Documento prevê alta de 6,7% em 2015, superior à inflação e maior que a de anos anteriores; lucro da empresa caiu 53%

Alckmin (de terno) visita reservatório da Sabesp
Divulgação/Governo de São Paulo
Alckmin (de terno) visita reservatório da Sabesp

A crise hídrica não poupou clientes e acionistas da  Sabesp no ano passado, mas pode passar ao largo dos supersalários da empresa.

Os valores destinados a remunerar os diretores e conselheiros da Sabesp - entre os quais estão vários membros do PSDB, partido do governador Geraldo Alckmin , - devem aumentar 6,7% em 2015, segundo a proposta apresentada pela administração da companhia na quinta-feira (26).

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Ao todo, o documento destina R$ 4,54 milhões para remuneração dos integrantes do conselho de administração, do conselho fiscal e da diretoria estatutária da companhia. O índice de reajuste significa um aumento maior do que o observado nos anos anteriores, 2,5% em 2013 e 1% em 2014, de acordo os dados recém-divulgados.

Caso o índice de 6,7% fosse aplicado aos vencimentos de todos os diretores e conselheiros de maneira idêntica, esses funcionários teriam garantido a recomposição da inflação de 2014, de 6,4%, mais um ligeiro ganho real.

A proposta causou indignação no mercado e, segundo o iG apurou, levou a questionamentos dentro da própria Sabesp. A Secretaria da Fazenda diz que o documento traz apenas uma projeção dos valores que poderão ser gastos com os administradores.

"Não se trata, portanto, de qualquer proposta de elevação da remuneração dos administradores e tampouco de orientação do acionista controlador [ o governo Alckmin ] nesse sentido", justifica.

'Momento pediria sacrifício de todos'

"Em tese, num momento de crise, todos tinham de dar uma contribuição", afirma um analista do setor de utilidade pública que pediu anonimato em razão da sensibilidade do assunto.

O analista destaca que a reposição da inflação é comum nos cargos de direção das companhias abertas, mas, em um momento em que a Sabesp tem perdido rentabilidade em razão da pior seca em 84 anos, "o momento pediria um sacrifício de todos os lados."

No ano passado, o lucro da Sabesp despencou 53%, para R$ 903 milhões em relação a 2013 . Os acionistas (cerca de 5 mil) tiveram um tombo equivalente nos juros e dividendos pagos pela companhia, de R$ 537,5 milhões para R$ 252 milhões.

Para os clientes, a crise hídrica significou falhas constantes no abastecimento e contas mais altas pela existência de ar nos canos - em ambos os casos, a Sabesp diz que os casos são pontuais. A percepção positiva da empresa caiu de 89% para 80%.

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Os supersalários não são afetados por esses maus desempenhos porque a maior parte da remuneração dos administradores da Sabesp (86%) é fixa. Não há, por exemplo, pagamentos baseados em ações, e os bônus respondem por 11% do total previstos para serem pagos aos dois conselhos e à diretoria.

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Conselho de administração tucano
A maior parte dos R$ 4,53 milhões propostos, R$ 3,09 milhões, é destinada à diretoria estatuária da Sabesp. Ali, a remuneração individual média em 2014 foi de R$ 483 mil no ano (cerca de R$ 40,3 mil por mês, se não for contabilizado o 13º salário). Outros R$ 323 mil estão previstos para remunerar o Conselho Fiscal da Sabesp.

O Conselho de Administração, órgão máximo da companhia e que será responsável por aprovar ou rejeitar a proposta, receberá o R$ 1,1 milhão restante (R$ 70 mil a mais que em 2014).

O órgão abriga diversos tucanos, como o ex-governador Alberto Goldman (PSDB), ex-secretário de Desenvolvimento de José Serra (PSDB) Francisco Vidal Luna - no cargo de conselheiro independente -, e o ex-prefeito de Franca Sidnei Franco da Rocha (PSDB).

Nessas condições, e levando em consideração que o governo é o acionista majoritário da empresa, o reajuste de 6,7% proposto está praticamente garantido se for a votação. A assembleia ocorre em 30 de abril.

"Não há nenhuma chance porque o [ acionista ] controlador da compahia é o Estado. Então ele faz o que ele quer. A não ser que entenda que não é prudente", diz o analista.

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