Saída de Ciro deve favorecer polarização, dizem analistas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi pragmático ao forçar a retirada da candidatura presidencial de Ciro Gomes (PSB). A saída deve favorecer a polarização entre José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) e, eventualmente, permitir a decisão da eleição no primeiro turno, segundo a avaliação de analistas políticos.

Marcelo Diego, iG São Paulo |

Os dados das pesquisas disponíveis até agora indicam que Serra deve ser beneficiado em um primeiro momento, com a transferência de parte dos votos do Ciro. Agora, precisamos ver qual será o comportamento do próprio Ciro, se irá manter um forte antagonismo ao presidente Lula ou se irá adotar uma posição de neutralidade, afirma o cientista político Leôncio Martins Rodrigues. Ele diz que Lula mostrou grande habilidade política, ao conseguir fazer preservar seus interesses no final do processo.

Valeriano Costa, professor de Ciências Políticas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), diz que a manutenção da candidatura de Ciro Gomes poderia ser, a longo prazo, prejudicial para o PT. Se Ciro crescesse, poderia dividir o voto que hoje é da Dilma, diz. Sem ele na disputa, Dilma tende a concentrar forças na disputa direta com Serra. O apoio do PSB não significa apenas o acréscimo formal de cerca de mais um minuto no tempo de propaganda eleitoral gratuita de rádio e televisão, mas também a formação de palanques mais fortes para a candidata nas regiões Nordestes e Centro-Sul.

Para o professor Valeriano Costa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou sem opção a não ser forçar a retirada de Ciro da disputa, sob o risco de ver seu cálculo político prejudicado. Talvez tenham imaginado que Ciro poderia ser uma opção, caso Dilma não se afirmasse. Com o crescimento dela, Ciro virou uma espécie de pedra no sapato desta aliança que está se formando. Ele passou a ser um intruso, afirmou. 

O cálculo de Lula é aglutinar as forças de sustentação do governo em torno da candidatura de Dilma Rousseff e tentar transformar a eleição de outubro em uma espécie de plebiscito, entre os que desejam a continuidade do governo e os que pregariam a ruptura. Dilma seria a defesa do presidente, com índices de popularidade superiores a 70%. Serra tenta fugir do estigma de opositor.

O professor emérito de Ciências Políticas da UnB (Universidade de Brasília), David Fleischer, acredita que as intenções de voto atribuídas a Ciro (entre 8% e 9%, segundo as pesquisas mais recentes) devem ser divididas, a não ser que o representante do PSB faça um gesto forte de apoio a Dilma Rousseff. Ela tem procurado por isso. Se ele aparecer em um programa de televisão ou der uma entrevista dizendo que Dilma é sua candidata, pode influenciar favoravelmente, afirma. O professor adverte, porém, que Ciro é hoje um político magoado. Ele acha que Lula o pressionou para desistir e entende que apoiou fortemente o governo, seja como ministro ou como deputado.

Na eleição de 2006, Ciro Gomes teve 667.000 votos para deputado federal. A coligação da qual fez parte conseguiu eleger 13 dos 22 deputados do Ceará, Estado que representa 4% do total de votos do País. Como pré-candidato a presidente, chegou a ter cerca de 20% das intenções de voto, mas foi perdendo espaço nas pesquisas e apoio dentro do próprio PSB. Em articulação com o Planalto, mudou seu domicílio eleitoral para São Paulo, a fim de negociar um plano B _ser candidato ao governo estadual, com apoio do PT_, caso se inviabilizasse como presidenciável. O PT lançou Aloizio Mercadante ao governo, fechando esta porta para Ciro. Ciro foi espremido. Não recebeu nada em troca, diz o cientista político Ricardo Caldas.

Segundo turno

O professor David Fleischer acha que as opções políticas de Ciro ficaram restritas a ser candidato a deputado federal ou tentar negociar a participação num futuro governo, cuja definição ainda está longe. Acredito que haverá segundo turno, mas fica por conta de Marina Silva conseguir aumentar suas intenções de votos, disse.

Já o cientista político Leôncio Martins Rodrigues acha que a desistência de Ciro pode ocasionar a decisão da eleição no primeiro turno _o segundo termo é dispensado quando um candidato consegue atingir maioria simples dos votos válidos. Mas isso é em tese. A maioria da população ainda não tem informações para decidir o voto.

Valeriano Costa diz que a saída de Ciro abre caminho para uma polarização mais acentuada da campanha. O governo aposta suas fichas em uma disputa entre dois candidatos apenas. Com isso, Lula deve jogar todas as suas fichas no voto dos mais pobres, que constituem a maioria do eleitorado. Se conseguir levar adiante esse plano, pode até eleger Dilma no primeiro turno, diz.

Para ele, uma ida ao segundo turno poderia fortalecer Serra. Ele tem capacidade de aglutinar novos elementos, criar novos fatos, atrair dissidentes da campanha de Dilma.

Repercussão

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