Senado aprova pensão para vítimas do césio-137 em Goiás

BRASÍLIA - Quase 20 anos após o acidente com césio-137 em Goiás, o Senado aprovou um projeto de lei que prevê o pagamento de pensão vitalícia de R$ 750 para cerca de três mil vítimas do incidente. A matéria segue agora para a Câmara dos Deputados, onde também deve ser aprovada antes da sanção presidencial.

Severino Motta - Último Segundo/Santafé Idéias |

De acordo com a senadora Lúcia Vânia (PSDB-GO), a pensão será paga com recursos do ministério da Ação Social, e será oferecida para os atingidos direta e indiretamente. Ela destacou que o valor será usado como ajuda de custo pelas famílias, principalmente em custos com o tratamento das conseqüências da contaminação.

O acidente radiológico de Goiânia foi um grave episódio de contaminação por radioatividade ocorrido no Brasil. A contaminação teve início em 13 de Setembro de 1987, quando um aparelho utilizado em radioterapias foi furtado das instalações de um hospital abandonado, na zona central de Goiânia.

A contaminação originou-se de uma cápsula que continha cloreto de césio. A cápsula radioativa era parte de um equipamento radioterapêutico, e, dentro deste, encontrava-se revestida por uma caixa protetora de aço e chumbo.

O aparelho foi levado a um ferro-velho para a venda das partes de metal e chumbo. Ao abrir o equipamento, o dono do ferro-velho expôs ao ambiente 19,26 g de cloreto de césio-137, um sal muito parecido com o sal de cozinha, mas que emite um brilho azulado quando em local desprovido de luz.

O proprietário teria ficado encantado com o pó que emitia um brilho azul no escuro. Ele mostrou a descoberta para a mulher, bem como o distribuiu para familiares e amigos. Pelo fato de esse sal ser higroscópico, ou seja, absorver a umidade do ar, ele facilmente adere à roupa, pele e utensílios, podendo contaminar os alimentos e o organismo internamente.

Tão logo expostas à presença do material radioativo, as pessoas em algumas horas começaram a desenvolver sintomas: náuseas, seguidas de tonturas, com vômitos e diarréias. Alarmados, os familiares dos contaminados foram inicialmente a drogarias procurar auxílio, alguns procuraram postos de saúde e foram encaminhados para hospitais.

Os profissionais de saúde, vendo os sintomas, pensaram tratar-se de algum tipo de doença contagiosa desconhecida, medicando os doentes em conformidade com os sintomas descritos. A esposa do dono do ferro velho, desconfiou que aquele pó que emitia um brilho azul era o responsável pelos sintomas que ocorriam na sua família.

Ela e um empregado do ferro-velho do marido levaram a cápsula de césio para a Vigilância Sanitária. Durante a entrevista com médicos, a esposa do dono do ferro velho relatou para a junta médica que os vômitos e diarréia se iniciaram depois que seu marido desmontou aquele "aparelho estranho". Só então, no dia 29 de setembro de 1987, foi dado o alerta de contaminação por material radioativo de milhares de pessoas.

A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) mandou examinar toda a população da região. Mais de 112 mil pessoas foram expostas aos efeitos do césio, muitas com contaminação corporal externa revertida a tempo. À época, porém, 49 foram internadas, sendo que 21 precisaram sofrer tratamento intensivo; destas, quatro não resistiram e acabaram morrendo.

Muitas casas foram esvaziadas, e limpadores a vácuo foram usados para remover a poeira antes das superfícies serem examinadas para detecção de radioatividade. Para uma melhor identificação, foi usada uma mistura de ácido e tintas azuis. Telhados foram limpos a vácuo, mas duas casas tiveram seus telhados removidos.

Até à atualidade, todos os contaminados ainda desenvolvem enfermidades relativas à contaminação radioativa.

Lixo atômico

A limpeza produziu 13,4 toneladas de lixo atômico, que necessitou ser acondicionado em 14 contêineres que foram totalmente lacrados . Dentro destes estão 1.200 caixas e 2.900 tambores, que permanecerão perigosos para o meio ambiente por 180 anos.

O Parque Estadual Telma Ortegal foi criado em Goiânia, hoje pertencente ao município de Abadia de Goiás, onde se encontra uma "montanha" artificial. Assim, os rejeitos foram enterrados em uma vala de aproximadamente 30 (trinta) metros de profundidade, revestida de uma parede de aproximadamente um metro de espessura de concreto e chumbo, e sobre a vala foi construída a montanha.

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