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Serra dá largada à pré-campanha e diz que pode mais

Por Natuza Nery e Maria Carolina Marcello BRASÍLIA (Reuters) - Seu pai carregou caixas de frutas para que, um dia, o pré-candidato do PSDB à Presidência pudesse carregar caixas de livros. Foi com essa frase que José Serra procurou humanizar a própria figura e se aproximar do eleitor. Fugiu do tom burocrático e, com isso, proferiu um longo discurso político.

Reuters |

Apesar dos anos no exílio, disse ter aprendido a fazer política no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco e Bahia. Não por acaso, Estados estratégicos e algumas das principais arenas das eleições deste ano.

No lançamento de sua pré-candidatura, realizada em Brasília, Serra fez críticas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nenhuma delas de forma agressiva, e rechaçou a tática plebiscitária do governo de promover em outubro o "nós contra eles".

Afirmou que o Brasil não surgiu em 2003, primeiro ano do governo Lula. Apontou problemas em três alicerces sociais: segurança, saúde e educação. Reivindicou um crescimento maior da economia e ética na vida pública.

Falou do passado com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e repetiu incontáveis vezes que "O Brasil pode mais", o slogan de sua corrida à sucessão. Alfinetou sua adversária do PT, Dilma Rousseff, ao citar baixos investimentos em infraestrutura, em uma oculta menção ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Pode-se dizer que FHC foi vingado na cerimônia, o maior evento tucano nos lançamentos dos últimos oito anos. O ex-presidente esteve presente no placo durante todos os discursos, numa espécie de defesa (há algum tempo inexistente) a seu legado. Ele chegou a chorar quando o pré-candidato lembrou de sua falecida mulher, Ruth Cardoso.

"(As conquistas do país) não foram conquistas de um só homem ou de um só governo, muito menos de um partido só", disse Serra.

Em sua fala, Serra, à frente nas pesquisas de intenção de voto, optou por um diagnóstico do Brasil, não por um discurso "companheiro". Não desfilou números, mas também não empolgou a plateia como se esperava. Foi Aécio Neves (MG) quem inflamou os cerca de quatro mil convidados ao sinalizar que pode, ainda, ocupar a chapa ao lado do correligionário. "Vice! Vice!", bradava a militância.

Minas é o segundo maior colégio eleitoral do país, portanto crucial em uma eleição que já se pronuncia disputada. Uma omissão do mineiro --que pleiteava a indicação do partido até dezembro-- poderia significar a derrota nas urnas.

"A partir de Minas Gerais, das montanhas de Minas, (estou) a seu lado ou onde seja convocado", afirmou Aécio.

"Ganhar a eleição em Minas Gerais é fundamental para nós", admitiu o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE).

José Serra parte oficialmente para o escrutínio deste ano renegando o que Lula tenta emplacar.

"Não aceito o raciocínio do nós contra eles... Lutamos pela união dos brasileiros e não pela sua divisão", afirmou. "Quanto mais mentiras os adversários disserem sobre nós, mais verdades diremos sobre eles."

Ainda provocou os adversários ao afirmar que "o Brasil não tem dono".

No mesmo horário do lançamento tucano, Lula e Dilma discursavam no ABC paulista, berço político do presidente. Lula ironizou o slogan de Serra ao afirmar que "quando eles falam o Brasil pode mais, nós falamos: 'nós fazemos mais, nós fazemos muito mais'".

ALIADOS E INFIÉIS

Outros três partidos, PTB, PMN e PSC --todos integrantes da base de apoio ao governo federal-- marcaram presença na festa tucana. Somente os presidentes das três legendas que já integram a coligação oposicionista --PSDB, DEM e PPS-- fizeram discursos.

Pivô do escândalo do mensalão, o deputado cassado Roberto Jefferson (PTB-RJ) foi tratado como convidado de honra. Ele prometeu levar a sigla que preside para a coligação oficial de Serra. Pregou alternância de poder e o fim "do ciclo petista de governo".

"Temos maioria na convenção, mas não quero fraturar um partido, que é pequeno. Não quero enfrentar uma crise de ódios", disse Jefferson à Reuters, citando nominalmente os senadores Gim Argello (DF), Fernando Collor de Mello (AL) e o deputado Jovair Arantes (GO), parlamentares que integram a coalizão governista e que apoiam Dilma Rousseff.

GUERRA DE BIOGRAFIAS

A estratégia de empreender nos próximos meses um combate de biografias foi exaustivamente demarcada neste sábado. Nenhum pensador da campanha esconde que a comparação de currículos e trajetórias políticas serão centrais daqui para frente. Dilma nunca enfrentou uma eleição, sempre ocupou cargos técnicos.

"Não dá para comparar nosso candidato com ela. Sem subestimá-la, sem diminuí-la, efetivamente ela é improviso, ela é improvisação. Não tem conteúdo para ser presidente do Brasil, não tem competências", atacou Sérgio Guerra.

Outra tática evidente é o esforço de descolar o pré-candidato da imagem impopular da gestão FHC, da qual foi ministro em duas pastas, Planejamento e Saúde. Justamente por isso adotou o discurso do pós-Lula, na tentativa de conquistar a simpatia dos eleitores que aprovam a administração federal petista.

"Eleição é uma escolha sobre o futuro. Olhando para frente, sem picuinha, sem mesquinharia, eu me coloco diante do Brasil com minha biografia, com minha história política e esperança no nosso futuro", concluiu Serra.

Aos 68 anos, Serra concorre pela segunda à Presidência da República. Em 2002, perdeu para Lula. Sua candidatura ainda será chancelada pelas convenções dos partidos que o apoiam em junho. Deputado, senador, prefeito e governador, Serra parte para o que considerou uma caminhada "longa e difícil".

(Reportagem adicional de Fernando Exman e Bruno Peres; Edição de Carmen Munari)

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