Segundo dia da Flip tem homenagem à bossa nova e conversa de botequim

PARATY ¿ O segundo, mas primeiro dia de programação completa da 6ª edição da Flip, foi bastante intenso em Paraty. As ruas da cidade já registram bom movimento, mas ainda não estão lotadas, o que deve acontecer a partir desta sexta-feira. Um dos destaques foi a homenagem da festa literária aos 50 anos da bossa nova, na mesa Retrato em branco e preto, dividida pelo cantor e compositor Carlos Lyra com o crítico italiano Lorenzo Mammì.

Marco Tomazzoni |

Lyra dispensou o roteiro que havia preparado para falar, com propriedade e improviso, sobre a história do gênero que ajudou a fundar. A história, garantiu, está na autobiografia "Eu e a bossa" (Casa da Palavra), que abrange o auge do movimento nas décadas de 1950 e 1960. O autor de canções como "Minha namorada", "Maria Ninguém", "Menina" e "Lobo bobo" defendeu que, antes da interpretação trazida pela batida de João Gilberto, a bossa nova inovou na forma e no discurso. "A bossa nova tem o discreto charme da burguesia nas letras, sofisticação que depois se transformou em poesia pelas mãos de Vinicius de Moraes."

Já Mammì, que escreveu o célebre artigo "João Gilberto e o projeto utópico da Bossa Nova", afirmou que o impacto do que produzido na época foi muito mais do que um estilo: foi um surto. "Tudo o que foi feito antes passou a ser enxergado de forma diferente, e o que foi produzido depois, ganhou influência direta." Em seguida, o professor passou a analisar as canções do gênero de forma estrutural, comparando as improvisações de Gilberto com standards do jazz norte-americano em melodia e esquemas harmônicos, o que dispersou a platéia, aquecida com a desenvoltura de Lyra.

O músico carioca, por sinal, ainda mostrou erudição ao comparar a bossa nova à escola provençal francesa do século 12 ¿ "os menestréis cantavam poesias para as mulheres no alaúde, como nós fazíamos ao violão" ¿ e fez polêmica ao responder à provocação, citada pela mediador Marcos Nobre, de que, para José Ramos Tinhorão, o rap é o futuro da música. "Tô nem aí para o rap. Nem é meu vizinho, moro em Ipanema", defendeu, emendando que, na falta de parceiros, musicou poemas de Castro Alves e Machado de Assis.

O debate esquentou mesmo quando Lyra resolveu acabar com algumas "lendas sinistras" que rondam a bossa nova. A primeira foi o senso comum de que o gênero havia sido criado no apartamento de Nara Leão. "A Nara foi uma figura de grande projeção, não precisa dessa lenda. Nem ela nasceu naquela casa, foi no Espírito Santo; a bossa nasceu no Rio." Também contou que a apresentação dos expoentes da bossa nova ¿ Tom Jobim, João Gilberto, Luiz Bonfá, ele próprio ¿ no Carnegie Hall, no final de 1962, foi um fiasco, ao contrário do que se imagina. "A fila para cantar era tão grande quanto a para comprar ingressos. O produtor chamou tudo que era brasileiro perdido em Nova Iorque, encheu de bicão. Um tocava maracas, outro violão elétrico nas costas, um fiasco", resumiu.

Humor boêmio

Xico Sá se empolga na conversa / Foto: Walter Craveiros

O dia começou com uma mesa de jovens autores, que tradicionalmente inaugura a Flip. Os estreantes Vanessa Barbara e Emilio Fraia conversaram com os nem tão jovens Adriana Lunardi e Michel Laub, cada um com três livros publicados. A falta de uma pauta que identificasse os participantes não facilitou a tarefa de João Moreira Salles, mediador da conversa. Na seqüência, veio a elogiada conferência da psicanalista francesa Elizabeth Roudinesco, que traçou um panorama do livro "O lado obscuro de nós mesmos", tese sobre a história da perversidade no mundo ocidental.

Mas a surpresa do dia ficou reservada para o final da tarde. Humberto Werneck aproveitou o lançamento de "O santo sujo", biografia do boêmio Jayme Ovalle, para bater um papo em alta rotação com o cronista Xico Sá, escolhido pela organização como uma versão moderna do poeta paraense. A aposta deu certo e o debate rendeu uma mesa considerada das mais engraçadas da história de Paraty . A última mesa ficou nas mãos de um trio de mulheres. Cíntia Moscovich, Inês Pedrosa e a inglesa Zoë Heller, todas com personagens femininos fortes em suas obras, discutiram o papel da chamada "literatura feminina" no mercado editorial.

A sexta-feira também promete na Flip. Com os ingressos para todas as mesas esgotados, o dia trará as falas de Ingo Schulze (primeiro alemão a participar da festa), Lucrecia Martel, João Gilberto Noll, Caco Barcellos, Vitor Ramil, Nathan Englander e o aclamado norte-americano David Sedaris. Veja abaixo a programação:

- 10h: Formas breves, com Ingo Schulze, Modesto Carone, Rodrigo Naves
- 11h45: Ficções, com João Gilberto Noll, Lucrecia Martel
- 15h: Os fuzis, com Caco Barcellos, Misha Glenny
- 17h: Estética do frio, com Martín Kohan, Nathan Englander, Vitor Ramil
- 19h: Veludo cotelê, com David Sedaris

Leia mais sobre: Flip

    Leia tudo sobre: flip

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG