Saúde para voluntários a caminho do Chile ou Haiti Por Jaime Rocha* São Paulo, 11 (AE) - Após os recentes terremotos que devastaram o Chile e o Haiti, o número de brasileiros que estão viajando a esses países levar ajuda humanitária é crescente. As condições nessas regiões são muito precárias por conta das catástrofes e há diversos riscos, o que exige que os viajantes, militares ou não, sejam orientados por médicos sobre alguns cuidados importantes.

Desta forma, é válido destacar que o calendário de vacinas deve estar em dia e os viajantes devem se manter atentos para prevenir doenças transmitidas por insetos, alimentos e água.

Quando pensamos em ajudar o próximo, precisamos pensar também em não prejudicar nossa própria saúde. Checar a carteirinha de vacinação antes de qualquer viagem, principalmente para o Haiti nesse momento, é muito importante. As imunizações que precisam estar sempre atualizadas são contra a poliomielite, gripe sazonal e pandêmica (se disponível), varicela; tétano, difteria e coqueluche (também conhecida com dTPa para adultos), sarampo, caxumba, rubéola (tríplice viral, MMR, VTV ou SCR). Além dessas, a vacina de tétano também deve estar em dia, assim como hepatite A, febre tifóide e outras como meningite meningocóccica C, hepatite B (existem esquemas acelerados se necessário), contra raiva pré-exposição e contra diarreia dos viajantes e cólera.

Para quem vai ao Chile, basta estar em dia com o calendário de vacinação - atentar para antitetânica e contra gripe, se possível.

No Haiti, outra grande preocupação é com doenças transmitidas por insetos, como dengue e malária e a principal medida preventiva nesses casos é evitar o contato com os mosquitos. Para tanto, é recomendado o uso de repelentes com substâncias ativas (DEET ou picardin) e como o tempo de proteção varia conforme a concentração de cada substância é preciso adotar também outras medidas: usar camisas com mangas longas, calças e chapéu. As roupas também podem ser preparadas com permetrina (somente para roupa). Permanecer em ambientes fechados quando possível (malária - entardecer até o amanhecer; dengue o dia todo) e dormir em camas ou redes com mosquiteiros contribuem para evitar o contato com os transmissores.

Os cuidados com a ingestão de alimentos e água devem ser reforçados a cada refeição nos países atingidos por catástrofes, já que na maioria dos casos o sistema de abastecimento de pode estar prejudicado. São inúmeras as doenças que podem ser transmitidas por meios de água e alimentos contaminados como, por exemplo, hepatite A, febre tifóide, poliomielite, diarreias e parasitoses. Lave as mãos com frequência e principalmente antes de qualquer refeição. Isso pode ser feito com água e sabão ou soluções com álcool. Alimente-se somente com alimentos industrializados e com embalagem íntegra ou com alimentos frescos que foram adequadamente cozidos e servidos quentes; não consuma carne crua ou mal passada, frutos do mar ou frutas e vegetais não preparados adequadamente.

Os viajantes devem beber somente água engarrafada, ou tratada adequadamente, fervida e filtrada, ou, ainda, bebidas engarrafadas abertas na hora do consumo. É relevante evitar água de fontes naturais, de torneira e gelo. Caso haja necessidade de preparar água para consumo individual, o ideal é utilizar filtros especiais, ferver e filtrar, ou usar cloro ou iodo.

As pessoas que forem ao Chile ou ao Haiti ou que já estejam nessas regiões podem encontrar situações extremamente estressantes como o encontro de muitos corpos, pessoas em sofrimento com lesões graves, famílias desmontadas, extensa destruição das estruturas físicas. Todas essas situações podem causar problemas psicológicos e emocionais. Muitas vezes o viajante pode não querer parar de trabalhar e esquecer a necessidade de descanso e alimentação adequada. Para garantir sua própria saúde física e mental, os visitantes devem limitar o horário de trabalho para no máximo 12 horas por dia, diversificar as atividades, variando trabalhos estressantes com funções menos estressantes, alimentar-se adequadamente, fazer pausas frequentes e ficar em contato com familiares e amigos.

Outros cuidados adicionais também são necessários: usar roupas e calçados a todo momento, proteger a face, mãos e pés quando houver possibilidade de contato direto com matéria orgânica (recolhimento de cadáveres, por exemplo). A comunidade médica alerta também para o uso de luvas, máscaras e preservativos. Para profissionais da saúde que farão atendimento, recomenda-se levar máscaras N-95.

É importante também ressaltarmos que a bagagem deve conter água e comida suficiente para todo o tempo de permanência, além de repelentes e mosquiteiros, medicamentos (como antibióticos, anti-espasmósticos e antidiarréicos e de uso crônico), óculos ou lentes reserva, purificadores de água (filtros especiais ou sistemas químicos), EPIs - equipamentos de proteção individual (máscaras, luvas, óculos, sapatos adequados), kit de primeiros socorros individual (ataduras e compressas, gazes, luvas descartáveis, tesouras e pinças, antissépticos e antialérgicos). Vale ressaltar que materiais perfuro cortantes (tesouras e lâminas) devem ser acompanhados por declaração médica para evitar que sejam confiscadas nos aeroportos durante a viagem.

* Dr. Jaime Rocha é infectologista, médico formado pela Universidade Federal do Paraná. Especialista em Clínica Médica pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica, em Infectologia pela Sociedade Brasileira de Infectologia e Especialista em Medicina do Viajante pela Sociedade Internacional de Medicina do Viajante - ISTM. Também é médico do Canal do Médico do grupo DASA.

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