Licenças para perfurar poços em SP aumentam 82% em 2015

Por Ana Flávia Oliveira -iG São Paulo |

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Em janeiro e fevereiro deste ano, o Daee concedeu 231 autorizações para abrir poços; no mesmo período do ano passado, foram 127 pedidos, informou o órgão estadual

Poços artesianos têm sido a solução para indústrias e condomínios em São Paulo
Divulgação
Poços artesianos têm sido a solução para indústrias e condomínios em São Paulo

A maior crise de abastecimento do Estado de São Paulo fez o número de autorizações concedidas para perfurações de poços artesianos crescerem 82% apenas nos dois primeiros meses de 2014, em relação ao mesmo período do ano passado, segundo dados do Departamento de Águas e Energia (Daee).

Em janeiro deste ano, foram autorizadas 90 novas perfurações, contra 51 na mesma base de comparação. Já em fevereiro, o número de pedidos quase dobrou em relação ao mesmo mês de 2014 – passando de 76 para 141.

Em relação os números de 2013, o crescimento do ano passado inteiro foi de 17%. O número de autorizações concedidas passou de 906 para 1.058.  No total, o Estado de São Paulo tem 28.417 poços cadastrados no Daee.

Poço foi inutilizado nos anos 1990. Foto: Maria Fernanda Ziegler/iGPor conta da falta de água encanada em alguns períodos da semana, família resolveu reabrir poço. Foto: Maria Fernanda Ziegler/iGÁgua agora está sendo usada quando falta abastecimento. Foto: Maria Fernanda Ziegler / iGÁgua que sai do poço é inodora e incolor, mas não se sabe se é potável. Foto: Maria Fernanda Ziegler/iGO antigo motor que bombeava a água já não existe mais. Para retirá-la é preciso usar balde e cabos. Foto: Maria Fernanda Ziegler/iGJuarez Sanches, de 24 anos, experimenta a água. Foto: Maria Fernanda Ziegler/iGO mesmo faz Sebastião Sousa, pai de Juarez. Foto: Maria Fernanda Ziegler/iG

A perfuração de poços artesianos é considerada uma alternativa ao uso das águas dos mananciais, principalmente por grandes consumidores de água, como indústrias e condomínios. Mas até mesmo até consumidores individuais podem pedir autorização para perfurar poços.

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Empresas que fazem esse tipo de serviço também já registram, em média, um aumento de 30% a 40% no número de chamadas desde o final do ano passado. Condomínios residenciais representam a maior parte da nova leva de clientes, segundo Carlos Eduardo Giampá, sócio da DH Perfurações e conselheiro da Associação Brasileira de Águas Subterrâneas. Indústrias e comércio, porém, ainda continuam sendo os grandes usuários desse tipo de uso alternativo.

Carlos Tucci, engenheiro civil e professor de hidrologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Universidade Feevale, diz que “nas atuais circunstâncias, a utilização de poços artesianos tem sido uma opção muito boa”.

“Com essa crise, as pessoas querem uma segurança hídrica. Os poços, em geral, têm uma vida útil boa”, analisa.

O especialista alerta, no entanto, para o risco de contaminação da água, apesar da obrigatoriedade de estudo sobre a qualidade do líquido antes da perfuração. “Mesmo com testes do aquífero, a perfuração não garante uma qualidade da água excelente porque a contaminação pode acontecer durante o processo, caso o profissional escolhido não siga as normas técnicas exigidas”. Em áreas urbanas, as fossas e postos de gasolina representam os maiores riscos de contaminação.

Como é o processo de perfuração

De acordo com Giampá, da Abas, qualquer pessoa que seja proprietária do terreno pode pedir para escavar um poço artesiano. O processo demora no mínimo 120 dias para ser concluído, diz ele, e as autorizações são concedidas pelo Daee. Poços escavados sem autorização rendem ao proprietário do terreno multas de até 1 mil Ufesp (unidade fiscal do Estado de São Paulo que vale R$ 21,25 cada).

O primeiro passo, diz Giampá, apresentar informações ao órgão, como escritura do terreno, projeto de construção do poço e quantidade de água que será retirada. Além disso, é necessário que o local de perfuração esteja ao menos em um raio de 500 metros de distância de zonas de contaminação. A Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) faz esse levantamento, diz ele.

“Se o terreno estiver dentro desse raio, a Cetesb faz a análise para ver se não há risco de contaminação da água e qual o tipo de contaminante. Se tiver essa autorização, o Daee concede a licença de perfuração”.

A partir desse ponto, a empresa contratada começa a abertura do poço, processo que demora em média 30 dias. Após, o poço pronto, é necessária ainda uma análise da água no Ministério da Saúde e a instalação do conjunto de bombeamento. Com posse dessa análise, é necessário dar entrada, no Daee, no pedido de outorga – uma licença para utilizar o volume de água que precisa ser renovada a cada cinco anos.

Custos de abertura e manutenção

Giampá diz que a geologia de São Paulo permite a abertura de poços de 100 metros a 300 metros de profundidade. O custo varia em média de R$ 100 mil a R$ 300 mil, de acordo com o tamanho.

Tucci diz que para os clientes saberem se vale a pena abrir um poço, basta calcular o custo da água mensalmente e o valor de abertura e manutenção do sistema.  

“A vida útil é boa, mas tem que analisar se o valor que vai se pagar pela abertura e o que se consome de fato. Por isso, vale mais apenas para condomínios em que as pessoas podem dividir esse custo”, afirma.

Giampá, no entanto, rebate: “Nas atuais circunstâncias, os poços têm sido uma opção muito boa para pessoas que querem uma segurança hídrica maior. Não tem que avaliar só os custos de manutenção. A questão é se vai ter água ou não”, diz.

 “Antes a parte financeira mandava. O custo da água para o cliente domiciliar é menor que para indústria e comércio. Esses setores já buscavam fontes alternativas. Na situação atual, o condomínio não está mais preocupado na redução dos custos e sim, em ter a água”, explica Giampá.

Além dos valores de abertura, há um custo de manutenção das bombas, eletricidade e  reanalise periódica da qualidade da água de cerca de R$ 1 mil a R$ 1,5 mil por mês.

Poços da Sabesp

No centro da maior crise hídrica da história, até mesmo a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) utiliza a água de poços para colaborar no abastecimento.

Esses poços são utilizados para atender localidades distantes das regiões abastecidas pelos sistemas Cantareira, Alto Tietê, Rio Claro, Guarapiranga, Alto e Baixo Cotia e Ribeirão da Estiva.

Segundo a companhia, somente na Região Metropolitana de São Paulo são utilizados 164 poços. “A vazão desses sistemas isolados representa cerca de 2% do volume total de água produzido na RMSP”.  A Sabesp informou ainda que realizará a partir do mês que vem um estudo para mapear a perfuração de mais 200 poços na região.  

 

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