Sargento diz que apelou por vida de jovens no morro

RIO DE JANEIRO - Em depoimento nesta quarta-feira, um sargento reformado do Exército disse ter ligado para o celular de um dos três jovens do Morro da Providência (Zona Portuária do Rio), mortos no Morro da Mineira (bairro do Rio Comprido), no sábado, 14 de junho, e feito um apelo pela vida deles. No entanto, segundo o sargento, um dos traficantes teria respondido: Perdeu! perdeu! É o CV (Comando Vermelho)!.

Redação com Agência Estado |

O suboficial, morador da Providência, foi a última testemunha ouvida nesta quarta no Inquérito Policial Militar (IPM) instaurado para apurar o assassinato de Wellington Gonzaga da Costa Ferreira, com 19 anos de idade, David Wilson Florenço da Silva, 24 anos, e Marcos Paulo Rodrigues Campos, 17 anos.

Os jovens foram entregues para traficantes do Morro da Mineira por ordem do tenente Vinicius Gidhetti de Moraes Andrade, que os tinha detido no Morro da Providência por desacato.

Segundo o relato da promotora militar Hevelize Jourdan Covas, o sargento tentou convencer os traficantes a libertarem os jovens: "ele pediu para não fazerem crueldade, pois todos eram rapazes do bem".

O sargento também informou ao capitão Fábio Henrique Peçanha Azevedo, encarregado do IPM, que o Exército já há algum tempo cometia excessos dentro do Morro da Providência.

Juiz acata denúncia contra militares

Nesta segunda-feira, o juiz federal Marcelo Granado, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio, acatou a denúncia que foi apresentada pelos procuradores da República Patrícia Núñez Weber, Neide Cardoso de Oliveira, José Augusto Vagos e Fábio Seghese contra os 11 militares do Exército envolvidos na morte de três jovens do Morro da Providência. Os promotores denunciaram os 11 militares por homicídio triplamente qualificado.

AE/Wilton Junior
ae

Militares em patrulha antes de deixarem o morro

Na denúncia, o MPF pediu ao juiz a quebra dos sigilos telefônicos dos denunciados, para apurar se houve contato prévio entre os militares e os traficantes do Morro da Mineira. Isso porque os 11 militares entraram em zona hostil de forma amistosa, tendo conversado tranqüilamente com um integrante da facção criminosa antes de entregarem as vítimas.

O MPF imputou a cada militar os crimes de homicídio triplamente qualificados, pois foram cometidos de forma cruel, sem possibilidade de defesa pelas vítimas e por motivo torpe. A pena para cada acusado pode variar de 12 a 30 anos de detenção.

A denúncia partiu de investigações da Polícia Civil, em inquérito remetido na semana passada pela Justiça Estadual à Justiça Federal. Além de ratificarem o pedido de prisão preventiva dos 11 denunciados, os procuradores pediram à 7ª Vara que requisitasse ao Ministério Público Militar uma cópia do Inquérito Militar nº 05/08, que também apura os crimes cometidos.

Os denunciados pelo MPF são: Vinícius Ghidetti de Moraes Andrade, Leandro Maia Bueno, José Ricardo Rodrigues de Araújo, Renato de Oliveira Alves, Samuel de Souza de Oliveira, Eduardo Pereira de Oliveira, Bruno Eduardo de Fátima, Sidney de Oliveira Barros, Fabiano Eloi dos Santos, Julio Almeida Ré e Rafael Cunha da Costa Sá.

Entenda o caso

AE/Marcos DPaula
Policiais do Exército e moradores em confronto
Marcos Paulo da Silva, de 17 anos, Wellington Gonzaga Costa, 19, e David Wilson Florença da Silva, 24, moradores do Morro da Providência, na zona Portuária do Rio, teriam sido entregues no sábado, dia 14, e mortos, menos de 12 horas depois, por traficantes do Morro da Mineira, no Catumbi.

Em depoimento ao titular da 4ª Delegacia de Polícia, delegado Ricardo Dominguez, alguns dos suspeitos teriam confessado o crime. Os jovens foram detidos pelos militares às 7h30 do sábado, quando voltavam de táxi de um baile funk, por desacato. Porém, o comandante da tropa determinou que eles fossem liberados após serem ouvidos.

Testemunhas afirmam que os rapazes ficaram sob o poder dos militares até as 11h30 e depois foram entregues a traficantes de uma facção rival a do Morro da Providência, onde os rapazes moravam, no Morro da Mineira, onde foram executados. Há denúncias de que as vítimas teriam sido vendidas por R$ 60 mil.

De acordo com o laudo do Instituto Médico Legal (IML), Wellington teve as mãos amarradas e o corpo perfurado por vários tiros. David teve um dos braços quase decepado e também foi baleado. Marcos Paulo morreu com um tiro no peito e foi arrastado pela favela com as pernas amarradas. Os corpos foram encontrados no lixão de Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

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