Contra 'economia excessiva', Sabesp admite cortar bônus em cidades do interior

Por Vitor Sorano - iG São Paulo | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Desconto pode deixar de ser ofertado na região de Piracicaba depois que chuvas abasteceram a bacia; consórcio faz ressalva

Kelman: sem fazer sofrer desnecessariamente
Divulgação/Fiesp - 24.3.15
Kelman: sem fazer sofrer desnecessariamente

Sabesp planeja eliminar, em algumas cidades do interior de São Paulo onde considera que há água em abundância, o bônus oferecido a clientes que reduzam o consumo. O programa é considerado uma das principais ferramentas de enfrentamento da crise hídrica, mas tem causado um prejuízo milionário à companhia.

A ideia é pôr fim ao programa de bônus na bacia do Piracicaba, onde 11 municípios são contemplados pelo desconto, que pode chegar a 30% da conta de água, como Bragança Paulista, Paulínia e Hortolândia. Juntas, as cidades têm 700 mil habitantes.

O argumento do presidente da companhia, Jerson Kelman, é que niguém deseja "sacrificar" desnecessariamente os consumidores, estimulando-os a reduzir muito o consumo de água.

"Ninguém quer dar um incentivo à população economizar excessivamente. Usar com parcimônia é uma receita para sempre. Mas sofrer, ninguém quer que alguém sofra se não for necessário", disse Kelman. "A sinalização [por meio do bônus] de que a água é escassa em alguns lugares começa a deixar de ser necessária. (...) Nas nossas cidades no Piracicaba, estamos discutindo, talvez venhamos a eliminar o bônus."

As declarações foram feitas após palestra na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) em que Kelman apresentou dados de que a vazão que chega à bacia do Piracicaba está hoje em cerca de 290 mil litros por segundo. O bônus tem a capacidade de reduzir o consumo em apenas alguns mil litros por segundo e, por isso, não faria sentido nesse cenário.

Leia também

- Termos "racionamento" e "falta" despencam nas redes sociais

- Sabesp pede para revisar a tarifa 3 meses após o último aumento

- Para instituto alemão, racionamento é inevitável no Sudeste brasileiro

O fim do bônus é visto com ressalva pelo Consórcio PCJ, que reúne os municípios das bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí e tem por objetivo recuperação dos mananciais da região. Francisco Lahóz, secretário-executivo da entidade, argumenta que com o fim das chuvas a vazão dos rios pode cair drasticamente, e a região, que não tem reservatórios, não poderá contar com o sistema Cantareira para ser socorrida.

"Um exemplo disso é o próprio Rio Piracicaba, que chegou a apresentar vazão de 450 m³/s em determinado dia no mês de fevereiro e, em menos de uma semana sem chuvas, voltou a cair para menos de 100 m³/s", disse Lahóz, por e-mail. "Se for mantido o consumo elevado de água poderá acarretar dificuldades de abastecimento nos municípios das Bacias PCJ."

Governo planeja pôr fim ao benefício

O bônus deve ser mantido na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), que ainda vive sob ameaça de rodízio na região do sistema Cantareira. Localizado na região norte, o manancial atende 6,2 milhões de pessoas e só sobreviveu à crise hídrica graças à utilização das águas de duas cotas de volume morto - ou reserva técnica, como prefere a Sabesp.

Outro integrante do governo Alckmin, entretanto, já manifestou interesse em suspender o programa de bônus assim que possível. Em 18 de março, durante palestra, a secretária-adjunta de Saneamento e Recursos Hídricos, Mônica Porto, afirmou que "o bônus, se São Pedro nos ajudar, logo termina. [Tão logo] a gente consiga voltar o reservatório para a situação normal."

Embora Mônica não tenha detalhado o que seria uma "situação normal", em 25 de fevereiro o diretor metropolitano da Sabesp, Paulo Massato, afirmou que o cenário da RMSP seria de contingência até que o sistema Cantareira atingisse entre 28% e 29% da sua capacidade total, o que seria suficiente para recuperar todo o volume morto.

Caso as chuvas de 2015 fiquem dentro  na média histórica, o volume morto 1 sera recuperado em 125 dias, segundo o último boletim do Centro nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), de 18 de março. O volume morto 2 foi completamente recuperado em 24 de fevereiro.

Prejuízo é de R$ 128 milhões

O programa de bônus teve início em  2014 e prevê descontos de até 30% para quem reduz o consumo. Segundo a Sabesp, a medida permitiu à companhia reduzir em 3,4 mil litros por segundo a captação de água do sistema Cantareira, ou 20% do total economizado entre janeiro de 2014 e fevereiro passado.

Até setembro os descontos já haviam causado um prejuízo de R$ 128 milhões na receita operacional bruta da companhia. Como a Sabesp é negociada em bolsa, os resultados negativos implicam em queda nos valores das ações.

Em 6 de março, três meses após ter aplicado um aumento de 6,5%, a Sabesp pediu autorização para fazer um reajuste extraordinário em razão das perdas causadas pela crise hídrica - além do bônus, a própria redução no consumo impacta as contas. A Agência Reguladora de Saneamento e Energia de São Paulo (Arsesp) ainda não deu o aval.

Rodízio

Nesta terça-feira (24), o presidente da Sabesp reiterou o discurso do governo de que a adoção de um rodízio oficial de água na RMSP é possível mas pouco provável.

A medida, porém, só será descartada se três condições forem preenchidas: o volume de chuvas de 2015 ser maior ou igual a 80% do volume de 2014, considerado o pior ano da série histórica; as obras emergenciais previstas pela Sabesp fiquem prontas dentro do prazo; e 80% da população continue a economizar água.

"Se qualquer dessas três hipóteses falhar, aí o rodízio vem", disse Kelman.

Como o iG mostrou, o governo Alckmin teme que os consumidores voltem a consumir mais em razão das chuvas abundantes de fevereiro e março, que ficaram acima da média após dez meses abaixo. As mençoes a "racionamento" e "falta" nas redes sociais despencaram neste mês, segundo levantamento da consultoria Airstrip.

Perguntado, Kelman afirmou entretanto que não há nenhum indicativo de que a população tenha deixado de economizar.

Leia tudo sobre: crise da águasabespsecacrise hídrica

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas