Com falta d'água, clientes da Sabesp dizem pagar por ar; técnico confirma risco

Por Carolina Garcia e Vitor Sorano - iG São Paulo |

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Companhia instala equipamento de bloqueio onde o relógio gira para trás quando o abastecimento é suspenso; veja vídeos

Ao girar para trás por causa do ar, hidrômetro do serralheiro Ademir foi de 0 para 999873
Vitor Sorano/iG

A Sabesp tem instalado uma espécie de bloqueador de ar nos medidores de seus clientes. O objetivo é impedir que, quando falta água, situação relatada por 71% dos paulistanos, o relógio gire para trás. A companhia nega a prática.

A filha do serralheiro Ademir (que pediu para ter seu sobrenome preservado) filmou o momento em que o hidrômetro, como é chamado o medidor de água, girava para trás, há algumas semanas. Em seguida, uma equipe da Sabesp esteve na casa dele para instalar um pequeno equipamento no cavalete, conta o morador.

"Dois dias depois estavam aí para verificar", diz Ademir, que vive em um bairro na periferia de São Paulo onde, segundo ele, o abastecimento tem sido cortado das 19h às 13h do dia seguinte.

A instalação desse equipamento foi confirmada por um técnico da companhia, que pediu anonimato por medo de represálias, e seria feita às escondidas do cliente. "A gente é proibido de falar para o consumidor que estamos instalando. O que a gente fala para o cliente? Fala que esta trocando o lacre", conta o técnico.

O equipamento, entretanto, não impede o hidrômetro gire para a frente e eleve artificialmente o consumo de água, como denunciam alguns clientes ouvidos pela reportagem. Moradora da Vila Ema, bairro da periferia da zona leste de São Paulo, Emília Romiti viu sua conta saltar de R$ 150,91 em dezembro para R$ 301,82 em janeiro,.

"Fiz um filme [do hidrômetro contabilizando ar] e vou levar para eles. Quando falta água é que isso acontece", conta a dona de casa.

Emília Romiti filmou hidrômetro girando em razão do ar após sua conta dobrar na Vila Ema
Vitor Sorano/iG
Emília Romiti filmou hidrômetro girando em razão do ar após sua conta dobrar na Vila Ema

Morador de Carapicuíba, na região metropolitana de São Paulo, Wanderley Silva de Faria flagrou os marcadores do hidrômetro girando rapidamente no dia 24 de janeiro. Ele postou o vídeo no seu perfil do Facebook. Até a publicação da reportagem, o post foi compartilhado por 17 mil usuários. Segundo ele, o bairro já enfrenta um rodízio de abastecimento de água desde o ano passado.

"Passamos mais tempo sem água do que com ela. No dia do vídeo, ouvi um barulho no registro e fui checar. A partir daquele dia, sempre deixo meu registro fechado", explica Faria. Essa manobra teria evitado o aumento repentino da conta. 

A denúncia de Faria serviu de alerta para outros clientes Sabesp, como para Flávio Antônio da Silva, morador de Saúde, na região sul da capital. "Todo os dias no periodo da tarde ou à noite temos cortes. Aí que eu entendi o problema. Quando a água volta, vem muito ar". 

Silva viu sua conta aumentar de R$ 30 para R$ 80, valor que não representa o atual consumo, segundo ele. Desde os cortes, o morador lava menos roupas, reserva água da máquina de lavar para reuso e diminuiu os banhos em casa. "Em novembro, recebi o desconto pela economia. Não justifica o aumento sendo que o consumo vem caindo." 

'Ar aumenta a conta', diz técnico

A possibilidade de que o cliente acabe pagando por ar é real, afirma o técnico da Sabesp ouvido pelo iG. "Tem ar sim [na rede de abastecimento] e aumenta a conta da população", diz o técnico. "Como não está tendo água, as contas estão disparando [por causa do ar]."

O uso de bloqueadores de ar é proibido por norma estadual, uma vez que não existe nenhum equipamento desse tipo homologado pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normatização e Qualidade Industrial (Inmetro).

A Sabesp argumenta, ainda, que a quantidade de ar existente no sistema é "tão pequena que não representa diferenças significativas na conta mensal" e que "em condições normais de abastecimento, a maioria absoluta das redes de distribuição e das ligações de água operadas pela Sabesp não está sujeita à entrada de ar nas tubulações."

O problema, entretanto, é quando há cortes no abastecimento, como tem ocorrido agora - o governo fala em "intervenções físicas". Nessas ocasiões, a possibilidade de que o ar entre na tubulação é grande, diz Luciano Farias de Novaes, doutor em Engenharia Hidráulica e Saneamento e professor da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp).

"Nesse período [sem água], entra ar. A água [quando volta] expulsa o ar para o cavalete da casa das pessoas", diz Novaes. "Se [o cliente] comprovar que devido ao abastecimento intermitente está passando muito ar e deu consumo alto, [a recomendação é que ele] apresente isso e o quanto ele consumia antes à Sabesp. Acredito que a Sabesp não vai se comprometer a não conversar com o usuário."

Procurada, a Sabesp orienta os clientes que tiveram aumento na conta de água a verificar se não há vazamentos e lembra que eles podem solicitar uma vistoria técnica.

"Testes e estudos feitos pela companhia já demonstraram que o possível ar residual que possa existir na rede tem um volume insignificante em relação ao volume consumido", diz a nota da companhia.

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