Prédios com torneira seca em SP veem água jorrar do subsolo e ir para a sarjeta

Por Vitor Sorano - iG São Paulo |

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Milhares de litros saem de lençóis freáticos abaixo da cidade; em meio à crise, governo regulamenta a utilização

As torneiras estão secas, mas a água continua a jorrar de prédios para as sarjetas de Santana, na zona norte de São Paulo, região abastecida pelo sistema Cantareira, o principal da Região Metropolitana de São Paulo e que sobrevive graças ao volume morto.


"Por dia acho que sai de 8 a 10 metros cúbicos (8 mil a 10 mil litros)", calcula Alexandre Corrêa, zelador de um condomínio comercial em uma das ruas do bairro, onde a falta de água é diária."Essa água na realidade é aproveitada para regar o jardim, lavar a garagem. Somente para essa finalidade."

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A água despejada na rua vem do lençol freático no subsolo do condomínio e integra uma reserva subterrânea que, por meio de poços profundos, poderia fornecer à Região Metropolitana de São Paulo mais 10 metros cúbicos por segundo (m³/s) de água, ou 10 mil litros por segundo, segundo estimativas do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGC-USP).

O volume é ligeiramente inferior ao retirado atualmente do Cantareira, 10,85 m³/s, e aos  11,8 m³/s que o governo Alckmin (PSDB) promete garantir à Região Metropolitana com um conjunto de seis obras emergenciais de combate à crise hídrica.

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"Hoje já se extrai 10 m³/s. Minimamente, de forma responsável, estamos falando [que se pode chegar a] algo como 20 m³/s", diz Ricardo Hirata, vice-diretor do Centro de Pesquisa de Águas Subterrâneas (Cepas), do IGC-USP.

As águas de lençol freático se somam a essa capacidade e dispensam a perfuração de poços, pois estão tão próximas da superfície que costumam alagar garagens e fossos de elevadores.  E mesmo não sendo tão limpas como as águas de poços, têm "grande potencial de uso", destaca Hirata. Basta que se faça exames periódicos para se verificar a qualidade.

"Algumas vezes a água [de lençol freático] pode ser usada in natura. Em outras, reunida em um tanque para que sofra algum tipo de tratamento ou desinfecção", diz Hirata. "Os usos são diversos, incluindo a rega, a lavagem de piso, o resfriamento de torres de ar condicionado etc."

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O recurso, entretanto, chega a ser descartado por completo nas sarjetas ou galerias pluviais de São Paulo. A legislação ajuda o desperdício: a regulamentação baixada em setembro de 2014 pela gestão tucana prevê que quem jogar fora a água de lençol freático não precisa sequer comunicar o governo, pagar taxa, fazer teste de qualidade ou criar reservatórios.

O mesmo documento também impede que a água que sobra em um prédio seja usado em outro. Zelador de outro condomínio comercial em Santana, Givanildo dos Santos, de 42 anos, vê 150 litros serem despejados a cada três minutos na calçada. Do outro lado da rua, há um lava-rápido.

"Se vocês quiserem vir pegar a água aqui, podem trazer os baldes, podem vir com caminhão-pipa que sai lotado de água boa", diz o zelador. "O que falta é alguém fazer alguma coisa para aproveitar e jogar água para todo mundo. Mas não falta água não. Tem muita água."

Para Hirata, do Cepas, a proibição de ceder água a terceiros faz sentido, uma vez que os proprietários muitas vezes não têm capacidade de garantir a qualidade da água.

"Caso haja interesse de fornecer água a terceiros, os fornecedores deveriam constituir um empreendimento e este teria de ter um reponsavel etc. Assim, ou o empreendimento se prepara para isso, ou deve-se manter a restrição", afirma o pesquisador.

Crise estimula uso

Santos em frente ao poço do condomínio, na zona norte de SP: 'água não falta. Tem muita'
Vitor Sorano/iG - 27.2.15
Santos em frente ao poço do condomínio, na zona norte de SP: 'água não falta. Tem muita'

Há cerca de um mês, Santos passou a captar uma parte da água que há 15 anos jorra no condomínio, para driblar a crise hídrica que deixa as torneiras secas durante horas todos os dias pela manhã (a Sabesp oficialmente diz que, em Santana, há redução da pressão das 13h às 5h. As faltas d'água na cidade seriam problemas pontuais.)

"Isso aqui é uma cachoeira, ó", diz, enquanto enche o balde. "Uso para lavar a garagem, jogar água no jardim, lavar o térreo, lavar o carro de vez em quando."

Também há um mês, um condomínio residencial na Vila Olímpia - um dos metros quadrados mais caros da cidade, na zona oeste paulistana - passou a aproveitar parte da água que mina há oito anos  no subsolo. Hoje, é despejado na rua apenas o restante: de 15 mil a 20 mil litros por dia.

"Houve a necessidade de fazer uma economia de água. Estamos vivendo uma crise hídrica no Brasil e cotidianamente nós tínhamos essa água descartada", diz o zelador Daniel Sobral, que obteve uma economia de R$ 2 mil na conta da Sabesp desde que começou a aproveitar a água so subsolo. "Nós usamos a parte de água que nós precisamos e infelizmente o restante é descartado porque não há o que fazer."

Iniciativas desse tipos ainda são pontuais, avalia Hubert Gebara, vice-presidente de Administração Imobiliária e Condomínios do Secovi-SP, o sindicado do mercado imobiliário paulistano.

"O uso não é mais amplo porque é em alguns locais que você tem esse lençol freático abundante. Mas você pode abrir poços artesianos", sugere. "Alguns prédios têm excesso e jogam água na guia e tem gente aproveitando essa água. Eu não posso aconselhar isso porque eu nao sei de que jeito essa água chegou ou de que jeito essa água saiu."

A regulamentação do uso de águas subterrâneas peca justamente no controle de qualidade, avalia Hirata, do Cepas.

"A crítica que faço é que a portaria contempla alguns parâmetros importantes, mas esquece de outros, como os solventes clorados, que são comuns em áreas industrializadas e que poderiam gerar problemas por inalação", diz o pesquisador. "Da mesma forma, a qualidade da água varia no tempo e uma outra exigência seria [a realização de] análises periódicas [algo não previsto pela portaria]."

Alexandre Corrêa: condomínio tem de dispensar de 8 a 10 mil litros de água subterrânea por dia em meio a cortes diários de abastecimento. Foto: Vitor Sorano/iG - 27.2.15Água do lençol freático que sai do condomínio onde Alexandre Corrêa é zelador, na zona norte de São Paulo. Foto: Vitor Sorano/iG - 27.2.15Água que sai do condomínio em que trabalha Alexandre Fernandes chega a bueiro. Foto: Vitor Sorano/iG - 27.2.15Daniel Sobral, zelador de um condomínio na Vila Olímpia: descartes diários de água subterrânea. Foto: Vitor Sorano/iG - 27.2.15

Não é desperdício, diz órgão do governo

O descarte de milhares de litros de água de lençol freático por dia não é considerado um desperdício pelo governo Alckmin. O argumento é que, uma hora, a água que sai do subsolo e cai na sarjeta - ou, como é o caso dos condomínios mais novos, despejada em galerias pluviais - chegará a algum córrego.

"A água drenada para as sarjetas por vários prédios na cidade de São Paulo não significa um desperdício dos condomínios", diz o Derpartamento de Águas e Energia Elétrica de São Paulo (DAEE), em nota. "Ela acaba sendo captada pelo bueiro mais próximo e a rede de microdrenagem a lança em um córrego. E a água volta ao ciclo hidrológico."

Trata-se de uma meia-verdade, avalia Délcio Rodrigues, vice-presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Vital Civilis, de promoção de sustentabilidade.

"A afirmação é verdadeira até um certo ponto. Do ponto de vista da bacia, a água que está no lençol freático mais cedo ou mais tarde vai atingir o rio. De qualquer maneira, a água [que foi para a sarjeta] não foi perdida", afirma. "Agora, se eu olho mais localmente, estou desperdiçando porque estou acelerando o descarte de uma água subterrânea que poderia ser aproveitada [naquele local]."

A maior utilização, aponta Rodrigues, reduziria o ganho da Sabesp (embora a regulamentação baixada em setembro abra espaço para a companhia cobrar pelo esgoto gerado pelas águas de lençol freático).

"Se você começa a economizar, se torna um consumidor menor para a Sabesp."

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