Sabesp é liberada por agência a fornecer água com pressão abaixo da normal

Por Vitor Sorano - iG São Paulo |

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Prática, que prejudica abastecimento de casas e sobrados, foi negada inicialmente por Alckmin e admitida depois por diretor

Luiz França/CMSP
"Normas devem ser relativizadas", diz Kelman

Sabesp está liberada para fornecer água abaixo da pressão regulamentar na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), sobretudo nos horários de maior consumo. No entendimento da agência estadual que fiscaliza a empresa, a alteração pode ocorrer em casos de crise hídrica.

A prática pode levar a falhas no abastecimento, sobretudo em casas térreas e sobrados, e foi inicialmente negada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), mas admitida posteriormente por representantes da companhia.

Uma regra da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) brasileira exige que a pressão de abatecimento seja de ao menos 10 metros de coluna d'água (mca). Essa pressão é necessária para que a água chegue até os reservatórios, que geralmente fiquem no alto dos imóveis.

A Sabesp, porém, tem diminuído a pressão para até 1 mca, o que, em tese, é suficiente apenas para que a água chegue ao cavalete de abastecimento de uma casa térrea. Uma torneira que esteja a mais de 1 metro do chão, por exemplo, já não recebe água.

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A pressão abaixo da norma foi admitida em fevereiro pelo diretor metropolitano da companhia, Paulo Massato, e referendada pelo presidente, Jerson Kelman, com o argumento de que as normas "devem ser relativizadas" em situação de crise.

Esse discurso, entretanto, contraria o do governador Geraldo Alckmin (PSDB). Em dezembro, o tucano afirmou que "ela (a Sabesp) cumpre a norma da ABNT, que é de ter uma coluna de dez metros de água", para defender a regularidade do programa de redução de pressão praticado pela companhia.

Após a fala de Massato, a Agência Reguladora de Saneamento e Energia de São Paulo (Arsesp), que fiscaliza a Sabesp, alegou que não havia sido informada da redução da pressão até 1mca e cobrou explicações. Na resposta, obtida pelo iG, a companhia argumenta que a norma da ABNT permite o fornecimento de água abaixo de 10 mca, desde que haja justificativa técnica e econômica.

"Em uma situação real de operação da distribuição de água, especialmente com as restrições atuais oriundas da crise hídrica, a pressão dinâmica pode momentaneamente ficar abaixo dos 10 mca, conforme a demanda daquele momento e, principalmente, nos horários de maior consumo, em consonância com o previsto na própria norma", informa o texto.

A Arsesp concordou com a Sabesp, de acordo com uma análise técnica feita por um assessor da diretoria de fiscalização obtida pela reportagem. O texto, que deve balizar a decisão final da agência sobre o caso, vai contra um entendimento preliminar e informal existente no órgão de que reduzir a pressão para 1 mca é irregular, segundo o iG apurou.

Uma discordância da Arsesp significaria um golpe na principal ferramenta do governo Alckmin para diminuir a retirada de água do sistema Cantareira, o maior da região metropolitana e que sobrevive graças ao volume morto. Entre janeiro de 2014 e março deste ano, o volume extraído do manancial caiu de 31,9 mil para 17,9 mil litros por segundo, sendo que 42% da economia foi conseguida com a diminuição de pressão.

Procurada, a Sabesp reiterou que não há irregularidade em fornecer água abaixo de 10 mca. "A Sabesp esclarece que há um equívoco na informação que a companhia reduz a pressão abaixo do permitido pela Norma da ABNT. Em situações em que o direito coletivo está ameaçado, os valores da pressão estática superiores às máxima e da pressão dinâmica inferiores à mínima podem ser aceitos, desde que justificados técnica e economicamente, conforme item 5.4.1.2 da NBR 12.218 [número da norma da ABNT]", informou a companhia, em nota.

Cortes não zeram pressão, diz companhia
Na nota, a Sabesp também admitiu que tem fechado registros em algumas regiões da cidade, como o iG revelou em 6 de fevereiro, e diz que a atitude não zera a pressão na rede de abastecimento. A companhia não deixou claro, entretanto, se prejudica ou não o fornecimento de água, como denunciaram dez funcionários da empresa ouvidos sob condição de anonimato pela reportagem.

"Não é possível afirmar que os fechamentos de válvulas em campo correspondem à completa despressurização das tubulações (...)", diz a nota. "A realização de manobras nas redes está associada não só à necessária redução de pressão para combate às perdas, mas também ao direcionamento das vazões disponíveis para abastecimento de determinadas áreas ou pontos críticos em diferentes horários do dia, de modo a que todas as áreas recebam água nos horários programados, amplamente divulgados."

Os fechamentos de registro têm sido feitos nos locais onde a Sabesp ainda não instalou válvulas redutoras de pressão (VRPs), que cobrem menos da metade (45%) das áreas atendidas pela companhia da companhia na Região Metropolitana de São Paulo.

Engenheiro civil com ênfase em hidráulica e professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, Urandi Gratão diz que é possível fechar registros e não cortar o abastecimento em uma determinada região.

"Fechar um registro não significa que vai faltar água naquele setor, pois há mais de uma entrada", afirma Gratão. "Desde que se saiba o que se está fazendo."

Veja imagens da seca em São Paulo:

Vaca caminha pela Represa Jacareí, no dia 29 de janeiro: normalmente ali teria água. Foto: Futura PressSituação calamitosa da Represa Jacareí, parte do Sistema Cantareira, no dia 29 de janeiro. Foto: Futura PressCarro no meio na Atibainha devido ao baixo nível da represa: cenário desolador. Foto: Futura PressPedalinhos inutilizados na Represa Atibainha, parte do Cantareira, em janeiro. Foto: Futura PressRepresa Atibainha, em janeiro de 2015. Foto: Futura PressLixo surge na Represa de Atibainha, em janeiro. Foto: Futura PressEm protesto contra a falta de água, governador Geraldo Alckmin é ironizado por manifestantes (26/01/2015). Foto: AP PhotoEm São Paulo, moradores organizaram uma passeata contra a falta de água. Foto: AP PhotoMoradores protestam contra a falta de água em São Paulo (26/01/2015). Foto: AP PhotoProtesto 'Banho Coletivo na casa do Alckmin', na manhã desta segunda-feira (23), em frente ao Palácio dos Bandeirantes. Foto: Futura PressFalta de água em São Paulo se agrava e motiva protestos . Foto: AP PhotoRepresa do Jaguari, na cidade de Vargem, em setembro; veja mais imagens da situação dos reservatórios do Sistema Cantareira. Foto: Luiz Augusto Daidone/Prefeitura de VargemRepresa do Jaguari, na cidade de Vargem, em foto de setembro. Foto: Luiz Augusto Daidone/Prefeitura de VargemRepresa do Jaguari, na cidade de Vargem, em foto de setembro. Foto: Luiz Augusto Daidone/Prefeitura de VargemObras do Sistema Cantareira no segundo volume morto. Foto: Futura PressObras do Sistema Cantareira no segundo volume morto. Foto: Futura PressObras do Sistema Cantareira no segundo volume morto. Foto: Futura PressObras do Sistema Cantareira no segundo volume morto. Foto: Futura Press Seca no reservatório do Rio Jacareí, em Joanópolis, São Paulo. Foto: Futura Press Seca no reservatório do Rio Jacareí, em Joanópolis, São Paulo. Foto: Futura Press Seca no reservatório do Rio Jacareí, em Joanópolis, São Paulo. Foto: Futura Press Seca no reservatório do Rio Jacareí, em Joanópolis, São Paulo. Foto: Futura Press Seca no reservatório do Rio Jacareí, em Joanópolis, São Paulo. Foto: Futura Press Seca no reservatório do Rio Jacareí, em Joanópolis, São Paulo. Foto: Futura Press Seca no reservatório do Rio Jacareí, em Joanópolis, São Paulo. Foto: Futura PressSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia Stavis


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