Reconhecendo-se desestimulado a continuar no cargo de deputado federal, o secretário-geral do PT, José Eduardo Cardozo (SP), desistiu da disputa pela reeleição. Em comunicado divulgado em seu site pessoal hoje, Cardozo ressaltou que sua decisão é de foro íntimo, sem se prender a uma avaliação de descaso com a vida parlamentar ou a divergências políticas.

No decorrer do comunicado, contudo, fez críticas ao abuso do poder financeiro nas campanhas e à interpretação jurídica dada às regras eleitorais.

No documento, o secretário-geral afirmou que desde a última campanha eleitoral, em 2006, já "achava difícil a possibilidade de vir a participar de uma nova eleição à Câmara dos Deputados". Na época, cobrava uma reforma "radical" do sistema político. O motivo de sua insatisfação com a vida parlamentar, de acordo com ele, está ligado à importância dada aos recursos financeiros na promoção de campanhas vitoriosas.

"São disputas onde os recursos cada vez mais decidem o sucesso de uma campanha, onde apoios eleitorais não são obtidos pelo convencimento político das ideias, pelo programa ou pela própria atuação do candidato proporcional, mas quase sempre pelo quanto de estrutura financeira ele pode distribuir", criticou. O deputado destacou que se empenhou na realização de uma reforma. "Tinha e tenho consciência de que somente uma reforma política aguda poderia romper com a cultura dominante, forçando a diferenciação do joio do trigo pela sociedade. Mas, junto com outros companheiros de luta, fui derrotado", acrescentou.

Cardozo também reclamou dos órgãos responsáveis pela fiscalização das campanhas. Segundo ele, as interpretações dadas às regras eleitorais são "rígidas" e "formais", o que leva "os mais sérios candidatos" a sofrerem "pesadas punições". O parlamentar comparou ainda as penas imputadas a políticos "sérios" e aos "corruptos". "Um político sério no Brasil pode vir a ser punido ou mesmo correr o risco de perder o seu mandato. Já os corruptos cuidadosos, que podem pagar bons e caros técnicos que os assessoram, costumam não cometer erros desta natureza. Bem assessorados, quase sempre saem 'limpos' das disputas eleitorais", criticou.

O parlamentar negou a hipótese de se afastar da militância política e anunciou que trabalhará "ativamente" na campanha da pré-candidata do PT, a ministra Dilma Rousseff, rumo à sucessão no Palácio do Planalto. A assessoria de Cardozo informou que o nome do deputado vai integrar a equipe de coordenação de campanha de Dilma. "Estarei me dedicando de corpo e alma a esta campanha presidencial e trabalhando com a possibilidade de termos, em Dilma, a primeira mulher presidente da República."

Eleito em 2006 com 124.409 votos, Cardozo exerce desde 2008 o posto de secretário-geral do partido. No ano passado, pleiteou o cargo de presidente da legenda, em substituição ao deputado federal Ricardo Berzoini (SP). Angariou apenas 81.372 votos, 17,2% do total, e foi vencido pelo ex-presidente da Petrobras Distribuidora, José Eduardo Dutra.

Insatisfação

Na avaliação de lideranças do PT, a desistência de Cardozo nasceu de sua discordância em relação ao retorno ao comando do partido de antigos dirigentes da legenda envolvidos no escândalo do mensalão. Outros petistas cogitam o interesse de Cardozo em um ministério de um eventual terceiro mandato do PT no Palácio do Planalto, o que a assessoria do deputado nega.

No início deste ano, o nome de Cardozo foi cogitado para assumir o Ministério da Justiça, substituindo Tarso Genro, que se afastou do cargo para tocar a candidatura ao governo do Rio Grande do Sul. "Cardozo ficou frustrado quando perdeu o posto para o secretário-executivo Luiz Paulo Barreto. Queria muito ser ministro", disse uma liderança petista.

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