Sexo, respeito e diversidade

Sexo, respeito e diversidade Por Ciça Vallerio São Paulo, 29 (AE) - Com 30 anos de experiência em psicologia da sexualidade, o professor da Universidade de Salamanca, na Espanha, Félix López Sánchez, coordenou duas teses de doutorado sobre homossexualidade. Mas foi a partir da convivência com a dificuldade das pessoas de lidarem com o tema, considerado ainda polêmico, que escreveu o livro Homossexualidade e Família - Novas Estruturas, que chega traduzido ao Brasil pela Editora Artmed (R$ 38,00).

Agência Estado |

A intenção do autor é ajudar as famílias a aceitarem os filhos e filhas homossexuais, assim como auxiliar os próprios homossexuais, para que também se aceitem e saibam que podem ter suas famílias e filhos. Embora seja heterossexual, o seu envolvimento com esse assunto é tamanho que Félix, de 64 anos, foi nomeado presidente de honra da associação dos homossexuais de Salamanca.

"É importante que a orientação diferente do desejo e dos afetos não nos afaste, o bonito é a diversidade", diz o autor. A sua formação acadêmica, com especialização no Canadá, não transformou o conteúdo de seu livro em algo teórico. Pelo contrário, Félix fala sobre homossexualidade de maneira simples, direta e muito prática.

Foi com entusiasmo que ele respondeu às perguntas desta entrevista por email. E não deixou de comentar sobre o quanto ficou encantado pelo País e pelo povo brasileiro, quando esteve em São Paulo anos atrás. "Vocês têm outras tradições e isso os fazem cheios de vitalidade", afirma. "As pessoas daí são abertas, confiáveis, acolhedoras e carinhosas."

Apesar da maior liberalidade social, por que existe ainda tanta dificuldade para assumir a sexualidade, especialmente na família?

FÉLIX LÓPEZ SÁNCHEZ - Porque nos apoiamos sobre uma tradição, a judeu-cristã, na qual a sexualidade é vista como perigosa, um impulso a controlar e reprimir.

Qual seria a origem do medo irracional da homossexualidade?

FÉLIX LÓPEZ SÁNCHEZ - Acredito que religiosos e religiosas sempre viram a homossexualidade como uma ameaça, pois homens e mulheres eram separados para evitar a tentação sexual. É provável que esta seja uma das causas para as igrejas temerem tanto a homossexualidade. Outra possível origem refere-se à confusão que se faz entre sexualidade humana e procriação, considerando-se a homossexualidade como um desvio, por não estar direcionada à procriação.

Por que mitos sobre homossexualidade ainda permanecem na sociedade?

FÉLIX LÓPEZ SÁNCHEZ - Como existe ainda muita ignorância sobre a questão, muitos acabam recorrendo aos mitos e crenças religiosas infundadas. O mais grave é que uma parte importante da sociedade e algumas instituições poderosas, como as igrejas cristãs, consideram que a homossexualidade é uma doença ou um desvio. Esse é o principal problema.

Em qual idade a homossexualidade começa a ser percebida pela pessoa?

FÉLIX LÓPEZ SÁNCHEZ - Podem surgir manifestações na primeira infância, mas não necessariamente. O mais comum é que a orientação do desejo se consolide na adolescência. Há casos, porém, em que aparece depois. Existem também pessoas cuja orientação do desejo parece mudar ao longo da vida adulta, especialmente as mulheres, mais flexíveis com relação a esse tema, assim como em outros.

Pensar em suicídio é comum durante o período de conflitos que envolvem a descoberta da homossexualidade?

FÉLIX LÓPEZ SÁNCHEZ - Mais que comum, eu diria que se dá com certa frequência, mas a causa não é a homossexualidade. A causa está no fato de as pessoas serem socializadas como heterossexuais e, ao descobrirem a homossexualidade, se sentem raras, deslocadas, em conflito. Por isso o correto seria expor, se me permite, a pergunta deste modo: a falta de aceitação familiar, escolar e social dos homossexuais pode levar algumas dessas pessoas a pensar em suicídio? E a resposta seria sim. A homofobia é a responsável por fazer com que algumas pessoas pensem em tirar suas vidas.

Como a dificuldade de se aceitar como homossexual e a rejeição familiar refletem na vida de alguém?

FÉLIX LÓPEZ SÁNCHEZ - Os reflexos disso podem ser muito graves, de acordo com o grau de repúdio e a vulnerabilidade da pessoa homossexual. E a lista é bem grande. Numa ocasião em que eu falava com um grupo da terceira idade sobre esse tema, um senhor de 80 anos se levantou para contar que, quando fazia o serviço militar em Madri, um soldado homossexual foi tão pressionado e dificultaram tanto a sua vida que ele se atirou nos trilhos do metrô para se matar.

Como a família deveria agir ao receber a notícia sobre a homossexualidade do(a) filho(a)?

FÉLIX LÓPEZ SÁNCHEZ - O ideal seria que as famílias aceitassem com naturalidade. Ou, pelo menos, que reagissem bem depois da surpresa ou sofrimento inicial. Hoje em dia, na Espanha, a maioria dos pais reage inicialmente com surpresa e sofrimento, mas depois acaba aceitando bem seus filhos e filhas homossexuais. Este é o desafio para o futuro.

Está crescendo o número de famílias homoparentais. A negação desse novo tipo de família, formada por casais homossexuais, pode gerar problemas?

FÉLIX LÓPEZ SÁNCHEZ - Por causa da dificuldade de aceitação, esses casais acabam vivendo em alguma região da cidade, onde se sentem mais respeitados. Daí surgem os guetos, como resultado da homofobia.

Entre os dois gêneros de homossexuais, qual sofre ou sente mais dificuldade para assumir sua condição? O que os diferenciam?

FÉLIX LÓPEZ SÁNCHEZ - As diferenças são muito parecidas das que existem entre homens e mulheres. É mais provável, por exemplo, que os homens recorram à pornografia, paguem por sexo, sejam agressores sexuais, etc. As lésbicas, assim como as mulheres heterossexuais, tendem a ter menos companheiras. Mas essas particularidades se devem também à diferente socialização das mulheres e dos homens.

A bissexualidade é mais comum do que se imagina? E por que os bissexuais são alvo de desprezo duplo, tanto de heterossexuais como de homossexuais?

FÉLIX LÓPEZ SÁNCHEZ - Não são raras as pessoas bissexuais. Essa orientação sexual pode se apresentar como real e estável, mas também como passageira, como uma transição ou, inclusive, como uma forma de rejeição à homossexualidade. A bifobia, que é a rejeição da bissexualidade, pode acontecer até entre homens homossexuais, por acreditarem que estabelecer uma relação afetiva e sexual com o sexo oposto seja deslealdade, covardia ou irresponsabilidade. Mas não há razão para isso. Essas pessoas deveriam ser aceitas como são, tanto pelos heterossexuais como pelos homossexuais.

O que dizer sobre grupos religiosos que se unem para boicotar ações sociais, como leis que punem a discriminação contra gays?

FÉLIX LÓPEZ SÁNCHEZ - Os crentes que usam Deus neste tema tomam o nome de Deus em vão, o que é muito grave. As coisas hoje estão mais claras: a orientação do desejo homossexual e bissexual é saudável, compatível com a saúde pessoal e social. Pode-se dizer que aceitar essa orientação é, para algumas pessoas (os homossexuais e bissexuais), uma condição necessária à sua saúde emocional e afetiva. Parece-me um grande delito não conceder às pessoas o direito de viver sua vida na diversidade.

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