Sandra Corveloni estrela em Paris montagem do dramaturgo francês Koltès

PARIS ¿ Atores brasileiros, entre eles Sandra Corveloni, premiada no último Festival de Cannes, dão corpo às visões de Bernard-Marie Koltès, o dramaturgo francês contemporâneo mais conhecido no mundo, na montagem de sua obra O Retorno ao Deserto, dirigida por Catherine Marnas, no Théâtre de Paris.

AFP |

"Tenho um amor absoluto pela obra de Koltès. Foi um flechada na minha vida desde que li o manuscrito de Roberto Zucco. A dimensão metafórica dessa obra é mais evidente no Brasil, onde impera a violência de uma nova divisão do mundo. Além disso, vi sua dimensão universal: os ricos se protegem atrás dos muros, vivem como em uma prisão, com guardas e câmeras", comentou Sandra Corveloni.

Sandra Corveloni (de vestido preto) protagoniza "O Retorno ao Deserto" / Divulgação

"Koltés foi traduzido no Brasil há 10, ou 15 anos, mas sem autorização, em obras como 'Na Solidão dos Campos de Algodão' e 'A Noite Antes da Floresta', mas foram proibidas", completou.

A penúltima obra de Koltès, criada poucos meses antes de sua morte em 1989, aos 41 anos, quando lutava contra a Aids, é, em suas próprias palavras, "uma peça de luta entre um irmão e uma irmã", Adrien e Mathilde, com a guerra de libertação da Argélia e atentados racistas como pano de fundo histórico. A peça evoca uma França provinciana, colonialista e racista, onde reinam a prática religiosa e os princípios militares.

Jogo cênico bilíngüe

Na montagem de Catherine Marnas, que durante muito tempo dirigiu teatro no México, os diálogos são ditos em português e, depois, repetidos, ou prolongados, em francês, e vice-versa.

Sandra Corveloni, ganhadora do prêmio de melhor atriz do último Festival de Cannes por sua atuação em "Linha de Passe", de Walter Salles, lidera o elenco de nove atores brasileiros e cinco franceses, com um inovador jogo cênico bilíngüe e personagens de "cor e sombra".

"Atuar assim, em dobro, é um jogo quase sensual. Você entende o texto com a cabeça e, depois, leva um tempo para que chegue e atinja o corpo. Na cabeça, somos dois e, às vezes, mais, a mesma cena representada dentro e fora de você", disse Sandra, que interpreta Mathilde.

Estão no elenco Julien Duval, Aline Filocomo, Franck Manzoni, Gisella Millas, Maud Narboni, Olivier Pauls, Jairo Pereira, Rita Pisano, Ricardo Romano, David Rosa, Benedicte Simon e Gustavo Trestini.

"A guerra da Argélia é um fato histórico, e os fatos históricos podem ser comparados. Cada nação tem coisas a esconder, que lhe dão vergonha. Koltés fala do presente com poesia, sem maniqueísmo", afirmou o ator brasileiro André Auké, que interpreta um dos dois Adrien, o consciente e o inconsciente.

"A obra de Koltés é universal. Essa experiência é muito enriquecedora para nós como atores brasileiros; observar como trabalham os atores franceses, descobrir um país pela palavra de um escritor tão rico em matizes como Koltès... Todos começamos a estudar francês, criamos uma terceira língua com a mistura do francês e do português", contou a atriz Rita Pisano.

A peça foi apresentada com sessão lotada durante uma semana, até domingo, no Théâtre de Paris. Em 2009, o grupo fará uma turnê pelo Brasil, como parte das comemorações culturais pelo Ano da França.

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