Consórcio do ABC paulista, presidido por tucano, pergunta se há segurança em usar volume e critica falta de transparência

Os prefeitos do Grande ABC, entre os quais um tucano, questionaram nesta sexta-feira (6) a proposta do governo Alckmin (PSDB) de usar águas do corpo central da Represa Billings, que segundo os gestores está "gravemente poluído", e do Rio Pinheiros para contornar o que classificaram como "crise de gestão hídrica" que atinge o Estado. A Sabesp diz que a água da represa é utilizada há 60 anos e não oferece risco à população.

Infográfico: Veja a situação dos reservatórios da Grande São Paulo

Em nota, o Consórcio Intermunicipal Grande ABC - presidido pelo prefeito de Rio Grande da Serra, Gabriel Maranhão (PSDB) -, também cobrou do governo estadual "maior transparência" e criticou a "ausência de informções claras e transparentes" sobre as ações de contingência para enfrentar a crise e o "baixo grau de detalhamento" das obras emergenciais anunciadas pelo governo.

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Para os prefeitos, o Comitê da Crise Hídrica criado por Alckmin para debater o cenário com os gestores municipais e a sociedade civil está hoje em "estado protocolar". O documento foi elaborado após encontro dos prefeitos com Vicente Andreu Guillo,  presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), e quadro do PT.

Divulgação/Consórcio Intermunicipal do ABC
"Estamos preocupados", diz Maranhão (PSDB)

As cidades de Santo André, São Bernardo e Diadema são abastecidas com águas da Billings, mas de uma reseva menos poluída chamada de Braço Rio Grande, que fica separado do corpo central da Billings pela rodovia Anchieta.  A ideia do governo tucano é ampliar o uso de água do Braço Rio Grande e transferir para esse as águas do corpo central, que estão do outro lado da rodovia.

"A ampliação do uso do Braço Rio Grande, com aumento da capacidade da produção da ETA Rio Grande e reversão de águas para Represa Taiçupeba, conforme anunciada, demandaria a utilização das águas do corpo central da Billings, que se apresenta gravemente poluído, com alto grau de eutrofização [ aumento excessivo de águas ] e com a presença de sedimentos contaminados no fundo do reservatório", diz a nota.

O consórcio enviou uma solicitação de esclarecimento à Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Cetesb) em que pergunta sobre os riscos de uso da água do corpo central da Billings.

Os prefeitos também se mostraram preocupados com a hipótese de que águas do Rio Pinheiros, também poluído, sejam bombeadas para o sistema Billings para reforçar o abastecimento em razão da retirada maior de água do Braço Rio Grande.

"Acendeu uma luz amarela. A gente acredita que o governo do Estado vai agir de forma a não prejudicar a Billings com o bombeamento de água do Rio Pinheiros para manter a cota da represa, que tem água mais contaminada do que a nossa [ do Rio Grande ]", diz o Maranhão, presidente do Consórcio, ao iG . "Saímos daqui com a certeza da importância do governo de fazer essas ações, mas estamos preocupados."

Maranhão também cobrou uma "maior comunicação" sobre a possibilidade de rodízio para que os gestores municipais e a população não sejam pegos de surpresa. Segundo o prefeito, há um "mal estar" nesse tema. O governo Alckmin tem tratado a hipótese de um rodízio como remota, e o presidente da Sabesp, Jerson Kelman, disse que, caso a política venha a ser implementada, o anúncio será feito duas ou três semanas antes da efetivação.

Prefeito de São Bernardo do Campo, o petista Luiz Marinho acusou o governo tucano de ter adotado ações sem qualquer diálogo com outros públicos.

"Tem um monte de inconsistência colocada em relação a essa crise e é preciso um debate mais responsável. Não pode ser feito da forma como o Estado está fazendo", disse Marinho. "Primeiro o Estado tem que discutir com a gente, comunicar o que vai fazer. Nós não temos informações."

Procurada, a Sabesp informou que a água da Billings é utilizada há 60 anos e que não apresenta riscos à população.

"Vale lembrar que a água da Billings conta no tratamento com um rígido controle de dosagem de produtos químicos e acompanhamento de padrões de qualidade da vigilância sanitária", informou a companhia, em nota.

A Cesteb informa não ter sido notificada dos questionamentos do Consórcio. O governo do Estado e a Secretaria de Recursos Hídricos preferiram não se manifestar.

A hipótese de transposição de águas do corpo central da Billings para o Braço Rio Grande foi apresentada por Alckmin na primeira reunião do Comitê da Crise Hídrica, em 13 de fevereiro, mas, segundo o iG apurou, não houve quesitonamentos na ocasião.

Escolhido pelo consórcio para acompanhar o tema, o secretário de Gestão Ambiental de São Bernardo, João Ricardo Guimarães Cateano, afirma que o governo de Estado não fez nenhuma apresentação formal do projeto de transposição aos prefeitos.

O governador, na reunião do Comitê da Crise Hídrica, anunciou essa medida e uma série de outras de caráter geral. O que imaginávamos, até porque essa intervenção na Billings tem um caráter regional, é que em algum momento houvesse a apresentação formal do projeto", diz Caetano. "[ E ] o principal indicador [de que o corpo central da Billings é altamente poluído] é que o corpo central está isolado do Braço Rio Grande."

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