Sarney adia decisão sobre renúncia e Dornelles é cogitado para cargo

BRASÍLIA - O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), só decide em meados de agosto se renuncia ao cargo, assunto que já é discutido abertamente entre os senadores e o Palácio do Planalto. Sarney está sendo pressionado pela família a se afastar e pelos senadores, especialmente o grupo ligado ao líder da bancada do PMDB, Renan Calheiros (AL), a ficar e enfrentar os adversários na arena do Senado.

Valor Online |

Agência Senado
Francisco Dornelles, do PP
Num momento de irritação, Sarney disse a amigos que, por ele, já teria deixado o cargo, que ele não queria e ao qual foi obrigado a concorrer para manter a hegemonia do PMDB no Senado, contribuir para a estabilidade e governabilidade e fortalecer o grupo na sucessão presidencial de 2010. Deu tudo ao contrário. Em outros momentos, Sarney tem rejeitado a renúncia - só não fica claro se ao mandato ou à presidência do Senado.

É a chamada "solução Renan" - faz um acordo com a oposição ou parte dela, sai de cena durante algum tempo e passa o cargo a um outro senador capaz de atender às demandas da oposição, do PT e de Renan Calheiros, que detém o controle da maior bancada, o PMDB. Isso já foi tentado, mas as conversas não foram definitivas. Um nome que apareceu forte foi o do senador Francisco Dornelles, do PP do Rio de Janeiro, partido que integra a base de apoio ao governo no Senado.

Dornelles foi ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso (fez o "maior acordo do mundo", o do FGTS), é considerado firme no comando, tem experiência e é apontado como um conciliador capaz de pacificar o Senado. Mas surgiu um problema de parentesco: Dornelles é tio-avô do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, por sua vez pré-candidato do PSDB à Presidência. Outros nomes têm sido discutidos como Valdir Raupp (RO), Leomar Quintanilha (TO) e Neuto do Conto (SC). Não pode ser um petista porque significaria a " humilhação total do PMDB ".

A negociação para o afastamento de Sarney incluiria a CPI da Petrobras e eventuais compensações para o PMDB no governo.

Outra opção é a "Solução Ramez Tebet", referência à renúncia do então senador Jader Barbalho à presidência do Senado, em 2001, quando PMDB trouxe de volta para o Senado o então ministro do que hoje é a Integração Nacional, Ramez Tebet. Desta vez a solução seria o mineiro Hélio Costa (MG), ministro das Comunicações. Ele teria de se desincompatibilizar mesmo em abril para disputar o governo do Estado ou a reeleição ao Senado.

Ocorre que Costa, segundo apurou o "Valor", teria apresentado resistência por temer o desgaste do cargo, justamente quando se prepara para disputar uma eleição majoritária em Minas. Além disso, Costa não é do grupo de Renan, e essa é uma condição importante pois Renan não aceita se tornar novamente alvo dos senadores que tentaram lhe cassar o mandato, no ano passado.

No Palácio do Planalto a situação propriamente não mudou - o que se considera que mudou foram as circunstâncias no Senado. Lula, ao dizer nesta quinta-feira que cabia aos senadores, todos maiores de 35 anos, resolver a situação, estaria apenas se adaptando a essa nova circunstância. Há também a situação dos senadores do PT: da bancada de 12, nove terão de disputar a reeleição, inclusive os do Sul e Sudeste, regiões nas quais a repercussão do caso Sarney é mais intensa.

Sarney, por essa avaliação, teria chegado ao limite como o chegou o ex-senador Antonio Carlos Magalhães antes de renunciar. O então presidente do Senado Jader Barbalho chegou a lhe oferecer uma porta de saída, mas como ACM não queria ficar refém de Jader recusou, mas não aguentou a pressão: ele perdia sua base eleitoral a olhos vistos na Bahia (as transmissões da TV Senado formavam aglomerações nas portas das lojas que vendiam televisores).

Mas Sarney não descarta a hipótese de enfrentar os adversários, o que significaria a virtual paralisação do Senado. E tem muita força para isso: de saída, o presidente do Conselho de Ética, Paulo Duque (PMDB-RJ), pode despachar para o arquivo todas as representações contra o senador - ele está no cargo para fazer essa blindagem.

A renúncia, segundo o senador Renan Calheiros, está descartada porque o PSDB, ao subscrever a representação contra Sarney, tornou a disputa político-eleitoral. Por isso o PMDB vai retaliar e representar contra o líder tucano Arthur Virgílio (AM), que teria pago um funcionário enquanto ele estava no exterior e tomou empréstimos com o ex-diretor do Senado Agaciel Maia.

"O PSDB apoiou essa insanidade, uma guerra sem limites, e isso exige um comportamento recíproco do PMDB", disse Renan ao "Valor". Renan, o presidente do PMDB, Michel Temer (SP), e o presidente do PSDB, Sérgio Guerra (PE), já discutiram uma saída para a crise, mas não há solução em vista. Enquanto não houver um nome capaz de conciliar os interesses em jogo, o governo vai administrando a situação atual com Sarney.

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