Sexo com o coração

Sexo com o coração Por Giuliana Reginatto São Paulo, 06 (AE) - Sexo bom depende do coração, sim. E a relação nada tem de romântica.

Agência Estado |

Problemas na ereção podem indicar que a saúde cardiovascular inspira cuidados. O centro das emoções, no peito, e o ícone da virilidade, na genitália, enfrentam os mesmos inimigos - hipertensão, diabete, colesterol elevado, angina e tabagismo.

Essa conexão de risco entre a parte erógena do homem e o todo corporal traduz um novo modo de perceber sua sexualidade: menos restrita ao pênis e mais ligada às condições gerais de saúde, como demonstram estudos apresentados no 24º Congresso Europeu de Urologia (EAU), realizado no início do mês em Estocolmo (Suécia).

A vida sexual masculina, percebida para além dos limites do pênis , ultrapassa também os contornos do próprio homem para chegar ao mundo feminino. É o que comprova a pesquisa inédita sobre a duração da ereção em homens com disfunção erétil (DE) apresentada no EAU pelo médico Matt Rosenberg, diretor do Centro de Saúde de Michigan. (EUA). Batizado de Endurance e baseado nos efeitos do Levitra, remédio contra DE comercializado no País pela Bayer Schering, o estudo ressalta a postura solidária do homem na cama - menos machista, não menos masculino.

Mais do que garantir a própria satisfação sexual, os machos modernos estão preocupados com o prazer da mulher: 93% deles, segundo a pesquisa, acreditam que a duração da ereção também é importante para a parceira, que necessita de um tempo até duas vezes maior para atingir o orgasmo. "Parece senso comum a necessidade de várias horas para a satisfação sexual, mas um recente estudo com terapeutas sexuais no Canadá revelou que a ereção é satisfatória para os casais quando dura de 7 a 13 minutos", diz Rosenberg. Entre homens com DE, porém, a ereção pode durar segundos.

Participaram do Endurance 201 homens com DE, avaliados por quatro semanas. Eles foram divididos aleatoriamente em dois grupos: um recebeu Levitra 10 mg ; outro foi tratado com placebo. Todos apresentavam alguma patologia associada à DE - sendo 32% hipertensos, 7% diabéticos e 24% com quadro de dislipidemia (alta taxa de lipídeos, sobretudo colesterol). "Concluímos que Levitra prolonga de duas a três vezes o tempo de ereção se comparado ao placebo", diz Rosenberg.

O tempo médio de ereção entre os voluntários que tomaram placebo foi de 5,45 minutos, ao passo que entre os tratados com Levitra a duração ficou em 12,81. "Usuários de placebo não chegaram ao mínimo da faixa normal, estimada em sete minutos", relata o médico. "A duração da ereção é um parâmetro inovador para a vida sexual para os casais, trazendo benefícios emocionais para o paciente de DE."

Especialista em urologia e disfunção sexual pela Universidade de Boston e mestre em Urologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Eduardo Bertero também acompanhou a discussão na Suécia. Questionado sobre os resultados do Endurance, argumenta que o tempo de duração da ereção como medida de sucesso do ato sexual funciona como elo emocional para o casal. "Na medida em que o homem consegue permanecer mais tempo na parceira, aumentando o tempo do intercurso sexual, há ganho de intimidade e afetividade", diz. "Dar ao homem com DE esse padrão satisfatório é importante porque muitos têm uma visão fantasiosa do assunto. Assistem ao filme erótico em que o ator passa duas horas fazendo sexo e começam a se comparar. Aquele homem é um ator pornô não por acaso. O ator, na verdade, é o pênis dele."

PRAZER EM PÍLULAS
Bertero lembra que o estudo com o Levitra (vardenafil), é o primeiro a cronometrar o tempo da ereção e a considerá-lo como fator de satisfação do casal. Há, contudo, várias pílulas contra disfunção erétil no mercado - cada qual com sua especificidade. Elas apresentam sutis diferenças moleculares, mas a maioria age como um inibidor da fosfodiesterase tipo 5 (PDE-5), enzima que degrada os compostos responsáveis pelo relaxamento da musculatura do pênis e pela dilatação de seus vasos, permitindo que seja preenchido por sangue. É o sangue represado que leva à ereção, o que justifica a importância do sistema vascular na vida sexual. "Esses medicamentos são similares. Há diferenças entre os modos de ação, não em eficácia. É difícil um paciente que já não tenha experimentado todos", diz o urologista Geraldo Faria, presidente da Sociedade Latino-americana de Medicina Sexual.

Faria, que também participou do EAU, explica que a escolha do medicamento varia segundo o perfil do homem. O Ciallis (tadalafil), da Lilly, é destaque para quem procura ação prolongada. O remédio promete um efeito de 36 horas: não é à toa que ficou conhecido como pílula do fim de semana. "Se pensarmos em um homem que está separado, começa a conhecer pessoas, e não tem certeza se fará sexo naquela noite, a ação prolongada pode ser interessante, pois amplia a janela de oportunidades."

A mesma ação prolongada do Ciallis pode, segundo Faria, se transformar em desvantagem no caso de pacientes com risco aumentado de ter angina. "Episódios de angina são tratados com remédios à base de nitratos, cuja interação com as pílulas para DE é absolutamente contraindicada. Quanto maior o tempo de ação do remédio, mais tempo o paciente ficará exposto ao risco de ter uma angina sem poder usar os nitratos ."

À exceção do Ciallis, os demais remédios atuam no organismo de seis a oito horas. Entre eles está o Viagra (sildenafil), da Pfizer, o mais popular no Brasil. "O Viagra teve o mérito de começar a discutir a saúde masculina de forma profissional. Podemos dizer que esses medicamentos equivalem à pílula anticoncepcional da mulher em termos de liberdade sexual", diz Faria. No mercado brasileiro há 11 anos, o Viagra tem a vantagem de já ter passado pelo organismo de muita gente, o que aumenta seu índice de segurança. Cerca de 15% dos pacientes, porém,não respondem aos tratamentos por via oral - sobretudo nos casos graves de diabete.

A competição entre as pílulas do prazer masculino passa pela estratégia comercial. O Levitra, por exemplo, é vendido unitariamente, o que torna seu preço mais acessível. A chegada às prateleiras em 2008 do nacional Helleva (lodenafil), da Cristália, ampliou a discussão sobre o lado financeiro da questão. O laboratório informou que a meta para 2009 é "deixá-lo cerca de 55% mais barato que seus concorrentes e atender a uma população que não tem acesso". Em média, cada pílula para DE custa R$ 30, sendo que a maioria é vendida em duas ou quatro drágeas.

Mais que definir qual medicamento é indicado para cada caso de DE, é importante, segundo Faria, frisar que o desempenho sexual está estritamente relacionado com o estilo de vida. "O homem, às vezes, esquece que o pênis faz parte de seu corpo. Alguns acham que podem envelhecer, fumar, ter diabete e hipertensão e, mesmo assim, continuar a ter boa vida sexual. Digo a eles: ‘não exija do pênis o que não consegue fazer com as pernas’", analisa.

AMIGO DO PEITO
Um outro estudo sobre o Levitra, aplicado a 395 pacientes com dislipidemia, também enfatiza sua propriedade de prolongar a ereção: no grupo tratado com placebo a média ficou em 3,38 minutos, chegando a 10 naquele que recebeu Levitra. Entre esses homens 61% apresentavam hipertensão e 51% eram obesos. A prevalência dessas doenças metabólicas em homens com DE não é fortuita, como avaliou o estudo apresentado no EAU pelo professor Michael Zitzmann, do Centro de Medicina Reprodutiva da Universitätsklinikum Münster (na Alemanha).

Segundo Zitzmann, uma circunferência abdominal superior a 94 cm representa um fator de risco para DE, visto que o nível de testosterona tende a ser mais baixo no obeso. O tecido adiposo também aceleraria a produção de fatores inflamatórios, entre eles a proteína C-reativa, relacionada ao aumento do risco cardiovascular. Para o pesquisador, há uma espécie de círculo vicioso entre síndrome metabólica, deficiência de testosterona e DE. "O paciente com DE é bem complexo. Nunca a ereção é o único fator do problema", analisa.

Coautor do livro "Disfunção Erétil como Marcador de Doença Cardiovascular", o cardiologista Carlos Serrano, do Instituto do Coração (InCor), ressalta a importância de uma visão holística sobre a saúde masculina. "É preciso haver intercâmbio entre urologista, cardiologista e clínico geral. Cuidar do coração é cuidar da saúde sexual também. Ter DE pode ser um alerta sobre a formação de placas, já que a artéria peniana, por ser mais fina do que as artérias do coração e do cérebro, tende a ser afetada primeiro. A DE pode antecipar a chances de acidente vascular cerebral (AVC) ou enfarte", lembra. Mulheres não dispõem de um alerta tão eficaz para antecipar essas doenças. O desempenho sexual masculino, portanto, é o melhor amigo do homem.

* A jornalista viajou a convite da Bayer Schering.

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