seja reciclado. A síndica de um prédio na zona oeste de São Paulo está há um ano procurando pelo serviço. “A gente telefona para todo mundo e é a mesma coisa que nada”, reclama. Conceição administra um prédio com 48 apartamentos que deixou de reciclar o lixo um ano atrás. Uma cooperativa atendia o prédio até o ano passado, mas abandonou o serviço por não dar conta de tanto entulho.

De acordo com a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, divulgada nesta sexta-feira (20) pelo IBGE, dos 5.564 municípios do País, só 994 têm coleta seletiva, sendo que 536 deles contam com a participação das chamadas cooperativas. São Paulo é uma destas cidades, mas como constatou Conceição, o serviço é ineficiente para tanta demanda.

É o que diz o catador Walison Borges, que trabalha há sete anos em uma cooperativa que atende o bairro de Pinheiros, em São Paulo. Todos os meses ele e os outros 27 catadores coletam cerca de 80 toneladas de lata, ferro, plástico, papel e papelão. O material é prensado e vendido. “É uma região boa. A gente não dá conta de atender todo mundo”, disse. De acordo com dados do Cempre (Compromisso Empresarial para a reciclagem), a tonelada de papelão em São Paulo custa em torno de R$ 380 e a tonelada do papel branco, R$ 530.

No Sul e Sudeste, coleta seletiva está chegando

Os primeiros programas de coleta seletiva e reciclagem dos resíduos sólidos no Brasil começaram na década de 80. Segundo o estudo do IBGE, desde então, comunidades organizadas, indústrias, empresas e governos locais têm sido mobilizados e induzidos à separação e classificação dos resíduos nas suas fontes produtoras.

O avanço se deu principalmente nas regiões Sul e Sudeste, onde em 2008, 46% e 32,4%, dos municípios, respectivamente, informaram ter programas de coleta seletiva que cobriam todo o município. “A situação está avançando muito e deve ser impulsionada com a nova Política Nacional dos Resíduos Sólidos ”, disse André Vilhena, diretor do Cempre. Mas ele ainda aponta gargalos como o alto imposto sobre a reciclagem e a falta de participação da população.

Modelos de tratamento do lixo

O Brasil está caminhando para adotar o modelo americano de tratamento de lixo. É o que diz o professor de Engenharia Ambiental da Universidade do Estado de São Paulo (Unesp), Sandro Mancini. Nos Estados Unidos o conceito é construir grandes aterros sanitários afastados das cidades. Lá, embora haja reciclagem, ela não é suficiente, principalmente porque se produz muito lixo.

Mancini destaca que, no mundo, existem dois grandes modelos de gerenciamento na destinação dos resíduos: um europeu, que preza pelo conceito de aterro zero e foco na reciclagem; e outro americano, baseado na construção de aterros. “O lixo doméstico de Nova York é enviado para um aterro enorme a 600 km da cidade”, exemplifica.

Na Europa, países como Alemanha, Dinamarca e Holanda - os mais desenvolvidos neste assunto - proibiram o aterramento de lixos orgânicos. Desde 2005, na Alemanha, foi estabelecida por lei a obrigação de coleta separada. Os resíduos urbanos biodegradáveis têm de ser recolhidos e compostos separadamente. Madeiras não podem ser depositadas em aterro e as embalagens são recolhidas. A lei europeia ainda destaca, para todos os países do continente, a necessidade de redução de resíduos, com metas e prazos.

De acordo com o professor, há uma diferença abissal entre a discussão deste assunto no Brasil e nos países da Europa. “Aqui ainda estamos discutindo jogar o lixo no lixo e construindo aterros caríssimos”, diz. Mancini afirma que os aterros deverão continuar existindo na Europa e no mundo, mas cada vez menos.

O paradoxo aparece quando se comparam os números -- mesmo com a coleta seletiva restrita a poucos municípios, o Brasil é um dos campeões de reciclagem. De acordo com dados do Cempre (Compromisso Empresarial para a Reciclagem), o Brasil reciclou, em 2008, aproximadamente 91,5% da produção nacional de latas, enquanto o Japão recuperou 90,8%, a Argentina reciclou 87,3% e os Estados Unidos, 54,2%.

Em relação a garrafas PET, os Estados Unidos reciclaram 27%, a Europa, 46%, e o Brasil, 54,8%. O campeão é o Japão, com 69,2%. De acordo com Mancini, o sucesso brasileiro se dá pelo grande número de catadores que se formaram de maneira independente, tendo esta função como única maneira de sobrevivência à miséria.

No Norte e Nordeste, proliferação de lixões

Um dos maiores problemas no País se refere aos aterros sanitários. Os vazadouros a céu aberto, conhecidos como lixões, constituem o destino final dos resíduos sólidos em 50,8% dos municípios brasileiros. O lixão é uma área aberta onde os resíduos são despejados sem nenhum tipo de impermeabilização do solo, não atendem as normas de controle e estão proibidos no Brasil.

De acordo com os dados do IBGE, há uma desigualdade também em relação aos lixões. A pesquisa revelou que 89,3% dos municípios do Nordeste e 85,5% do Norte destinam seus resíduos sólidos para estes lixões, onde não ocorre nenhum tipo de tratamento. No Pará isto ocorre em 94,4% das cidades.

Na região Nordeste, os Estados mais atrasados neste sentido são Piauí (97,8%), Maranhão (96,3%) e Alagoas (96,1%).

No Sudeste (18,7%) e no Sul (15,8%) estes números são menos alarmantes. O destaque coube aos municípios do Estado de Santa Catarina, com 87,2% desses resíduos destinados a aterros sanitários e controlados. Entre os municípios dos Estados do Paraná e Rio Grande do Sul, 81,7% e 79,2%, respectivamente, têm tratamento de lixo.

Em São Paulo, 7,6% dos municípios destinam seus resíduos aos lixões. Já no Rio de Janeiro, 33% dos municípios enviam seus lixos para os vazadouros a céu aberto.

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