SÃO PAULO ¿ Depois de enfrentar os estragos deixados pelas fortes chuvas, as principais cidades do Estado de Santa Catarina, destinos cobiçados no verão brasileiro, têm à frente um novo desafio. Convencer turistas de que as praias estão aptas para receber e celebrar a chegada de 2009 e evitar um novo baque: o desaquecimento econômico.

Com a rotina sendo aos poucos recuperada, as secretarias de turismo de cidades como Florianópolis, Balneário Camboriú e Itajaí concentram os esforços para promover campanhas e promoções que atraiam ou apenas não afugentem turistas.

Daniela Seco, secretária adjunta de turismo de Florianópolis, afirma que a tragédia tomou dimensões, em alguns momentos, exageradas. Ela diz que apenas bairros periféricos foram atingidos e que a região beira-mar não foi prejudicada. Floripa está normal, não teve nenhum impacto. Estamos com uma boa estrutura. Não tivemos alagamentos, corte de luz, problemas com abastecimento de água. As praias continuam lindas, seguras e prontas para receber turistas, diz Daniela. A expectativa era muito positiva para esta temporada. No ano passado, tivemos um verão fabuloso, a economia ficou superaquecida. Esperávamos crescer mais em 2008, completa.

Praias de Florianópolis
Praias de Florianópolis
De novembro até o final de fevereiro, a população de Florianópolis triplica. Em 2007, semanas antes do Natal, os principais hotéis já estavam lotados - de turistas e reservas para o verão.

A secretária de turismo não minimiza o impacto das chuvas em todo o Estado, mas defende a capacidade de rápida reestruturação. A resposta e a ajuda foram ágeis e focadas. Os municípios vizinhos mais impactados estão trabalhando para se reerguer rapidamente, comenta.

Na opinião de Daniela, o abalo será maior nas pousadas de pequeno porte. Entretanto: Estamos receosos. A deflagração do desastre pode comprometer o turismo em Santa Catarina. Pequenas empresas talvez sintam com maior intensidade. Os hotéis mais procurados ainda não tiveram cancelamentos, e as empresas já estão focando suas atividades no verão de 2009. Torcemos por uma grande virada. 

Além de ações pontuais, a secretaria de turismo está preocupada em atender aos telefonemas e responder aos e-mails de turistas. Segundo Daniela, a procura por informações aumentou consideravelmente. Ela defende a importância de buscar dados concretos em órgãos públicos antes de cancelar a viagem. Visitar a cidade é uma questão de sustentabilidade, é uma grande ajuda. A mídia divulgou a tragédia em pontos isolados. Florianópolis não está nesse pacote.

O apelo é estratégia das diversas secretarias e órgãos ligados ao

Neiva Daltrozo/Divulgação
Bairros alagados em Itajaí
Bairros alagados em Itajaí
turismo de Santa Catarina. Darlan Martins, diretor de planejamento turístico da Fundação Itajaiese de Turismo (Fitur), tem passado os dias informando turistas e agências de viagens de que a situação da cidade de Itajaí, uma das mais atingidas pelas tempestades, está voltando ao normal.  Nosso trabalho é tranquilizar as pessoas. Aconteceu, tivemos diversos pontos prejudicados, mas as regiões turísticas estão intactas. 

Segundo ele, a praia Brava, a Cabeçuda ¿ duas das mais famosas e badaladas ¿ e o centro histórico não foram atingidos. Além de ações pontuais, ele revela que há uma força-tarefa no Estado para promover comunicados nacionais estimulando as pessoas a viajar.  Martins tem participado de diversas reuniões com demais secretarias de turismo dos municípios de Santa Catarina. Promoções especiais, parcerias com agências de viagens e companhias áreas estão entre as próximas iniciativas para afastar a crise.

A preocupação de Osmar de Souza Nunes Filho, secretário de turismo da cidade de Balneário Camboriú, é semelhante à de Daniela Seco e Darlan Martins: informar as pessoas de que não há riscos. As chuvas castigaram os bairros Vila Real e Iate Clube. A região litorânea não foi prejudicada. Não tivemos queda de energia e nenhuma ponte quebrou. As praias estão em perfeita ordem. Entendemos o receio da população, mas pedimos que, antes de cancelar a viagem, a população procure informações verídicas.

Apesar dos esforços, o prejuízo já foi mensurado. Darlan comenta que a Fitur tinha projetado um aumento do movimento em relação a 2008 em torno de 5 a 8%. Agora, a expectativa é que a queda alcance de 15 a 20%. Osmar de Souza aponta que Balneário já registra uma queda de movimento significativa para a economia local. Tivemos queda de pelo menos 15% do movimento turístico de outubro e novembro. Além disso, aproximadamente 15% dos pacotes para Natal e Ano Novo já foram cancelados.

Santa Catarina "sem clima"

Buscar informações específicas em centros turísticos ou secretarias de turismo foi justamente o que a publicitária Renata Humes não fez. Impressionada com as imagens transmitidas pelas redes de televisão, ela optou por mudar o destino de suas férias. Balneário Camboriú ¿ cidade escolhida para passar o réveillon de 2008 com mais sete amigas - foi substituída pelo Rio de Janeiro.

Ela aponta que as notícias sobre o aumento dos preços, os constantes saques e as suspeitas de contaminação por leptospirose (ainda sem nenhum registro oficial) foram determinantes. Preferi não correr o risco. Fiquei preocupada com a situação da cidade, questão de segurança, acesso às praias, diz ela.

Além disso, a publicitária também diz acreditar que a cidade não terá clima para festejar a virada do ano. A situação é muito delicada. Ano novo a gente quer sair, se divertir, curtir praias e baladas. A cidade não terá clima de festa, pois tem muitos motivos para ficar triste. É um momento de ajuda, não de celebração, avalia.

De fato, a preocupação de Renata não é infundada. As 16 semanas de chuvas deixaram 117 mortos e 31 desaparecidos. Mais de 78 mil pessoas tiveram que abandonar suas casas e seguir para abrigos públicos ou residência de familiares e amigos. Ao todo, mais de 1,5 milhão de pessoas foram afetadas.

A estudante Larrisa Tietjen, 21 anos, nasceu e cresceu em Itajái. Ela comenta que as cidades localizadas ao norte do Estado tiveram grande parte do território alagado e destruido. Segundo Larissa, as vias de tráfego, os acessos a alguns municípios, a própria estrutura do comércio e do turismo ainda estão comprometidos.

Contrariando as declarações dos secretários de turismo, a estudante afirma que a imprensa têm explorado pouco os problemas graves deixados pelas chuvas: falta de saneamento básico e contaminação das águas.

Apesar de narrar os danos na infra-estrutura, a jovem assevera que Balneário Camboriú e as demais praias do litoral Catarinense têm condições de recuperação rápida, que pode ser acelerada com a injeção de capital gerada pelo próprio turismo.

Clima de festa, alegria, virada é justamente o que os órgãos públicos e as empresas que dependem do turismo pretendem criar nos municípios de Santa Catarina. Darlan afirma que a Prefeitura de Itajai investiu na limpeza das praias, os acessos estão livres e o porto turístico não foi danificado ¿ todos os cruzeiros e viagens de transatlânticos estão confirmados.   

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