Sexualidade nas adolescentes com epilepsia

Sexualidade nas adolescentes com epilepsia Por Kette Valente* Nas mulheres, sabe-se que a síndrome epiléptica, a freqüência de crises e as drogas anti-epilépticas podem influenciar na capacidade reprodutora. Nelas são maiores os índices de infertilidade, os ciclos anovulatórios, os abortos espontâneos, além de haver incidência duas vezes maior de malformações fetais e diminuição da libido.

Agência Estado |

Muitos fatores têm sido relacionados a estas alterações, tais como duração e gravidade da epilepsia, tipo de droga anti-epiléptica usada e localização da lesão epileptogênica.

Na adolescente com epilepsia, o conhecimento da sexualidade é, na sua maior parte, extrapolado do conhecimento dos efeitos dessa doença na mulher, descritos na fase adulta. Portanto, concebe-se que a adolescente apresente uma redução da libido se comparada a adolescentes da mesma idade, como observada na mulher com epilepsia.

No entanto, alguns estudos mostraram que os adolescentes com doenças crônicas têm vida sexual ativa. Em um dos maiores estudos populacionais, realizado por Suris et al, em Minnesota (1986 a 1987), com 36.284 adolescentes, categorizados em três grupos (doenças crônicas visíveis, não-visíveis e controles), verificou-se que não houve diferença na idade da primeira relação sexual, na freqüência de atividade sexual, no uso de contracepção e na história de gravidez. Outra constatação foi a de que adolescentes com doenças crônicas apresentavam, com maior freqüência, doenças sexualmente transmissíveis - dado este, estatisticamente significativo.

Em concordância, o estudo de Suris et al, realizado na França, por Choquet et al, em 1997, com 7936 adolescentes, demonstrou que pacientes com doenças crônicas não só apresentavam vida sexual ativa como esta era mais freqüente do que no grupo controle idade-pareado.

Por outro lado, Carroll et al, em 1983, relata que, apesar de adolescentes com doenças crônicas terem vida sexual ativa, não eram instruídos por seus médicos sobre opções de contracepção ou sexualidade, um dado inesperado, visto que estes jovens têm maior contato com profissionais da área de saúde do que pacientes saudáveis. Este achado justifica a freqüência maior de doenças sexualmente transmissíveis neste grupo de pacientes (Suris et al ,1996).

Na revisão de Neinstein (2001) observou-se que, por desconhecimento, os profissionais de saúde freqüentemente negligenciam a sexualidade e a capacidade reprodutora dos jovens com doença crônica, muitas vezes por não estarem preparados para esta tarefa, assumindo que esta não é uma preocupação desta faixa etária. Assim sendo, o adolescente com doença crônica está exposto à mesma série de comportamentos que são inerentes a esta fase da vida, e que caracterizam, em sua maior parte, a transição da infância para a vida adulta (Jessor, 1991).

Um estudo pioneiro com o objetivo de avaliar aspectos relacionados à sexualidade, ao aconselhamento recebido e à fertilidade em adolescentes do sexo feminino com epilepsia foi desenvolvido no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, pelas Dras. Silvia de Vincentiis e Kette Dualibi Valente. Este estudo demonstrou que, ao contrário do que foi anteriormente observado e estudado em mulheres com epilepsia, as adolescentes com epilepsia apresentam comportamento sexual similar ao observado em jovens sem doenças crônicas. Este dado não teve relação com a gravidade da sua doença. O mesmo estudo demonstrou também que as adolescentes com epilepsia não recebem aconselhamento adequado, apresentando freqüência de gestação superior às adolescentes da mesma idade.

A falta de aconselhamento provavelmente está ligada a múltiplos fatores, dentre eles a falta de preparo dos profissionais da área de saúde para lidar com a sexualidade de suas pacientes. Conseqüentemente, a adolescente com epilepsia em uso de medicações antiepilépticas experimenta várias conseqüências do exercício não orientado da sua sexualidade, dentre elas, uma gestação não planejada, com risco de teratogenicidade e piora das crises epilépticas.

Portanto, nas adolescentes com epilepsia é mandatório o aconselhamento com orientação dirigida para essa faixa etária. A orientação adequada e individualizada a essas pacientes abrange aspectos relacionados à terapêutica, exercício da sexualidade (contracepção e proteção contra doenças sexualmente transmissíveis), gravidez, parto e prevenção de teratogenia.

*Dra.Kette Valente - médica neuropediatra, coordenadora do Laboratório de Neurofisiologia do Hospital São Luiz.

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