Criada há 25 anos, a Companhia Ópera Seca era sinônimo da obra de Gerald Thomas. Pois ele se disse cansado da mesmice do teatro, anunciou sua aposentadoria dos palcos e deixou uma lacuna que agora começa a ser preenchida. ¿Travesties¿, primeiro trabalho do grupo desde a saída de seu fundador, tem estreia nacional nesta sexta-feira (19), no Festival de Curitiba, trazendo uma releitura do celebrado escritor britânico Tom Stoppard. A expectativa é grande. ¿Meu blog é invadido diariamente por ¿malucos¿, fãs de Gerald e sua estética¿, comentou o diretor Caetano Vilela.

Divulgação / Daniel Sorrentino

O diretor Caetano Vilela: "Não temos que
facilitar, e sim deixar as pessoas curiosas"

Iluminador premiado, nos últimos anos Vilela tem acumulado também a direção, com maior frequência na ópera ¿ foi dele a adaptação de Ça Ira, do ex-Pink Floyd Roger Waters, encenada em Manaus. Egresso do Centro de Pesquisa Teatral (CPT) de Antunes Filho, Vilela começou sua relação com Thomas há mais de uma década, relação essa que evoluiu a ponto dos dois escreverem peças a quatro mãos. Quando comentou a ideia de encenar Stoppard, Thomas deu carta branca para ele tocar o projeto e teria dito: Stoppard é o único autor vivo que respeito.

A saída pela direita de Thomas era, segundo seus antigos colaboradores, uma crise anunciada. Ele não estava satisfeito com seus últimos trabalhos, afirmou a atriz Fabiana Gugli, parceira de longa data do diretor e que está no elenco de Travesties. Gerald era do tempo em que o que dizia no palco virava referência. Além de esgotado, ele também teria desistido da burocracia para se fazer cultura ¿ até hoje, a companhia não tem sede própria nem patrocinador. Por isso a obra de Stoppard é relevante, ao fazer uma sátira da sociedade, continuou Fabiana. Como não compactuar com o sistema e ao mesmo tempo ser financiado por ele.

Mais conhecido pelos roteiros de cinema nos quais trabalhou, como Império do Sol e Shakespeare Apaixonado, Stoppard ¿ que veio ao Brasil em 2008, para participar da Flip ¿ alcançou sucesso de público ao ver a peça Rock n Roll (2006) encenada na Broadway. A história de uma banda de rock na Tchecoslováquia comunista agradou Vilela, interessado em abordar o papel da revolução nas artes. Por conta própria, fez ele mesmo uma tradução, mas descobriu depois que os direitos da peça já haviam sido comprados. Com pressa, na sequência entrou em contato com o autor, que ficou horrorizado ao saber que o diretor pretendia adaptar Travesties só por ter lido a sinopse. No fim, me surpreendi, era exatamente o que queria fazer.

Divulgação

Germano Mello como Henry Carr

A trama, escrita em 1970, se passa entre a casa do diplomata Henry Carr e uma biblioteca pública de Zurique, durante a Revolução Russa. De sua cabeça, Carr imagina encontros reais e imaginários entre Lênin, James Joyce, o dadaísta Tristan Tzara e Oscar Wilde, entre outros, numa montagem com espírito de farsa. Stoppard pega acontecimentos históricos e os contemporaniza, defendeu Vilela. A gente sabe muito pouco de história. No palco, podia se tornar superficial ou chata, o que Stoppard não faz.

O texto original, denso, talvez verborrágico, foi adaptado com liberdade, e a Ópera Seca tem como justificativa o fato de o dramaturgo britânico afirmar que não gosta que os atores respeitem os diálogos se o resultado favorecer o jogo cênico. Por isso, a montagem deve seguir o mesmo estilo que a companhia de Gerald Thomas adotava até então, de forte carga simbólica e expressionista. Não é uma ruptura, é mais uma continuação do trabalho de Gerald, com aquela estética, mas com a minha identidade. É um projeto autoral, explicou o diretor. Meu sonho é que esse núcleo seja o início de outro como aquele histórico para a companhia, na época com Vera Holtz, Bete Coelho e Maria Lucia Vergueiro.

Aí entra um elenco jovem, como Germano Mello, que tem na ponta da língua qual seria o papel do ator no teatro contemporâneo. O ator tem que ser canastrão. Não interessa para o público a verdade do ator, mas a verdade do jogo, que é artificial. É outra forma de se relacionar com o público, completou o diretor, que tem uma opinião dura sobre a relação com o espectador. Não precisamos atrair o público. Minha contrapartida social é o próprio espetáculo. Não temos que facilitar as coisas, e sim deixar as pessoas curiosas.

A começar pelo título (travestis, em inglês), Travesties até agora não conseguiu patrocínio nem verbas de incentivo fiscal. Segundo Vilela, ninguém da equipe recebeu um tostão até agora: todos estão trabalhando de graça, dos atores ao cenógrafo e figurinistas. A ideia é usar a janela de Curitiba para atrair apoiadores. É um investimento. Depois de estrear, vamos ver os frutos que iremos colher.

Serviço ¿ Travesties no Festival de Curitiba
Sexta (19) e sábado, às 21h, no Teatro Guaíra
Ingressos: R$ 45
Bilheteria central: ParkShopping Barigui, de segunda a sexta das 11h às 23h; sábados, das 10h às 22h; domingos, das 14h às 20h
Bilheteria Memorial de Curitiba: segunda à sábado, das 12h às 18h; domingo, das 9h às 17h
Informações: (41) 3317-6710
Vendas por telefone: (41) 4003-1212
Vendas pela Internet: Ingresso Rápido

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