Serra cede e triplica gasto com proposta a policiais

Apesar de resistir por quase dois meses às pressões da Polícia Civil, o governo de São Paulo acabou cedendo e mais do que triplicou o valor dos gastos com a proposta que inclui reajuste salarial, aposentadoria e outros benefícios à categoria. A primeira proposta do governo aos policiais implicava em um gasto anual de R$ 300 milhões aos cofres públicos.

Agência Estado |

Depois de muita batalha, que inclui o confronto armado na região do Palácio dos Bandeirantes, José Serra (PSDB) resolveu ampliar o gasto anual para R$ 830 milhões e afirmou que esta seria a oferta final. Contudo, ontem à noite, o executivo paulista apresentou nova proposta, elevando o custo anual para R$ 1,05 bilhão.

Sem entrar no mérito político que envolve a concessão, já que o governador é um dos principais nomes do PSDB para disputar a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2010 e o desgaste de uma greve desse porte acabaria respingando em suas aspirações, o líder do governo na Assembléia Legislativa de São Paulo, deputado Barros Munhoz (PSDB), disse que a decisão foi pessoal de Serra, porque ele entendeu que "essa era uma despesa que valia a pena ser feita".

Nos bastidores, contudo, as informações são de que o governador levou em conta o saldo negativo da manifestação dos policiais civis em greve ocorrida no dia 16 de outubro nos arredores do Palácio dos Bandeirantes, que culminou em um confronto com a Polícia Militar (PM). O episódio deixou 32 feridos.

Cinco dias depois, o governador enviou à Assembléia Legislativa cinco projetos de lei dispondo sobre a carreira e o salário da categoria, ao custo anual de R$ 830 milhões para os cofres do Estado e com, reajuste de 6,5% aos policiais civis, militares e técnico-científicos, ativos e inativos, extinção da 5ª classe e reestruturação das demais classes e aposentadoria especial.

As propostas não foram bem recebidas pela categoria e iniciou-se uma queda de braço da Assembléia. A bancada da oposição insistia em acrescentar emendas aos projetos, mas a base do governo não aceitava mudanças. Nos bastidores, comentava-se que o governo queria a aprovação dos projetos "intactos", sem a inclusão de nenhuma emenda. Fontes do executivo estadual disseram que o governo havia chegado a um limite e que não dispunha de mais recursos para a categoria.

Porém, a nova proposta de ontem representou um recuo de Serra na questão, apesar de seus aliados na Assembléia qualificarem a medida como um "avanço". Ele enviou três emendas à Casa, elevando o custo total para R$ 1,05 bilhão. São R$ 110 milhões relacionados à antecipação do reajuste de 6,5% de 1º de janeiro de 2009 para 1º de novembro de 2008, e mais R$ 120 milhões para adiantar o outro aumento de 6,5% de 1º de janeiro de 2010 para 1º de novembro de 2009.

'Inconformados'

Apesar da concessão, o gesto foi visto como "insignificante" pelos policiais civis, que decidiram não aceitar a contraproposta e manter a greve durante reunião de representantes da categoria com a oposição na Assembléia. "Nós estamos inconformados", disse o presidente do Sindicato dos Delegados, José Martins Leal.

O encontro entre a oposição e os policiais mostrou que o governo deve continuar a enfrentar dificuldades na Assembléia. "A bancada da oposição vai continuar obstruindo", afirmou o deputado Ênio Tatto (PT), líder da minoria na Assembléia Legislativa de São Paulo.

Foram convocadas para hoje duas reuniões conjuntas das Comissões de Finanças e Orçamento, Segurança Pública e Constituição e Justiça, mas foram suspensas por falta de quórum. Barros Munhoz informou que liberou a bancada, relatando que os ânimos na Casa andavam "exaltados".

"A gente precisa baixar a bola", avaliou Munhoz, acrescentando que não deve haver uma nova convocação das comissões, que devem retomar os trabalhos apenas na semana que vem. "Vamos deixar a poeira baixar." O governo pretende ganhar tempo e convencer a categoria de que essa foi a melhor proposta que poderia conceder, num momento em que o País já sofre reflexos da crise financeira global.

Recuo

A nova proposta feita ontem à noite pelo governo do Estado de adiantar o reajuste dos salários dos policiais civis e militares para novembro foi classificada como um "recuo" do governador José Serra pelo diretor da Associação dos Delegados do Estado de São Paulo (Adpesp), André Dahmer. "A disposição do governo em querer negociar, e nós sempre pedimos essa negociação", afirmou.

Dahmer sinalizou que os policiais civis também podem recuar em algumas de suas posições para resolver a questão da greve, que já dura 52 dias. "Se entendermos essa mudança de atitude do governo como uma sinalização de que ele quer negociar, talvez a gente tome algumas medidas no sentido de que eles possam avançar a negociação."

No entanto, o dirigente sindical fez questão de criticar o aumento de 6,5% proposto pelo governo, considerado pequeno para a categoria. "A contraproposta do governo continua sendo uma afronta para a polícia", alfinetou.

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